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Universitários demonstram que idade não é limitação para estudar

Voltar para a faculdade após os 50 anos? Sim, é possível e viável, relatam os estudantes de Direito Júnior Krubnik e de Letras Saulo Semann.

16/03/2022

Universitários demonstram que idade não é limitação para estudar

Júnior Krubnik possui um emprego estável, com o qual está satisfeito, tem três filhos adultos – um advogado, um médico veterinário e um administrador – e já é avô aos 53 anos de idade. No início de 2022 ele surpreendeu a família e os amigos ao decidir trocar o tempo livre e os momentos de lazer pela sala de aula.

 “O que mais tem de importante na vida é o tempo. E ele está correndo. Se você não aproveitar esse tempo, a vida passou, você morreu e fez o que? E o tempo ocioso, você não poderia ter ocupado? Será que a tua mente não precisaria de algo a mais?”, questiona Krubnik, que é acadêmico do primeiro ano de Direito da Faculdade São Vicente.

Ele conta que retomou os estudos para se manter atualizado.  Decidiu estudar Direito, “não tanto pelo fato de fazer uma faculdade, de se tornar um advogado, mas pelo fato de enriquecer a mente, de estar injetando informações nela, te enriquecendo culturalmente para que você não fique parado no tempo”. 

Já Saulo Semann, 54 anos, apesar de ter estudado Direito fora do Brasil, nunca teve aqui uma graduação. Por isso resolveu estudar Letras – Português na Unicentro, onde cursa o primeiro ano.  O que o fez voltar a uma instituição de ensino foi essa vontade de ter o ensino formal, bem como de trabalhar com o que gosta: a literatura. “O conhecimento é o grande bem que carregamos e ninguém pode suprimi-lo. Então pensei: puxa vida, eu quero ter essa formação formal e quero chegar a poder dar aulas em uma universidade aqui no Brasil. O objetivo não é só fazer esse curso de Letras, que me fascina, mas ter tempo de fazer o doutorado para dar aula na universidade”, planeja Semann, que já esteve afastado da sala de aula por mais de trinta anos.

Na Faculdade São Vicente, onde Krubnik estuda, além dele, em sua turma há outras seis pessoas mais velhas. Todas trocaram os momentos de descanso pelos livros e debates acadêmicos, como Semann também fez ao ingressar na Unicentro. E a diversidade de idades no contexto educacional, de acordo com os docentes, é positiva tanto para os indivíduos, como para o coletivo.

A professora Regina Aparecida Milléo de Paula, do departamento de Letras da Unicentro de Irati, explica que ter uma sala com alunos de várias idades e diferentes experiências de vida agrega valor ao processo de ensino-aprendizagem. “O comprometimento dessa pessoa é outro, porque ela vê nessa oportunidade algo de um valor muito maior do que os demais. A discussão enriquece, só se tem a ganhar. Quando você tem um aluno que tem maturidade, experiência de vida, tem discursos diferentes transitando na sala de aula”, comenta Regina.

Apesar das diferenças entre as idades, vivências e caminhos percorridos, a professora frisa que todos têm as mesmas possibilidades em uma sala de aula. Todos são alunos buscando o conhecimento. “A dificuldade desse aluno mais velho é ficar se lembrando, o tempo todo, de que ele é mais velho. No campo que é a educação não tem idade”, afirma.

A professora da Unicentro defende que é preciso olhar para os indivíduos, sobretudo para os alunos, sem rotulá-los. “A partir do momento em que você adjetiva um sujeito – ele é mais velho, ele é mais novo, ele é feminino, ele é masculino, ele é autista, ele é cego – você reduz esse sujeito ao adjetivo. Então eu não vejo um aluno como aluno mais velho ou mais novo, aluno autista, aluno cadeirante. Não. São sujeitos que são alunos”, frisa Regina.

Ao se pensar em um aluno de graduação a probabilidade de se imaginar alguém na faixa de 19 a 24 anos é grande, pois o senso comum diz ser alguém que há poucos anos saiu do ensino médio e logo continuou os estudos. Conforme o Mapa do Ensino Superior no Brasil 2020, essa faixa etária é responsável por mais da metade das matrículas (59,2% das feitas em instituições públicas e 53,7% das privadas), percentual este que vai caindo conforme a idade vai aumentando. Porém, há também pessoas mais maduras, como Júnior Krubnik e Saulo Semann, que resolveram voltar a estudar após anos longe de uma instituição de ensino.

Muitas delas precisaram largar os estudos, quando mais jovens, por conta da sobrecarga de trabalho que tinham para o sustento de suas famílias, devido à dificuldade para se deslocar até a faculdade, por questões econômicas, pela necessidade de cuidar dos filhos, dentre tantos outros motivos.

Este foi o caso de Krubnik, que se tornou pai jovem, aos 19 anos, e residia em uma cidade onde não havia universidade. Na época, ele começou a cursar Administração em uma instituição de ensino localizada a mais de cem quilômetros de casa, fez mais de três anos do curso, mas não conseguiu concluir a graduação. Agora, com os três filhos formados, e tendo várias faculdades em Irati, tudo mudou. “Eu saio de casa e em 5 minutos estou na faculdade. Então com essa facilidade e esse tempo ocioso que a gente tem no período da noite, das 19h às 22h30, ficou fácil de estudar”, comenta.

E ele acredita que os novos conhecimentos podem auxiliá-lo na sua profissão atual, radialista e responsável pela área comercial da Rádio T. “Eu, com uma experiência maior, aprendendo na área do direito, vou ter poder de diálogo melhor, vou poder negociar melhor, sem contar que vou conhecer pessoas novas. É um universo diferente que vai se abrir para mim”, diz.

Ainda falta informação

Na avaliação da professora Regina Aparecida Milléo de Paula, do departamento de Letras da Unicentro, o que ainda falta para haver mais pessoas de diferentes faixas etárias na graduação e em outros cursos é a informação. Segundo ela, as pessoas precisam saber que podem ter acesso a uma educação à distância, por exemplo, que não precisam estar presencialmente em uma sala todos os dias e que mesmo assim poderão estudar e ter um diploma igualmente válido.

Regina defende que estas possibilidades de acesso ao estudo são fantásticas. “A informação de saber que você pode fazer um curso à distância, pode fazer uma EJA – Educação de Jovens e Adultos – em noites alternadas, que você tem bolsas nas graduações, é ouro”, comenta.

Nesse sentido, os dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2020 apontam que os cursos à distância, em instituições privadas, que mais despertam interesse dos alunos são os de pedagogia (440,6 mil matrículas); administração (214,1 mil) e contabilidade (131,6 mil). Já no ensino superior público são os de pedagogia (37,4 mil matrículas); matemática (16,5 mil); administração pública (13,2 mil); engenharia de produção (11,5 mil) e letras português (10 mil).

Importância da EJA

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) oferece oportunidade para que aqueles que não puderam concluir o ensino fundamental e/ou o ensino médio voltem a estudar. Em um tempo menor, estas pessoas podem concluir estas etapas.

Políticas públicas que criaram esta possibilidade há décadas, tem reflexo também na busca pelo ensino superior.   Na avaliação da professora da Unicentro, isto ocasionou uma mudança boa no cenário da educação no Brasil, fazendo com que mais pessoas tenham acesso ao ensino superior, pois, um adulto que conseguiu se alfabetizar percebe a importância do estudo.

“A educação não brota quando você planta. Uma política pública de dez anos atrás vai brotar agora e é isso que está acontecendo. Veja os resultados em olimpíadas. Por que hoje temos medalhistas? Porque 15 anos atrás nós tivemos políticas públicas de incentivo ao atletismo, ao esporte, e hoje é que elas dão frutos”, diz Regina.

Conforme a docente, uma pessoa que largou os estudos vê, nesse cenário, condições de possibilidade de voltar a estudar ou mesmo de voltar a sonhar, buscando a profissão que desejava, bem como aqueles que não buscavam um diploma, mas, sim certo tipo de conhecimento.

Educação: Uma alavanca para a prosperidade

Saulo Semann conta que conhece a história de um médico que só começou sua carreira depois dos 50 anos e complementa: “Não tem esse negócio de idade. A mente pode permanecer jovem e pode permanecer sempre em condições de aprender. Eu acredito que a gente pode voltar a estudar, buscar realizar o nosso sonho e, principalmente, progredir. Grande parte das pessoas acaba se estagnando, paradas no tempo, porque não enxergam uma perspectiva de melhoria de vida e o estudo, para poder mudar de vida, seja formal ou informal, é a grande alavanca. Quando você busca o conhecimento você, com certeza, passa a ter mais oportunidades de prosperar na vida”, diz.

Júnior Krubnik concorda e enfatiza que isso não serve apenas aos estudantes mais velhos, mas também aos mais novos, que após graduados conseguem um trabalho e não seguem estudando: “Vá estudar, procure novos conhecimentos, faça uma pós-graduação ou adquira conhecimentos em outra área, porque os melhores preparados são os que melhor ganham”.

E a professora Regina de Paula acrescenta que além dos que buscam uma profissão, um sonho, ou melhorar a remuneração, também é possível estudar para obter uma realização pessoal: fazer cursos de poesia, de idiomas, de violão, ou seja, voltar a estudar não apenas por um diploma, mas para adquirir um novo saber.

Quanto custa?

O valor pago pela mensalidade de uma universidade particular, segundo Júnior Krubnik, acaba sendo diluído nas pequenas economias feitas ao longo das semanas. Sobretudo, ao evitar os gastos supérfluos pelo próprio fato de ter menos tempo ocioso, por estar estudando. Ele exemplifica: “A minha conta é bem simples. Você sem sair de casa, tem a sua noite.  Você ficou em casa de segunda a sexta-feira, você tomou uma ou duas cervejas, pediu uma pizza, você já está pagando a faculdade”, diz. 

Texto: Letícia Torres e Fabrício Dziadzio/Hoje Centro Sul

Fotos: Arquivo/Pessoal

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