Irati vive em suas pessoas, pois nelas mantêm viva sua essência cultural e história
Entre o mel, a ferrovia, as diferentes culturas, a religiosidade e os povos que ajudaram a formar o município, são as pessoas que mantêm viva a essência de Irati
A história de Irati está nas ruas, nas comunidades do interior, nas igrejas, nos trilhos da ferrovia e até no significado do próprio nome. Mas ela permanece viva, acima de tudo, nas pessoas. São elas que preservam tradições, mantêm costumes, compartilham memórias e fazem com que, 119 anos após a emancipação do município, a identidade iratiense continue sendo construída todos os dias.
Para a professora e mestre em História, Milene Padilha, é impossível compreender a história da cidade sem olhar para quem a construiu e continua construindo. “Não dá para pensar em sociedade, em município ou em tradição sem pensar nas pessoas. São elas que constroem tudo isso. Nada existe por acaso. Tudo só ganha sentido porque existe o ser humano, que constrói as relações, a memória e a própria história”.
É esse olhar que conduz esta reportagem. Dos povos indígenas que deram nome ao município aos descendentes de imigrantes que preservam a cultura de seus antepassados; das tradições religiosas que atravessam gerações aos trilhos que impulsionaram o desenvolvimento da cidade; da produção de mel, que mantém vivo o significado de Irati, às histórias de quem encontrou aqui um lugar para construir a própria vida. Personagens diferentes, unidos por um mesmo sentimento: o de preservar aquilo que faz de Irati um lugar único.
Um nome que atravessa o tempo
Muito antes da emancipação política de Irati, o território já era conhecido por um nome de origem indígena. Tradicionalmente associado ao tupi-guarani, Irati significa “rio de mel”, uma herança dos primeiros povos que habitavam a região e que permanece viva na identidade do município.
Mais de um século depois, essa ligação continua presente no cotidiano de famílias que fazem da apicultura uma importante fonte de renda e ajudam a manter viva uma atividade que também faz parte da história local.
Na comunidade de Arroio Grande, o apicultor, João Antônio de Paula, conhece bem essa história. Há cerca de 20 anos trabalhando com a atividade, ele conta que tudo começou ajudando o irmão no manejo das colmeias. “Eu ajudava ele no manejo e na colheita. Fui pegando gosto pela atividade e estou até hoje”.
O trabalho se transformou em profissão e, há cerca de oito anos, ganhou uma identidade própria com a criação da marca Mel Monge, inspirada na trajetória de João Maria, personagem marcante da história regional e lembrado pelo cuidado com a natureza, com a saúde e com as pessoas.
Para João, o mel reúne significados que vão muito além da produção. “O mel representa para mim a geração de renda, a preservação da natureza, porque a gente extrai dela o que tem de melhor. E também representa saúde”. Além do simbolismo, também destaca a importância da atividade para o município.
Segundo ele, Irati produz entre 70 e 80 toneladas de mel por ano, fortalecendo a permanência das famílias na área rural e contribuindo para a diversificação das propriedades. “É uma atividade importante para o município. Ela ajuda na permanência dos agricultores na área rural, trabalhando com mel e diversificando a propriedade. Isso se torna um ganho a mais”, completa.
Muito antes de o mel dar significado ao nome da cidade, porém, esse território já era habitado pelos primeiros povos da região. Uma presença que atravessou o tempo e continua fazendo parte da identidade de Irati.
Uma presença que permanece
Muito antes da emancipação de Irati, o território já era habitado pelos povos indígenas. A presença desses primeiros habitantes permanece viva na cultura, na memória e também no cotidiano da cidade.
Famílias indígenas sempre estão no município para comercializar artesanato produzido pelas próprias comunidades. Cestos, balaios, peneiras e outras peças confeccionadas manualmente representam mais do que uma fonte de renda: são a preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações.
Entre essas lideranças está Toninho Crispin, indígena da Terra Indígena Ivaí, em Manoel Ribas. Há muito tempo, ele mantém uma relação próxima com Irati e acompanhou importantes mudanças na forma como as famílias indígenas passaram a ser acolhidas no município.
“Em muitas cidades, a gente não é bem-vindo. Mas em Irati nós fomos bem recebidos”. Toninho lembra que a implantação da Casa de Passagem foi resultado da mobilização das próprias famílias indígenas e representa uma conquista importante para quem precisa permanecer alguns dias na cidade durante a comercialização do artesanato. “Quem teve muita luta para conseguir a casa fui eu e minha família”.

Para Toninho, preservar a cultura continua sendo o principal objetivo. “A gente gosta de preservar a nossa cultura. Fazer os balaios, vender o artesanato… é isso que queremos manter”.
É essa preservação dos costumes que, ao lado das tradições trazidas por tantos outros povos, ajuda a contar a história de Irati. Ao longo do tempo, indígenas, italianos, poloneses, ucranianos, alemães, holandeses e tantas outras etnias deixaram marcas que ainda hoje podem ser vistas na cultura, na gastronomia, nas festas e no modo de viver da cidade.
Quando a tradição encontra uma nova geração
As tradições trazidas pelos imigrantes continuam presentes em Irati graças às famílias que fazem questão de preservá-las e transmiti-las aos mais jovens. É assim que costumes, músicas, danças e sabores atravessam gerações e permanecem vivos mais de um século depois da chegada dos primeiros colonizadores.
Aos 10 anos, Isaac Roik Pepe já carrega nos passos uma tradição centenária. Integrante do grupo folclórico ucraniano Ivan Kupalo, ele representa uma geração que cresce conhecendo e valorizando a cultura herdada dos antepassados, ajudando a manter viva uma das identidades que ajudaram a formar Irati.

Entre ensaios e apresentações, Isaac conta que o que mais gosta é aprender novos passos e solos porque cada dança significa uma região da Ucrânia. Para ele, cada apresentação é uma forma de homenagear um povo que preservou sua cultura ao longo do tempo. “Significa muita alegria, muito orgulho estar representando eles”.
Mesmo confessando que o nervosismo aparece antes de entrar no palco, a emoção logo toma conta. “Às vezes, eu fico bem nervoso, mas aí eu entro no palco e aquela felicidade vem, porque eu estou representando isso para os outros, e isso é muito legal”, conta ele que dança desde 2023.
A preservação da cultura também acontece dentro de casa. Nas datas mais importantes do ano, a família mantém vivas receitas tradicionais que ajudam a fortalecer esse vínculo com as origens. “Também tem as nossas comidas típicas, que a nossa família mantém viva. No Natal, no Ano Novo e na Páscoa sempre tem uma comida diferente pra gente poder relembrar a nossa cultura”.
Assim como acontece nas famílias ucranianas, italianas, polonesas, alemãs, holandesas e de tantas outras origens que ajudaram a formar Irati, a tradição continua viva quando passa de geração em geração.
A fé como herança compartilhada
Essa convivência entre diferentes povos também ajudou a construir outra característica marcante de Irati: a diversidade religiosa. Em Gonçalves Júnior, essa herança continua presente na rotina da comunidade e revela como diferentes tradições aprenderam a compartilhar o mesmo espaço ao longo do tempo.
Para a professora e moradora da comunidade, Neuza Brandalize Wagner, a convivência entre diferentes crenças faz parte da própria história do distrito. “Os moradores de Gonçalves Júnior têm bem enraizados os costumes religiosos. Em uma pequena comunidade existem várias igrejas com ritos diferentes, cada uma com suas tradições”.

Ela explica que, quando os imigrantes poloneses chegaram ao distrito, em 1910, alemães, holandeses, ucranianos e ortodoxos já habitavam a região. As diferenças de idioma, cultura e religião fizeram com que cada grupo construísse seus próprios espaços de convivência e de fé.
Com o passar das décadas, porém, essa realidade foi se transformando. “Hoje, já existe uma interligação entre as religiões que permite participar dos ritos religiosos e entender a mensagem de Deus”, explica a professora.
Neuza descreve que essa convivência também ajudou a formar uma comunidade marcada pelo respeito às diferenças e pelo cuidado com o próximo. “A religião começa com a fé em Deus e passa para os cuidados com o próximo”.
Mais de 100 anos depois, muitas dessas tradições continuam sendo preservadas. Entre elas está a Procissão do Senhor Morto, realizada na Sexta-feira Santa, quando moradores percorrem as ruas da comunidade rezando e cantando. Outra celebração mantida até hoje é a procissão de Corpus Christi, que passa pela praça, pela igreja ucraniana católica, pela escola, pelo posto de saúde e por residências da comunidade.
Há ainda costumes que atravessam gerações e unem moradores independentemente da religião. “Outra tradição que ainda existe é bater os sinos quando uma pessoa da comunidade falece. Assim, todos participam, sem distinção, dos momentos de religiosidade entre as igrejas”, conta Neuza.
As festas dos padroeiros também permanecem como um dos principais momentos de encontro em que a comunidade se reúne para celebrar a alegria desta convivência harmoniosa.
Os trilhos que aproximaram histórias
Poucos elementos ajudaram tanto a transformar Irati quanto a ferrovia. Foi por ela que chegaram trabalhadores, mercadorias, oportunidades e parte do desenvolvimento que impulsionou o crescimento do município. Mas os trilhos também trouxeram algo que não aparece nos registros econômicos: pessoas, encontros e histórias que passaram a fazer parte da identidade da cidade.
Quem conhece essa trajetória de perto é Marcelo Gil Santos. Hoje aposentado, ele iniciou a carreira ferroviária em 1979, aos 14 anos, quando ingressou no Centro de Formação Profissional Coronel Durival de Britto e Silva, em Curitiba, escola da então Rede Ferroviária Federal que preparava jovens para atuar em diferentes áreas do setor ferroviário.
Em 1982, Marcelo foi selecionado para integrar uma equipe responsável por operar modernos equipamentos utilizados na manutenção da malha ferroviária dos estados do Paraná e Santa Catarina. O trabalho era itinerante e, em 1991, o trouxe pela primeira vez a Irati. “Foi assim que fizemos nossa primeira parada na cidade, onde ficamos executando os serviços por, aproximadamente, quatro meses, desde Fernandes Pinheiro até Arroio Grande. Foi quando pude conhecer um pouco da cultura regional”.

Santos destaca que a estação ferroviária, inaugurada em fevereiro de 1899, foi determinante para o desenvolvimento de Irati. Era dali que partiam cargas de madeira, especialmente pinheiro-do-paraná e imbuia, além da erva-mate, produtos que impulsionaram a economia da região e contribuíram para o crescimento do município.
O que começou como uma passagem de trabalho acabou se transformando em um projeto de vida. “Desde a primeira vez que estive em Irati, a cidade havia me encantado pelo seu povo, pela tranquilidade, pela facilidade de achar as coisas, pelo clima e pela cultura. Algo ainda lhe dizia que ainda moraria na cidade.
Algum tempo depois, mudanças na empresa levaram Marcelo a se mudar definitivamente para Irati. Foi aqui que ele constituiu família, criou raízes e passou a escrever uma nova história, mostrando que a ferrovia não trouxe apenas desenvolvimento econômico, mas também aproximou pessoas e deu origem a muitas vidas que hoje fazem parte da própria história do município.
“Foi aqui que fui abençoado com duas lindas filhas e, recentemente, com uma netinha, que hoje ajudam a manter minhas raízes irremediavelmente fincadas nesta cidade tão acolhedora e que me trouxe e ainda traz tantas alegrias”, conclui.
Ao longo de 119 anos, Irati cresceu, recebeu novos povos, transformou sua economia e viu gerações construírem suas próprias histórias. Mas sua maior riqueza continua sendo a mesma: as pessoas. Que preservam as tradições, mantêm viva a memória dos antepassados, transmitem costumes aos mais jovens e fazem com que a identidade do município continue atravessando o tempo. Como lembra a historiadora Milene, não há sociedade, município ou tradição sem as pessoas que lhes dão sentido.
Fernanda Hraber

