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20/04/2021

Autismo: os maiores desafios estão nos autistas ou na sociedade em aceitá-los?

Abril tem como foco a conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), resta saber se a dificuldade maior está na vivência das pessoas que têm o transtorno ou na sociedade que ainda não tomou conhecimento sobre o assunto

Autismo: os maiores desafios estão nos autistas ou na sociedade em aceitá-los?

O mês de abril é dedicado à conscientização sobre o Autismo, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por um déficit na comunicação e interação social e comportamentos restritos. Dados do CDC (Center of Deseases Control and Prevention), apontam que hoje existe um caso de autismo a cada 110 pessoas. No Brasil, estimam-se cerca de 2 milhões de autistas. Para entender como é cotidiano dos autistas entrevistamos uma família iratiense que tem um filho com TEA, que não quis se identificar. A criança será tratada pelo nome fictício de Victor. E também conversamos a professora da sala de Recursos Multifuncionais da rede Estadual e Municipal de ensino, Roseli Malach Marochi, que conta sobre o processo de ensino e aprendizado destes alunos.

A mãe de Victor conta que a descoberta do autismo foi um pouco demorada, pois o menino não possuía características evidentes e mais comuns do autismo, o que levou os médicos a diagnosticá-lo, no início, com atraso no desenvolvimento.  O diagnóstico de TEA, de um nível entre leve e moderado, veio após os 5 anos de idade.  Segundo a mãe como havia já um caminho de muita investigação para se entender o que ocorria de diferente no desenvolvimento do menino, a confirmação médica não trouxe fortes impactos.

A rotina foi afetada, sendo necessário buscar orientações, atividades, estímulos e atendimentos, visando o melhor desenvolvimento. Consequentemente estes esforços demandam tempo, persistência, investimento e confiança, conforme relatou a mãe.

As dificuldades de aprendizado são grandes, mas são minimizadas com o apoio da escola. “A equipe pedagógica e os professores dispostos a promoverem avanços em seu processo de aprendizado. Felizmente, em nossa caminhada com Victor temos encontrado profissionais na escola e fora da escola que fizeram e fazem a diferença, auxiliando-o no desenvolvimento de suas habilidades acadêmicas, comunicativas e sociais”, conta a mãe.

A professora Roseli Malach Marochi ressalta a sua experiência com alunos autistas e afirma que nenhum aluno é igual, nenhum aprende do mesmo jeito, aquilo que dá certo para um, não serve para o outro, ou seja, cada aprendizado ocorre de maneira singular e para isso é preciso que o professor esteja disposto a aprender a ensinar cada um dentro de suas particularidades.

“Temos na internet várias dicas de como trabalhar com um aluno autista, dicas de atividades, contudo é somente conhecendo o aluno que vamos saber como é que ele aprende. Por isso, é necessário que estejamos abertos à inovação. São tentativas e nem sempre elas dão certo. Mas com compromisso e responsabilidade, fazendo um trabalho colaborativo com professores do ensino comum, com a família, com os profissionais que atendem esses alunos, acreditando sempre no potencial dos alunos, atingiremos nossos objetivos”.

Roseli trabalha em duas escolas, uma da rede municipal e outra da rede estadual e fala que não existe uma receita de como trabalhar com este ou com aquele aluno, entretanto o  diagnóstico de TEA  dá aos professores um rumo. E eles precisam “conhecer o aluno”, saber como ele aprende, como ele reage ao que é ensinado, para poder direcionar o trabalho. “A educação especial nos dá esse direcionamento, aponta caminhos e cabe a cada um, no seu dia a dia, ir se aperfeiçoando, conhecendo os alunos e estando aberto para recomeçar sempre que for preciso e para mudar quando uma ação não for assertiva”, diz a pedagoga Roseli, que se especializou em Educação Especial, por acreditar que a escolarização é um direito de todos.  

Segundo a família de Victor são muitas as descobertas, alegrias, superações, preocupações, frustrações, resiliência e tantos sentimentos que afloram dia após dia. Mas as conquistas sempre chegam e dependem da empatia e da disponibilidade das pessoas que estão direta e indiretamente envolvidas com o menino.

Educação de alunos autistas

Os alunos com TEA frequentam o ensino regular e muitos deles precisam de um professor de Apoio Educacional Especializado/PAEE, também são atendidos nas salas de Recursos Multifuncionais.

Com a pandemia, o que mudou?

As aulas online são um desafio para todos, inclusive para os autistas. Os professores, na medida do possível, têm adaptado as atividades, com auxílio da professora da sala de recursos e das famílias. “Esta parceria possibilita que as barreiras sejam minimizadas e o nosso filho encontre condições para um bom desempenho e avanços na qualidade de vida”, ressalva a mãe de Victor.

A professora da sala de Recursos Multifuncionais frisou que o ensino remoto não é o mesmo que o ensino presencial, pois nada substitui o contato professor/aluno. Contudo, real situação atual faz com que sejam criadas e recriadas formas para que todos os alunos continuem tendo direito de aprender.

“Agora, diante das aulas remotas, a escola faz uso do celular (WhatsApp) para vídeos chamadas, Meets, atividades impressas, atividades adaptadas, tudo para oportunizar a aprendizagem de nossos alunos. Acredito que o maior desafio do professor hoje em dia seja saber se o aluno está aprendendo. Como está sendo auxiliado em casa. Como é sua rotina de estudos”, enfatiza a professora.

Importância da conscientização do Autismo

O intuito de dedicar o mês de abril à conscientização sobre o autismo é trazer mais informações em relação ao assunto. A professora Roseli lembra que antes da criança, adolescente, ou adulto ter o Transtorno do Espectro Autista, ele (a) é um ser humano, que merece respeito e consideração todos os dias de sua vida. São pessoas que necessitam de atendimentos diferenciados para que possam ser as mais independentes possível. E ela cita a frase de Andrea Ramal: “O objetivo da educação inclusiva não é tornar todas as crianças iguais, e sim respeitar e valorizar as diferenças”.

Em relação ao comportamento da sociedade diante do TEA, a mãe de Victor acredita pela sua experiência que as pessoas, de modo geral, não estão preparadas para lidar com esta realidade. “Há muita desinformação com relação a esse transtorno e isso é a porta de entrada para a disseminação de preconceitos e estereótipos”, disse.

5 coisas que todo mundo deve saber sobre o Autismo

1. O Autismo não é uma doença e sim uma condição que acomete as áreas da comunicação, socialização e comportamento, sendo um transtorno do desenvolvimento, afinal, autismo não se cura, mas se compreende;

2. Nem todo autista é igual, e isso ocorre devido as variações genéticas e ambientais. O termo "espectro" foi adotado para abarcar toda variabilidade de sintomas, alterações e características;

3. Algumas crianças com TEA, tem uma melhor compreensão por meio de estímulos visuais, inclusive algumas aprendem a se comunicar por meio das imagens, usando uma rotina visual que favorece no cumprimento de suas atividades diárias;

4. O autismo é mais prevalente em meninos, indicam estudos. Isso acontece devido ao diferente desenvolvimento neurológico que ocorre entre os dois, porém, acredita-se que nas meninas os sintomas são mais complexos para identificar, levando muitas vezes a um diagnóstico tardio;

5. O diagnóstico é um ponto de partida, é o primeiro passo para realizar um tratamento com uma intervenção adequada e adaptada com o nível de comprometimento de cada criança. Cada tratamento é realizado conforme as necessidades e fases do desenvolvimento em que a criança se encontra.

Texto: Cibele Bilovus/Hoje Centro Sul

Foto: Divulgação NUPA e Pixabay 

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