O desafio de envelhecer: independência ou limitações, o que o futuro reserva?
“Precisamos discutir a heterogeneidade da velhice. Há pessoas idosas plenamente independentes e ativas, enquanto outras convivem com limitações físicas, cognitivas ou situações de dependência”, destaca o secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos de Irati, Denis Cezar Musial, comentando que as políticas públicas precisam estar preparadas para responder a essas diferentes realidades
O Brasil está envelhecendo — e mais rápido do que muitos imaginam. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2025, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em abril de 2026, mostram que o país possui 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. O número representa um crescimento de 58,7% em relação a 2012.
A transformação também é percebida no Paraná. Segundo a mesma pesquisa, a população idosa paranaense cresceu 55,4% no período, passando de 1,28 milhão para 1,98 milhão de pessoas. Mais do que uma mudança estatística, o cenário traz uma pergunta que atravessa gerações: estamos preparados para envelhecer?
Durante o Junho Violeta, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, especialistas defendem que a reflexão precisa ir além das denúncias. Falar sobre envelhecimento significa discutir autonomia, saúde, qualidade de vida, relações familiares, proteção social e o direito de viver a velhice com dignidade.
Para o secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos de Irati, Denis Cezar Musial, assistente social, doutor em Desenvolvimento Comunitário com pesquisa voltada ao envelhecimento social e conselheiro municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, o envelhecimento populacional representa uma das maiores transformações sociais da atualidade. “O envelhecimento populacional é uma conquista da sociedade, mas também exige que repensemos políticas públicas, relações familiares e a forma como enxergamos a velhice”, afirma.
Segundo ele, um dos principais desafios está em compreender que não existe uma única forma de envelhecer. “Precisamos discutir a heterogeneidade da velhice. Há pessoas idosas plenamente independentes e ativas, enquanto outras convivem com limitações físicas, cognitivas ou situações de dependência”. Musial observa que políticas públicas precisam estar preparadas para responder a essas diferentes realidades.
O cuidado que também precisa de cuidado
Com o aumento da expectativa de vida, cresce também a necessidade de discutir quem cuida e como esse cuidado acontece. Na avaliação da assistente social e coordenadora do Complexo Social Cidade do Idoso, Eliane Bach Ferreira Hejel, a sociedade ainda não se preparou para lidar com o envelhecimento de forma planejada.
“O maior desafio é cultural. A sociedade ainda enxerga a velhice como decadência, e não como uma fase da vida. A família ainda não foi educada para envelhecer junto”, afirma. Eliane conta que muitas famílias só passam a discutir o tema quando enfrentam situações de crise, como quedas, diagnósticos de doenças neurodegenerativas ou perda de autonomia. “Ninguém conversa sobre envelhecimento até o problema bater à porta. O resultado é que o cuidado acontece na base do improviso, gerando sobrecarga física, emocional e financeira”, explica ela.
Para Denis, o debate sobre o cuidado precisa avançar para além da responsabilidade individual das famílias. “Temos que pensar estratégias de cuidados compartilhadas entre assistência social, saúde e família. Precisamos fortalecer políticas voltadas tanto para a pessoa idosa quanto para quem cuida dela”, ressalta.
Uma das iniciativas que caminham nessa direção é a implantação do Centro-Dia para Pessoas Idosas em Irati. O município foi contemplado com recursos para adequação do espaço, que deverá atender idosos em situação de dependência parcial durante o dia, permitindo que retornem para suas casas ao final da tarde. “É uma política integrada de cuidado que acolhe a pessoa idosa e, ao mesmo tempo, oferece um respiro importante para as famílias”, destaca o secretário.
Muito além de um espaço de convivência
Em Irati, uma das principais referências no atendimento à população idosa é o Complexo Social Cidade do Idoso, considerado modelo regional de proteção social voltada ao envelhecimento ativo.
De acordo com Eliane, o espaço representa a consolidação de uma política pública construída para garantir direitos, fortalecer vínculos e promover autonomia. “O Complexo Social Cidade do Idoso representa hoje, para Irati e para a região Centro Sul, a consolidação de uma política pública de referência no atendimento à pessoa idosa”, afirma.
Entre as atividades oferecidas estão oficinas de atividade física, jogos livres, inclusão digital, artesanato, estimulação cognitiva, rodas de conversa, acompanhamento psicológico e social, além de orientações sobre acesso a benefícios e políticas públicas.
As ações têm como objetivo fortalecer a autonomia e a qualidade de vida dos participantes. Oficinas de informática auxiliam idosos no uso de celulares, aplicativos bancários e serviços digitais. Atividades físicas trabalham equilíbrio, força e prevenção de quedas. Já as oficinas de estimulação cognitiva buscam preservar a memória e retardar possíveis declínios relacionados ao envelhecimento.
“A inclusão digital reduz a dependência de terceiros e amplia o acesso aos direitos. Muitas vezes, autonomia também significa conseguir resolver sozinho situações do dia a dia”, lembra a coordenadora.
O espaço também oferece acolhida e escuta qualificada por equipes de Serviço Social, Psicologia e Pedagogia, além de serviços de apoio para agendamento de consultas, exames e encaminhamentos junto à rede pública.
Segundo Eliane, cada uma dessas ações tem um objetivo comum: fortalecer a independência e a participação social da pessoa idosa. “Cada oficina de informática que devolve autonomia, cada roda de conversa que empodera e cada atendimento que evita que o idoso dependa exclusivamente de terceiros ajuda a construir outra forma de envelhecer”, destaca a assistente social.
O preconceito que também envelhece
Além das questões relacionadas ao cuidado e à saúde, especialistas alertam para um desafio menos visível, mas presente no cotidiano: o etarismo. O preconceito relacionado à idade ainda afeta a forma como a sociedade enxerga a velhice e limita a participação das pessoas idosas em diferentes espaços.
“A cultura do etarismo está entranhada. O idoso, muitas vezes, é tratado como alguém que não aprende mais, não produz mais, não tem desejos, não namora e não pode continuar construindo projetos de vida”, analisa Eliane. Para ela, combater esse preconceito é tão importante quanto ampliar serviços e políticas públicas.
“Irati avançou muito com a Cidade do Idoso, mas um equipamento sozinho não muda cultura. Cultura não se muda com placa de inauguração. Ela se transforma quando toda a cidade passa a participar desse processo”, ressalta.
Violência patrimonial preocupa
O Junho Violeta também chama atenção para as diferentes formas de violência contra a pessoa idosa. Entre elas, a violência patrimonial tem despertado preocupação crescente em todo o país. Caracterizada pelo uso indevido de recursos financeiros, bens ou benefícios da pessoa idosa, ela pode ocorrer tanto dentro do círculo familiar quanto por meio de golpes praticados por terceiros.
Dados do Disque 100 registraram, em 2025, 59.134 denúncias de violência patrimonial contra pessoas idosas em todo o Brasil. As mulheres representaram 66% das vítimas, enquanto a faixa etária entre 70 e 79 anos concentrou o maior número de ocorrências.
Segundo Denis, a violência patrimonial raramente acontece de forma isolada. “Muitas vezes, ela vem acompanhada de negligência, violência psicológica ou outras violações de direitos. Precisamos estar atentos aos sinais”, alerta.
Ele pontua que, frequentemente, os autores das agressões são familiares ou pessoas próximas à rotina de cuidados. Entre os indícios que podem sinalizar situações de violência estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, medo excessivo de determinados familiares, baixa autoestima, movimentações financeiras incomuns e alterações suspeitas em documentos ou procurações. “Tudo deve ser avaliado por profissionais capacitados. A escuta qualificada continua sendo uma das principais ferramentas de proteção”.
Apoio aos cuidadores
Outra frente importante de proteção envolve o suporte às pessoas responsáveis pelos cuidados diários. Atualmente, o Governo do Paraná mantém o programa Bolsa Cuidador Familiar, que oferece auxílio financeiro equivalente a meio salário mínimo para familiares que exercem a função principal de cuidado e residem com a pessoa idosa em situação de dependência.
Em Irati, uma iniciativa complementar amplia essa rede de proteção. O Programa Municipal de Apoio ao Cuidador Não Familiar prevê benefício equivalente a um salário mínimo para situações em que a pessoa idosa vive sozinha ou não possui familiares aptos a assumir os cuidados cotidianos.
Segundo Denis, a principal diferença entre os programas está justamente no público atendido. “O programa estadual é voltado principalmente aos familiares cuidadores que residem com a pessoa idosa. Já a política municipal possui uma abrangência maior e busca atender situações em que o idoso não possui familiares disponíveis ou necessita de apoio complementar para permanecer em seu território e na sua comunidade”, explica o assistente social. Em ambos os casos, a concessão do benefício depende de avaliação técnica e do cumprimento dos critérios estabelecidos pelos programas.
Informações podem ser obtidas diretamente junto ao Complexo Social Cidade do Idoso. Mais do que discutir violência, benefícios ou serviços, o Junho Violeta convida a sociedade a refletir sobre o futuro. E, como provoca Denis ao final de sua pesquisa sobre envelhecimento social: “Em última instância, a grande pergunta é: que sociedade envelheceremos juntos?”
SINAIS DE ALERTA
Fique atento a possíveis indícios de violência contra a pessoa idosa:
• Isolamento social repentino
• Medo excessivo de familiares ou cuidadores
• Mudanças bruscas de comportamento
• Baixa autoestima
• Lesões frequentes sem explicação clara
• Desnutrição ou falta de cuidados básicos
• Movimentações bancárias incomuns
• Alterações suspeitas em procurações ou documentos
ONDE BUSCAR APOIO EM IRATI
Complexo Social Cidade do Idoso
• Orientação social e psicológica
• Inclusão digital
• Oficinas e atividades de convivência
• Informações sobre a Bolsa Cuidador Familiar (Estado)
• Informações sobre o Programa Municipal de Apoio ao Cuidador Não Familiar
• Encaminhamento para benefícios e serviços da rede de proteção social
• Apoio e orientação para famílias e cuidadores
Informações e atendimentos podem ser solicitados diretamente junto ao Complexo Social Cidade do Idoso.
Fernanda Hraber

