O amor que escolhe permanecer
Entre quilômetros de distância, recomeços e a vontade de viver quem se é, casais mostram que o amor continua encontrando novos caminhos
Existem histórias de amor que começam em uma festa. Outras surgem na escola, no trabalho ou por intermédio de amigos. Algumas atravessam quilômetros de distância. Outras enfrentam preconceitos. Mas, no fundo, todas têm algo em comum: a decisão diária de permanecer.
Neste Dia dos Namorados, duas histórias mostram que o amor pode nascer das formas mais inesperadas e se fortalecer justamente nos desafios da vida. Entre São Paulo e Irati, entre um aplicativo de relacionamento e a coragem de assumir publicamente uma união, os casais, Francelise Zanlorense Barbosa e Felipe Goulart Barbosa, e Douglas Fabiano Macoski e Marcos Silva, compartilham trajetórias diferentes, mas marcadas pela mesma escolha: construir uma vida juntos.
Histórias diferentes, mas unidas por um mesmo sentimento: a decisão de permanecer. Em um tempo marcado pela pressa, pelos encontros virtuais e pelas relações cada vez mais descartáveis, talvez seja justamente essa escolha que torne cada história única.

Quando a distância virou projeto de vida
O primeiro contato entre Francelise e Felipe aconteceu por motivos profissionais. Ela trabalhava na área de logística de uma empresa paranaense. Ele atuava no mesmo setor em uma grande rede de supermercados de São Paulo.
O que começou como uma tentativa de resolver um problema de trabalho acabou se transformando em horas de conversa. Felipe brinca que a amizade nasceu do contraste entre a “simpatia paranaense” e a “frieza paulista”.
“Eu fiquei encantado com o jeito que ela falava. A gente tinha até dificuldade para se entender por causa das expressões diferentes, mas aquilo acabou aproximando a gente”, relembra.
As conversas migraram para as redes sociais e, pouco tempo depois, um convite feito quase sem pretensão atravessou centenas de quilômetros. O que parecia apenas gentileza acabaria mudando o rumo de duas vidas.
“Eu falei para ela conhecer São Paulo quase por educação. E ela foi mesmo”, conta, entre risos. Depois de cerca de 10 meses de namoro à distância, veio a pergunta inevitável: quem mudaria de cidade?
Para Felipe, a resposta passou menos pela carreira e mais pela família. Francelise já era mãe de Gustavo, então com sete anos, e ele acreditava que não seria justo afastar a criança da convivência com os avós e da vida que já tinha construído no interior.
“Eu pensei que, como homem, deveria assumir esse sacrifício. Não queria que uma criança tivesse que abrir mão da vida dela por nossa causa”. Mas havia também outra reflexão. Aos 27 anos, Felipe se perguntou o que gostaria de ter 10 anos depois: mais dinheiro ou mais qualidade de vida.
“Eu passava mais de quatro horas por dia no transporte público. Percebi que não queria aquilo para a minha família”. A decisão foi tomada mesmo sem emprego garantido. Ele enviou currículos, participou de entrevistas e chegou a considerar trabalhos completamente diferentes daqueles que exercia na capital paulista.
“Eu estava disposto a trabalhar com o que aparecesse. Só queria uma oportunidade para construir minha família aqui”. Pouca gente sabe, mas em algumas das viagens que fazia para entrevistas em Irati, Felipe parava em um dos pontos altos da cidade para observá-la de longe.
“Eu olhava para Irati e pedia a Deus uma oportunidade para viver aqui”. A oportunidade veio. Pouco depois do nascimento da filha do casal, Júlia, ele conseguiu uma vaga na área de logística e iniciou uma nova etapa da vida.
Hoje, não esconde o carinho pelo município. “Eu costumo brincar que nasci no estado errado. Aprendi a tomar chimarrão, adoro fazer churrasco e amo a qualidade de vida que encontrei aqui. As pessoas são acolhedoras, educadas e a vida acontece num ritmo diferente”.
Anos depois, a família decidiu oficializar uma união que já existia na prática. Os anos passaram, a família cresceu e a rotina foi consolidando aquilo que ambos já sabiam. Antes de existir um casamento, já existiam os compromissos diários, as responsabilidades compartilhadas, os planos para o futuro e a construção de um lar.
Para Francelise, o casamento celebrado em setembro de 2024 representou muito mais do que uma cerimônia. “Eu sonhava entrar na igreja vestida de noiva e de braços dados com o meu pai. Era algo que carregava dentro do coração há muitos anos”.
Depois de anos construindo uma vida juntos, o casamento não representava um começo. Era, na verdade, a celebração de uma história já consolidada pelo tempo, pelos desafios e pelas escolhas compartilhadas.
“A festa foi linda, mas o mais importante era celebrar a nossa família. Nós já éramos uma família. O casamento foi a confirmação de tudo o que construímos juntos”, afirma ela. Ela lembra que o dia amanheceu frio e chuvoso, mas que o sol apareceu pouco antes da cerimônia.
“Parecia que tudo estava exatamente onde deveria estar.” Segundo Francelise, muitas pessoas comentaram sobre a alegria e a leveza que marcaram a celebração. Para ela, isso aconteceu porque o momento representava algo muito maior do que uma festa.
“Estávamos celebrando a nossa história, tudo o que já tínhamos construído como família.” Ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que o segredo de uma relação duradoura está longe da ideia de perfeição. “Felizes para sempre não é viver um conto de fadas. É ser feliz nos dias bons e também nos difíceis. É escolher permanecer”.
Para ela, o amor se constrói diariamente, nas pequenas decisões e nos desafios compartilhados. “Casamento é construção. É parceria. É dar as mãos e seguir juntos”, destaca Francelise.

O amor também é representatividade
Se uma história atravessou quilômetros para se transformar em família, a outra nasceu da coragem de viver o amor de forma visível e construir um futuro sem esconder quem se é.
Douglas Fabiano Macoski e Marcos Antônio da Silva Machado se conheceram por meio de um aplicativo de relacionamento. O início foi simples: uma conversa, alguns encontros e a descoberta de afinidades.
Mas ambos afirmam que houve um momento específico em que perceberam que aquela história poderia seguir por um caminho diferente. “O primeiro abraço foi diferente. Nele existia acolhimento, carinho e uma sensação de segurança difícil de explicar”, conta Douglas.
Marcos compartilha da mesma lembrança. “Foi ali que sentimos vontade de construir uma história juntos. Os dias ao lado dele foram se tornando cada vez melhores”.
Os dois reconhecem que viver um relacionamento homoafetivo ainda significa enfrentar desafios. Nem sempre de forma explícita, muitas vezes, o preconceito aparece de maneira silenciosa. “Existem situações em que você percebe que não foi convidado para determinado evento justamente por ser quem você é. Até no casamento houve pessoas que disseram que não participariam porque era a união de dois homens”, relata Douglas.
Ainda assim, eles escolheram não permitir que essas situações definissem a própria história. “Eu simplesmente não dou espaço para isso. Quem não consegue respeitar quem eu sou não precisa fazer parte da minha vida”, afirma. Marcos complementa que a relação sempre foi construída sobre bases sólidas. “A nossa relação é baseada no respeito, no amor e na parceria. Os desafios existem, mas enfrentamos tudo juntos”.
A celebração da união, realizada no ano passado, foi a concretização de um sonho compartilhado e representou a afirmação pública de uma história construída com afeto, respeito e compromisso.
“Casar foi mostrar que existimos, que amamos, que temos planos, família e projetos como qualquer outro casal”, destaca Douglas. Para ele, a cerimônia também representou uma espécie de fortaleza construída em torno da própria história. “Foi a confirmação de tudo o que vivemos e construímos juntos”.
O significado, segundo Douglas, acabou ultrapassando a esfera pessoal. “Depois do casamento, algumas pessoas vieram conversar conosco dizendo que se sentiram inspiradas, que passaram a acreditar mais nos próprios sonhos ou que tiveram coragem de assumir seus relacionamentos”. Para o casal, isso foi muito especial.
Marcos vê a união como a confirmação de tudo aquilo que construíram ao longo dos anos. “Foi a realização de um grande sonho. Celebrar nossa união representou o amor, o companheirismo e a certeza de que queremos continuar caminhando lado a lado”. O casal pretende reforçar esse compromisso ainda mais neste ano, oficializando também a união civil.
No Brasil, o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, e a resolução do Conselho Nacional de Justiça, em 2013, garantiu a realização de casamentos civis homoafetivos em todo o país, abriram caminho para que histórias como a deles pudessem ser vividas com mais visibilidade e segurança jurídica.
Escolher todos os dias
Entre São Paulo e Irati, entre aplicativos, sonhos, desafios, recomeços e celebrações, existem histórias que ajudam a lembrar que o amor não nasce pronto. Ele é construído. Nas conversas que se prolongam sem perceber o tempo passar, nas mudanças que exigem coragem, mas famílias que se formam, nos sonhos que esperam o momento certo para acontecer. E talvez seja justamente por isso que ele continua sendo tão especial: porque, no fim, amar é escolher caminhar junto quando a vida deixa de ser promessa e se torna realidade.
Fernanda Hraber

