Entrelinhas da urna: o ritmo da política em Irati às vésperas das eleições

Por Redação Hoje Centro Sul 9 min de leitura

Enquanto uma parcela atenta da população já debate bastidores e pré-candidaturas, grande parte dos mais de 46 mil eleitores de Irati ainda mantém o olhar focado nas urgências do cotidiano, deixando a decisão do voto para quando a campanha realmente começar. Nas eleições municipais, Irati teve uma abstenção histórica, próxima a 20%

À medida que o calendário avança e aproxima o município do próximo pleito eleitoral, assuntos sobre política voltam a tomar conta da rotina iratiense. Entre uma xícara de café nas esquinas tradicionais do centro, as cadeiras de barbearia, a rotina no campo, os encontros no comércio e o rolar da tela no celular, a política começa a pedir passagem. Mas enquanto uma parcela atenta da população já debate bastidores e pré-candidaturas, grande parte dos mais de 46 mil eleitores de Irati ainda mantém o olhar focado nas urgências do cotidiano, deixando a decisão do voto para quando a campanha realmente começar.

Dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Irati conta atualmente com 46.200 eleitores aptos a votar. Deste universo, contudo, o histórico do município acende um alerta sobre o desinteresse e a apatia: na última eleição municipal, a abstenção chegou a 19,91% — o que significa que 9.199 pessoas deixaram de comparecer às urnas. Somados a isso, os votos brancos (3,58%) e nulos (4,22%) significaram mais de 2,8 mil eleitores sem escolha nominal, reforçando o desafio de reconectar o cidadão comum ao processo democrático.

Entrelinhas da urna: o ritmo da política em Irati às vésperas das eleições

A dinâmica do cotidiano e o “start” da eleição

Para entender esse comportamento, a professora Alexandra Lourenço, Doutora em Ciência Política e professora do Departamento de História da Unicentro (Câmpus Irati), explica que a população não é homogênea e reage em tempos distintos aos estímulos políticos. “A vida política não se resume à eleição e a sociedade tem participado da discussão de formas diversificadas. Todavia, é fato que uma razoável parcela da sociedade está focada no seu cotidiano e somente irá se preocupar com as eleições quando elas estiverem batendo à porta, ou seja, quando as propagandas se intensificarem no final de agosto e início de setembro”, pontua a cientista política. “Muitos irão decidir o voto, memorizar nomes e números dos candidatos somente uma ou duas semanas antes do pleito”.

A percepção da especialista é confirmada por quem acompanha a política de perto na prática. Para a administradora e acadêmica de Direito, Lucilaine Kutner Barankevicz, o ambiente geral ainda é de certa marcha lenta para quem está fora da “bolha” política.

“Percebo que a maioria das pessoas ainda está um pouco desligada do assunto. Fora aqueles que já participam de grupos políticos ou acompanham mais de perto o cenário, ainda se fala pouco sobre as eleições no dia a dia. Vemos apenas alguns comentários e especulações sobre possíveis candidatos”, analisa Lucilaine. Na visão da eleitora, o interesse tende a crescer quando o cenário for afunilado: “Acredito que o interesse aumentará quando forem oficialmente definidos os candidatos e divulgadas suas propostas”. A administradora entende que é nesse momento que as pessoas tendem a buscar mais informações e comparar projetos.

Redes de convivência e o peso da memória política

Se por um lado há quem prefira esperar a largada oficial da campanha, por outro existem os eleitores cuja rotina já é naturalmente atravessada pela política local. É o caso do aposentado Altemir João de Almeida, morador engajado que vivencia a política na base do diálogo presencial e das redes de convivência.

“Nas rodas e nos lugares que eu frequento, o pessoal está conversando bastante sobre política, tanto a nível estadual quanto federal. Comentam e discutem sobre prováveis candidatos, como vão ser as políticas e a campanha”, conta Almeida.

Para ele, no entanto, a busca por informações no período pré-eleitoral não passa por discursos formais, mas sim, pela memória e pelo histórico acumulado das lideranças da cidade. “Como já acompanho há tempo e conheço a maioria dos políticos, não vou muito atrás de buscar novas informações sobre eles. A grande maioria, eu já tenho conhecimento como político e como pessoa. Quando sei que determinado nome vai ser candidato, pela trajetória que conheço, a gente já acaba optando”, relata.

A voz do campo: a rotina da agricultura e a cobrança por resultados

O olhar de quem vive da terra e lida diretamente com os desafios da produção rural traz uma visão para compreender a mobilização no interior do município. Conhecedor da rotina da agricultura familiar e com a bagagem de quem já disputou uma cadeira no Legislativo municipal, José Zavoiski observa que a movimentação parte, hoje, mais dos próprios pré-candidatos do que da comunidade.

“De início, o pessoal não tem uma visão, porque parte dos próprios candidatos. É a partir deles que o pessoal começa a se ligar. Nas famílias e comunidades, a visão inicial é só de quem já era candidato e pretende ir novamente. A pretensão de se inteirar é mais perto da eleição, depois que começam as propagandas”, relata o produtor.

Zavoiski ressalta que o produtor rural busca propostas concretas para o desenvolvimento do interior e sente o desgaste de promessas não cumpridas. “O pessoal tá muito ‘cheio’, não quer nem ouvir muito porque se fala muito e se traz pouco. Mas as demandas têm que partir do eleitorado para cobrar das autoridades municipais que busquem emendas. O setor agrícola precisa de incentivo prático para as associações, sem burocracia, seja uma espalhadeira de calcário, uma semeadora ou câmaras frias para guardar produtos, além de incentivo ao turismo rural e reformas de clubes e associações nas comunidades”, pontua o produtor de morangos.

As conversas de balcão no cotidiano

Essa convivência presencial e o olho no olho ganham força em pontos estratégicos, como os comércios locais e as barbearias — locais que funcionam como medidores da opinião pública. A professora  Alexandra destaca que o debate presencial no interior caminha lado a lado com as mídias digitais.

“Municípios de pequeno e médio porte costumam ter maior integração entre as pessoas no debate público de forma presencial. As pessoas se conhecem mais e, assim, espaços como o bar, a praça e o comércio adquirem grande importância, o que não significa que, em tempos de polarização, estejamos conseguindo construir um debate democrático nestes espaços”, ressalta a doutora.

Essa tensão gerada pela polarização é sentida na pele por quem atende o público no dia a dia. Na barbearia comandada por Yvanilton Almeida Costa, o tema exige cautela profissional.

“Ainda está quieto. Agora, está terminando o assunto de Copa do Mundo, e acredito que a partir de agosto já começam a surgir mais essas conversas. É um assunto muito delicado e a gente procura sempre que essas conversas partam do cliente, não nossa. A gente procura não dar o pontapé inicial”, explica Almeida.

O barbeiro faz um paralelo sobre como o clima esquenta rapidamente na cadeira de atendimento. “Quando se fala desse assunto, automaticamente, o ambiente fica meio tenso. A gente percebe que a grande maioria prefere ficar quieta, não comentar. Como ex-jogador de futebol, posso dizer, com toda certeza, que esse assunto de eleições ficou mais agressivo do que o futebol — o que nenhum dos dois poderia ser. A gente sabe que é inevitável no nosso ramo não conversar sobre isso, mas procuramos fugir do assunto”, analisa.

O movimento no comércio e nos pontos de encontro também é observado por Alceu Kosinski, o Peninha, que confirma a mudança de foco do público com a proximidade do pleito. “Após o término da Copa, o pessoal já começou a comentar sobre o próximo evento que vai estar na boca do povo, e claro que as eleições são o assunto principal”, relata Peninha, que também sente o desgaste do debate acalorado nas mesas. “Acho que o debate acontece quando alguém puxa o assunto, mas bate um cansaço quando alguém é petista roxo ou bolsonarista roxo”.

O desafio da fiscalização pós-urna

Para além da disputa eleitoral e da busca pelo voto, Alexandra faz uma provocação sobre o tipo de apatia que mais deveria preocupar a sociedade: aquela que acontece depois que as urnas são apuradas.

“Podemos discutir a apatia por outro ângulo: o interesse da população em acompanhar as ações dos candidatos eleitos. Aqui sim vejo apatia”, pondera a cientista política. “Infelizmente, seja pela falta de tempo ou de interesse, uma grande parcela da sociedade compreende que seu papel na política se esgota no voto, sem considerar que o histórico das ações e posições do candidato são fundamentais, afinal, as pessoas eleitas tomam decisões que nos atingem cotidianamente”.

O posicionamento encontra eco no rigor exigido por eleitores como Lucilaine ao escolher seus representantes. “O que mais me motiva a acompanhar de perto é analisar a transparência, a experiência e o compromisso dos candidatos. Exercer uma função pública exige preparo e responsabilidade durante todo o mandato, e não apenas nos períodos eleitorais. É preciso avaliar com cautela e buscar representantes que atuem por propósito e pelo bem comum, e não movidos por interesses pessoais ou status”, conclui.

RAIO-X DO ELEITORADO DE IRATI

Total de Eleitores Aptos: 46.200

  • Abstenção no último pleito municipal: 19,91% (9.199 eleitores deixaram de ir às urnas)
  • Votos Brancos e Nulos: 7,8% (3,58% Brancos + 4,22% Nulos)
  • Composição por Gênero: Maioria feminina (52% do eleitorado)
  • Principal Faixa Etária: Concentração majoritária de adultos entre 35 e 59 anos.

(Dados TSE)

Fernanda Hraber

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