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14/06/2021

Dois estudantes de escolas públicas da região de Irati são aprovados em Medicina na UEPG

Um é filho de agricultores e reside na localidade rural de Irati, chamada Boa Vista do Pirapó. Outro é morador de Teixeira Soares, o pai é mestre de obras e a mãe é vendedora

Dois estudantes de escolas públicas da região de Irati são aprovados em Medicina na UEPG

Vinícius Gustavo Bobrovski tem 19 anos, foi aluno do Colégio Estadual do Campo Nossa Senhora de Fátima, em Guamirim, e na última semana de maio recebeu a notícia de que foi aprovado em 4º lugar no vestibular de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

João Antônio Leonardo de Castro foi aprovado em 3º lugar no mesmo curso da instituição, ele tem 18 anos, mora em Teixeira Soares, estudou o ensino fundamental no Colégio Estadual João Negrão Júnior no município onde reside, e fez o curso Técnico em Informática (integrado) no IFPR campus de Irati.

Os futuros médicos relatam a emoção da aprovação no vestibular e contam como foram os anos de preparo para alcançar este sonho, que já começa a se tornar realidade, pois na próxima semana têm início as aulas on-line a partir de segunda-feira (14).

Vinícius explica que quando fez a prova do vestibular saiu confiante, sabia que tinha dado o seu melhor, mas a dúvida ficou por não saber como os outros tinham se saído nas provas. “Quando vi o resultado foi bem impactante e emocionante”.

João Antônio fala que a aprovação ainda aparenta ser um sonho. “Até agora não consigo acreditar que é verdade, eu estava sozinho em casa quando anunciaram pela live os aprovados. Depois de tanto esforço, tanta dedicação, fiquei muito emocionado”.

Sonhos não são impossíveis

Todos da família de Vinícius são agricultores, inclusive seus pais. Ele é o primeiro que seguirá outros rumos, pois apesar de admirar muito a profissão da família, não se identifica nesta área. “Desde criança eu pensava que queria ter outra profissão, sempre dei muita importância à agricultura, mas queria fazer uma faculdade e quando decidi que seria Medicina teve um pouco de resistência no início, mas logo minha família foi acreditando no meu potencial, me incentivaram e me apoiaram”, conta Vinícius.

Ele relata que algumas pessoas desacreditavam que seria possível alcançar uma vaga em uma universidade pública em Medicina, mas ele mostrou, assim como João, que estudar em escolas públicas não limita os sonhos de ninguém. “Sempre estudei em escolas públicas na área rural de Irati. Contar para as pessoas que eu queria fazer uma faculdade já chamava a atenção, quando falava qual curso, surpreendia ainda mais, por ser muito difícil e concorrido. Eu dizia para essas pessoas que o difícil não é sinônimo de impossível, por mais que pareça que você não vai conseguir, se você se esforçar e se dedicar com muita determinação naquilo que quer, mais cedo ou mais tarde vai conseguir. O que não pode é desistir, pois só não consegue quem desistiu”, frisa Vinícius.

A professora Renate Neumann Siman deu aula de Biologia para Vinícius no Colégio Estadual do Campo Nossa Senhora de Fátima. Ela conta que o jovem sempre foi muito dedicado, manteve o foco em fazer Medicina, e estudava com ela durante a tarde na biblioteca porque sabia que a disciplina era muito importante para o curso que desejava. “Em 2020, Vinícius estudou praticamente sozinho em casa, ele fazia os horários de estudo dele, me perguntava quando tinha alguma dúvida, sempre mantemos contato e sei que ele é uma pessoa que busca estar por dentro de tudo”.

Na família de João Antônio, morador de Teixeira Soares, a mãe é vendedora e o pai é mestre de obras. Ele é filho único e sempre estudou em escolas públicas. O futuro médico agradece aos pais por todo o apoio e aos professores desde as séries iniciais até o ensino médio, pois todos foram importantes para esta conquista.

João Antônio acredita que sua aprovação ocorreu devido a três pilares: persistência, calma e organização. “Eu sabia que precisava persistir porque não poderia subir uma montanha de uma vez só e desistir na metade, para ir até o fim teria que ser determinado; também precisei ter muita calma, principalmente com a pandemia, eu sempre pensei que todo mundo está passando por dificuldades, estamos todos no mesmo barco remando para o sucesso; e a organização que eu acho que é a parte mais importante, tem que aprender consigo mesmo a se organizar e conseguir chegar em um resultado positivo”, argumenta João Antônio.

O professor de Língua Portuguesa do IFPR de Irati, Artur Ribeiro Cruz, conta que João Antônio participava de um grupo de extensão para produção de textos. No ano de 2019, ele participou do concurso literário da instituição e foi premiado em todas as categorias, poesia, conto e crônica. “Os professores sempre comentavam que ele era muito comprometido com os estudos e muito organizado. Sempre foi brilhante nos textos e queria saber como poderia melhorar com os textos”, enfatiza o professor de Língua Portuguesa.

Por que Medicina?

Vinícius sempre admirou a profissão, mas por um tempo achava que era uma realidade muito distante, pois na família não há ninguém que tenha alguma afinidade com a área. “Mas quando comecei a estudar a anatomia humana me despertou mais o interesse e vi que é realmente isso que eu quero para a minha vida”, conta.

João Antônio escolheu esta profissão por querer ajudar as pessoas, e também por gostar e se identificar muito com as disciplinas. “A gente é tão pequeno neste mundo tão grande, mas eu quero transformar o mundo a minha volta, quero fazer a diferença nesse mundo gigante”, diz.

Rotina de estudos e desafios

Em 2018, Vinícius concluiu o ensino médio e nos anos de 2019 e 2020 começou se dedicar com mais intensidade para ser aprovado em Medicina. “Em 2019, fiz um curso pré-vestibular em Irati e consegui ficar na lista de espera, o que me levou a conseguir uma bolsa para um curso em Ponta Grossa, quando veio a pandemia voltei para Irati e continuei estudando em casa até o momento da prova”, relata.

João Antônio concluiu o ensino médio em 2019. No ano seguinte, iniciou um curso pré-vestibular, mas fez o curso por apenas um mês.  Quando a pandemia teve início, ele decidiu apenas comprar o material do curso e estudar em casa, sozinho. O jovem relata que aprendeu no IFPR a ser autodidata e estudou por conta própria, pois sentiu que não daria certo no ensino on-line do cursinho. De segunda a sexta, geralmente, ele não estudava de manhã, focava nos estudos das 13h às 18h, e nos sábados e domingos realizava simulados. O estudante fez outros vestibulares e processos seletivos em outras universidades, mas o foco maior sempre esteve na UEPG.

Já para Vinícius, com a pandemia a maior dificuldade que encontrou para estudar em casa foi em relação à internet, pois ele mora na localidade de Boa Vista do Pirapó, interior de Irati. Lá o sinal já era fraco e se tornou ainda pior quando muitas pessoas passaram a usar durante o dia com as aulas remotas. Ele relata que até mesmo mensagens de texto demoravam muito para serem enviadas, então a única solução que encontrou foi assistir às vídeo-aulas durante a madrugada, pois neste horário a internet estava funcionando melhor.

“Eu fiquei de março até julho assistindo as aulas entre 1h e 5h da manhã, porque durante o dia era impossível. Até que finalmente conseguimos arrumar a internet, por ser área rural não tem opções para escolher empresas”, destaca o estudante iratiense.

Estudar em casa tem vantagens e desvantagens, segundo Vinícius. Tem o lado positivo de poder estudar no horário que quiser, e por outro lado, senão souber se organizar sozinho pode se prejudicar, porém, estudar sozinho pode levar a um amadurecimento maior de ter que saber se organizar.

Ambos os estudantes decidiram prezar pela saúde mental e física, pois acreditam que para alcançar o conhecimento de qualidade é preciso cuidar de si próprio. “Eu tive que me privar de muita coisa para conseguir estudar, mas sempre presei pela política de que não deveria me desgastar, porque há pessoas que se desgastam demais e acabam aproveitando pouco daquilo que é o estudo”, argumenta João Antônio. Ele afirma que sempre teve ótimas noites de sono, manteve sempre uma boa alimentação, para estar sempre bem-disposto para estudar.

Vinícius explica que no ano de 2019 intensificou muito os estudos, estudava o dia todo e até mesmo nos finais de semana, e no ano passado decidiu que deveria “pegar mais leve” e fazer uma rotina de estudo com menos quantidade e mais qualidade, cuidar mais da saúde e alimentação. “Foquei mais nos pontos fracos, naquilo que ainda não sabia”, disse o estudante.

Educação pública e de qualidade

Os professores que fizeram parte da trajetória de Vinícius e João Antônio sentem-se orgulhosos pelas conquistas dos ex-alunos, não somente dos que foram aprovados em Medicina, mas também pelos que são aprovados em outros cursos e seguem caminhos em busca do desenvolvimento profissional.

“Temos vários estudantes do IFPR de Irati aprovados este ano na UEPG, na UFPR, em universidades de Santa Catarina, tem uma ex-aluna do curso de Informática que foi aprovada na Unicamp e outros estudantes aprovados em diversos cursos na região, todos nos deixam muito orgulhosos”, disse o professor de Língua Portuguesa do IFPR de Irati, Artur Ribeiro Cruz.

Segundo os professores entrevistados, de Biologia e Língua Portuguesa, o sucesso de João Antônio e Vinícius no vestibular é visto como o resultado de um conjunto de fatores. Ambos sempre buscam conhecimento em todas as áreas, pois, na redação, por exemplo, não se trata apenas do domínio da gramática e da norma culta, requer muito a capacidade argumentativa que envolve o conhecimento em todos os sentidos.

As produções de todos os gêneros textuais são significativas, pois abrem espaço para o desenvolvimento da competência linguística e do desenvolvimento cognitivo dos alunos, como explica o professor Artur.  Segundo ele, isso colabora para o sucesso nas outras disciplinas.

Ambos os professores entrevistados já trabalharam em colégios públicos e privados.

Artur destaca que no IFPR há os pilares: ensino, pesquisa e extensão, que abrem caminhos para que o aluno possa se esforçar mais, intensificando os estudos. A professora Renate frisa que há escolas públicas de qualidade, com professores comprometidos. “Os colégios públicos bem comprometidos estimulam bastante os alunos para que corram atrás do que querem. Vejo que não temos tanta diferença com os colégios particulares, temos muitas aprovações apesar das diferenças sociais”, afirma a professora de Biologia.

A pandemia pode ter desmotivado muitos alunos com os estudos à distância, todos tiveram que se adaptar e se organizar. “Esse momento que estamos vivendo é difícil até mesmo para nós adultos, imagina para os jovens, mas ter uma notícia como esta é motivo de orgulho para todos. Mesmo diante das dificuldades da pandemia as escolas, e especialmente o Instituto, continuam com o compromisso de oferecer a educação gratuita e de qualidade, visando o melhor aos estudantes”, ressalta o professor Artur.

Texto: Cibele Bilovus

Fotos: Divulgação

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