Da autoescola às motos elétricas: o trânsito em uma nova era

Por Redação Hoje Centro Sul 9 min de leitura

Mais do que veículos, sinalizações ou multas, especialistas defendem que o trânsito é um reflexo direto do comportamento humano. A pressa excessiva, a dificuldade de esperar, a distração constante, sobretudo com o celular, e a perda da percepção de risco revelam problemas que vão além das ruas e avenidas onde a mobilidade urbana tem passado por transformações

O trânsito mudou. E não foi apenas pela quantidade de veículos nas ruas. Nos últimos anos, bicicletas elétricas, patinetes, motos elétricas e ciclomotores passaram a ocupar espaços antes dominados apenas por carros, motos e pedestres. Ao mesmo tempo, o comportamento das pessoas também se transformou: a pressa virou rotina, o celular se tornou companhia constante e a sensação de urgência parece atravessar ruas, avenidas e rodovias diariamente.

Em meio a esse cenário, discussões nacionais sobre a flexibilização da formação de condutores e o possível fim da obrigatoriedade das aulas em autoescolas reacenderam debates importantes sobre educação, cidadania e segurança viária.

Para especialistas, o problema do trânsito atual não está apenas nas regras ou na fiscalização, mas principalmente na forma como a sociedade se relaciona com o espaço coletivo. O chefe da Divisão de Cursos e Reciclagem da Escola Pública de Trânsito do Detran-PR e especialista em Segurança Viária, Marcel Cabral Costa, explica que a mobilidade urbana passou por mudanças aceleradas nos últimos anos, principalmente após a pandemia, quando houve crescimento das entregas por aplicativos e da busca por alternativas mais econômicas de deslocamento.

Segundo ele, muitas pessoas passaram a utilizar veículos elétricos sem compreender exatamente o que estavam conduzindo — e sem conhecer as responsabilidades envolvidas no trânsito. “Hoje existe uma falsa sensação de segurança muito grande”, alerta.

Marcel salienta que a Resolução 996 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) organizou esses veículos em diferentes categorias. As bicicletas elétricas, por exemplo, possuem pedal assistido, velocidade limitada a 32 km/h e podem circular em ciclovias e ciclofaixas. Já equipamentos autopropelidos, como patinetes, skates e monociclos elétricos, podem ter acelerador, mas precisam respeitar limites específicos de velocidade.

Os ciclomotores — como motos elétricas mais robustas e as chamadas “cinquentinhas” — exigem habilitação, emplacamento e uso obrigatório de capacete. Mesmo assim, a confusão ainda é comum nas ruas. Marcel destaca que muitos usuários não sabem diferenciar os veículos nem conhecem as regras básicas de circulação. Em alguns casos, até a fiscalização encontra dificuldades devido à ausência de critérios claros em determinados modelos importados.

Além disso, cresce a preocupação com adolescentes utilizando equipamentos potentes sem preparo adequado. “O jovem, muitas vezes, encara aquilo como diversão ou como um videogame. Mas o trânsito real não tem botão de reiniciar”, afirma.

A pressa virou comportamento

Para o especialista, um dos maiores problemas do trânsito atual é a perda da percepção de risco: as pessoas vivem em uma lógica de urgência constante e acabam acreditando que conseguem controlar situações perigosas.

Ele ressalta que o celular se tornou um dos maiores símbolos dessa distração cotidiana. “O motorista acredita que consegue olhar rapidamente para a tela sem perder atenção da via. Mas a ciência já demonstra que isso provoca uma espécie de cegueira cognitiva”. Enquanto o cérebro foca na mensagem, na ligação ou nas redes sociais, a atenção deixa de estar completamente voltada para a rua. O resultado aparece em frenagens bruscas, colisões traseiras e atropelamentos causados por distração.

A impaciência também tem reflexos diretos no excesso de velocidade. Marcel ressalta que muitas pessoas assumem riscos para ganhar poucos minutos no trajeto, ignorando que a velocidade reduz, drasticamente, o tempo de reação e aumenta a gravidade dos acidentes.

“A velocidade máxima não é um desafio. Ela é um limite pensado para a sobrevivência humana”, destaca. Outro ponto que preocupa é o uso incorreto dos equipamentos de proteção. “Muitos motociclistas e usuários de bicicletas elétricas utilizam capacetes de forma inadequada, sem prender corretamente a fita de segurança, o que compromete totalmente a proteção em caso de queda”, lembra.

O trânsito além das placas

O advogado especialista em trânsito, Gustavo Coelho Martins, acredita que o debate sobre formação de condutores vai muito além da aprendizagem técnica. Para ele, o principal problema está no fato de que o brasileiro, em geral, só tem contato com educação para o trânsito quando chega à autoescola, já na vida adulta.

“O trânsito não é apenas regra, placa ou legislação. O trânsito envolve cidadania”. Segundo Gustavo, o Código de Trânsito Brasileiro prevê que a educação para o trânsito seja trabalhada em todos os níveis escolares, mas isso ainda não acontece de forma efetiva no país.

Ele observa que muitos comportamentos considerados normais hoje foram aprendidos socialmente ao longo dos anos. Pessoas que cresceram vendo familiares dirigindo sem cinto, utilizando celular ao volante, estacionando em vagas irregulares ou consumindo álcool antes de dirigir acabam naturalizando essas condutas.

Por isso, o advogado acredita que é impossível esperar que poucas horas de formação consigam transformar completamente o comportamento de um adulto. “As pessoas podem decorar regras pela internet, assistir vídeos e até passar em provas. Mas cidadania e comportamento não se aprendem apenas assistindo conteúdo online”, pontua.

Martins demonstra preocupação com a possibilidade de flexibilização das autoescolas e da formação prática porque o risco é transformar o processo de habilitação em algo excessivamente técnico, deixando de lado a formação humana e cidadã. Ele também chama atenção para a diferença entre o modelo brasileiro e países frequentemente usados como referência em debates sobre trânsito.

De acordo com o advogado, nações como Espanha, Suécia e outros países europeus mantêm processos rigorosos de formação e investem fortemente em educação e conscientização desde a infância.

“A gente não pode comparar apenas a burocracia. É preciso comparar cultura, educação, fiscalização e comportamento social”, afirma. O especialista ainda avalia que o avanço da tecnologia e o crescimento dos veículos elétricos aconteceram de forma muito mais rápida do que a atualização das legislações e das políticas públicas. “O problema, muitas vezes, cresce primeiro. Só depois começam as discussões sobre regulamentação, fiscalização e conscientização”.

Tecnologia avança mais rápido que a legislação

Outro ponto destacado pelos especialistas é a dificuldade de a legislação acompanhar a velocidade das transformações sociais e tecnológicas. Para o advogado, assim como acontece atualmente na internet e nas redes sociais, o trânsito também enfrenta desafios para regulamentar rapidamente novas formas de mobilidade.

Segundo ele, muitas vezes as autoridades, os próprios usuários e até órgãos fiscalizadores encontram dificuldades para identificar corretamente determinados equipamentos elétricos, especialmente devido à variedade de modelos importados e à ausência de padronizações mais claras.

Além disso, Martins defende que apenas a fiscalização não resolve o problema. “Não adianta existir regra se as pessoas não entendem a importância dela ou escolhem ignorá-la”. A conscientização e educação continuam sendo os caminhos mais eficazes para reduzir acidentes e construir um trânsito mais seguro.

A realidade dentro das autoescolas

Quem vive diariamente a formação de novos condutores também percebe mudanças importantes no comportamento das pessoas. A proprietária de uma autoescola em Irati, Izabel da Costa Markowicz, afirma que a formação teórica e prática continua sendo indispensável para preparar motoristas conscientes e seguros.

“Como colocar uma pessoa no trânsito sem sequer conhecer placas, regras de circulação ou o funcionamento básico de um veículo?”, questiona. Ela expõe que muitos alunos chegam ao processo de habilitação acreditando que aprenderão a dirigir em poucas aulas, sem compreender a responsabilidade envolvida no trânsito.

Segundo Izabel, a insegurança durante os exames práticos também tem sido cada vez mais frequente. Para ela, dirigir exige muito mais do que dominar um veículo. Exige responsabilidade, atenção, respeito e convivência coletiva.

O trânsito como reflexo da sociedade

Mais do que veículos, sinalizações ou multas, especialistas defendem que o trânsito é um reflexo direto do comportamento humano. A pressa excessiva, a dificuldade de esperar, a distração constante e a perda da percepção de risco revelam problemas que vão além das ruas e avenidas.

Entre novas tecnologias, mudanças na mobilidade urbana e debates sobre flexibilização da formação, o desafio do trânsito moderno parece estar menos ligado à potência dos motores e mais relacionado à construção de consciência coletiva, pois dirigir continua sendo um ato de responsabilidade compartilhada.

Você sabe qual veículo elétrico exige habilitação?

Bicicleta elétrica

  • Possui pedal assistido
  • Velocidade máxima de até 32 km/h
  • Não pode ter acelerador manual
  • Pode circular em ciclovias e ciclofaixas
  • Não necessitam de habilitação

Equipamentos autopropelidos

(Patinetes, skates e monociclos elétricos)

  • Podem ter acelerador
  • Nas calçadas: limite de até 6 km/h
  • Nas ciclovias: até 20 km/h
  • Não necessitam de habilitação
  • Ciclomotores e motos elétricas
  • Ultrapassam 32 km/h
  • Possuem acelerador
  • Exigem emplacamento
  • Necessitam habilitação (categoria A ou ACC)
  • Uso de capacete é obrigatório

Fonte: Resolução 996/2023 do CONTRAN e entrevista com Marcel Cabral Costa, especialista em Segurança Viária do Detran-PR.

Fernanda Hraber

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