Como a tecnologia, a sobrecarga e o afeto redefinem o papel do professor na sala de aula

Por Redação Hoje Centro Sul • • 8 min de leitura

Entre resgates históricos, o impacto acelerado das telas e a luta contra a desmotivação, os bastidores da docência moderna revelam que a essência do ensino continua dependendo da relação humana

A escola, tal como a conhecemos, nasceu sob o ritmo da Revolução Industrial, desenhada para preparar cidadãos para um mundo em rápida transformação técnica. Das salas de aula rurais do Brasil do século XIX às diretrizes de universalização do ensino na década de 1960, a educação sempre respondeu aos impulsos e urgências de seu tempo. Contudo, poucas eras exigiram tanto equilíbrio, capacidade de reinvenção e resiliência da figura do professor quanto a atual.

Na era da Inteligência Artificial, do celular no bolso e da informação rápida, ensinar deixou de ser a mera transmissão de conteúdo para se tornar um exercício diário de mediação, sensibilidade e gestão de crises. Compreender as camadas dessa evolução, desde o resgate histórico aos desafios do dia a dia da escola, exige olhar para a realidade por meio das diferentes etapas do ensino: do universo acadêmico e da formação docente até o cotidiano das redes estadual e municipal em Irati.

Das origens do ensino à corrida da era digital

Para entender o presente da sala de aula, é preciso olhar para o caminho percorrido. A professora Dra. Nelsi Antonia Pabis, docente do Departamento de Pedagogia da Unicentro (Campus Irati), destaca que a educação escolar brasileira sempre acompanhou as guinadas econômicas e sociais do país.

Da obrigatoriedade do ensino primário prevista na Constituição de 1824, que por décadas permaneceu distante da realidade rural e precária do país, até a transição para o modelo industrial na década de 1930, a escola precisou se expandir. Foi com a primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB 4024/61) e o fortalecimento dos cursos de Pedagogia que o Brasil passou a formar professores em nível superior para responder às demandas de uma sociedade em rápida urbanização.

Hoje, no entanto, o desafio é de outra ordem. Nelsi pontua que a chegada da informática, da robótica e da Inteligência Artificial impôs uma nova dinâmica ao aprendizado, na qual o celular se tornou o maior concorrente do professor no cotidiano escolar. “O celular é uma ferramenta poderosa de comunicação e informação, mas, na maioria das vezes, não é utilizado para o aprendizado em sala de aula, e sim para enviar mensagens, redes sociais e músicas, dificultando a atenção. Esse comportamento atinge o trabalho pedagógico, o desempenho dos alunos e a saúde dos professores, que, na maioria das vezes, se sentem impotentes diante da situação”, analisa a professora.

A pesquisadora alerta que a facilidade das redes sociais acostuma os estudantes a conteúdos reduzidos e efêmeros, gerando a falsa ilusão de que a tecnologia, por si só, resolve o aprendizado. “Para fazer uso da IA é necessário conhecimento, que não dispensa a leitura do livro físico, as anotações, a escrita manual, o caderno, a interpretação, o debate e os trabalhos práticos. O grande desafio em todos os níveis da educação é equilibrar o uso da tecnologia sem que ela se torne objeto de distração ou superficialidade no aprendizado”, defende a docente da Unicentro.

A luta contra as telas e a sobrecarga de plataformas

Se no campo teórico o desafio é equilibrar a tecnologia, na prática das redes de ensino a realidade exige um jogo de cintura constante. Com 22 anos de experiência na rede estadual, a professora de História da Escola Estadual Nossa Senhora das Graças, Juliana Bastos, relata que inovar virou premissa para prender a atenção de turmas hiper conectadas.

Para sair do tradicional “quadro e giz”, Juliana busca inspiração contínua em redes de professores e no grupo de estudos Formadores em Ação. “É necessário sair do ‘feijão com arroz’ sempre que possível, pois os alunos se mostram muito mais engajados com novos estímulos. Contudo, o tempo de tela que eles passam fora da escola acaba consumindo a criatividade, o tempo de leitura e o conhecimento dos alunos, infelizmente”, lamenta Juliana.

Apesar das resistências iniciais, a professora garante que as metodologias ativas e práticas diferenciadas transformam o clima em sala de aula, reduzindo a ansiedade e devolvendo aos estudantes o sentimento de pertencimento ao ambiente escolar. “As turmas ficam eufóricas por novos desafios. Eles aprendem de uma forma totalmente diferente do ‘quadro e giz’ e, muitas vezes, jamais esquecem o conteúdo trabalhado”, conta a professora de História.

Porém, a inovação esbarra em um obstáculo silencioso: a exaustão e a sobrecarga da própria categoria docente. Juliana expõe que a rotina tem sido sufocada por exigências burocráticas e plataformas virtuais. “A maior dificuldade que nós, professores, temos hoje é o tempo, pois a escola se tornou um ambiente sobrecarregado de plataformas digitais, de provas externas e de várias outras atividades que acabam atrapalhando a aprendizagem de fato. A desmotivação não é só dos alunos, mas dos professores também, devido a tantas demandas e cobranças, além da desvalorização”, relata.

Anos iniciais, afeto e a parceria com as famílias

Se no ensino médio o desafio é disputar a atenção com os smartphones, nos anos iniciais do ensino fundamental o foco da docência se volta para a formação da base emocional e social da criança. Com uma trajetória de 30 anos na educação, atuando hoje na Escola Municipal Matilde Araújo do Nascimento com alfabetização no 2º ano e com turmas de Altas Habilidades, a professora Adriani Benato de Macedo traz uma perspectiva acolhedora sobre o perfil dos novos alunos.

Adriani observa que as crianças de hoje chegam à escola cada vez mais curiosas e questionadoras, além de haver uma presença mais diagnosticada de alunos neurodivergentes, o que exige um olhar sensível e preparado para atender a diferentes ritmos de aprendizagem. Sobre o impacto do mundo digital nos pequenos, a educadora faz uma orientação preventiva.

“Não percebo, de forma acentuada, a falta de concentração ou a ansiedade nas minhas turmas, mas observo diferenças nos hábitos. Considero importante refletir sobre a maneira como utilizam as telas, especialmente o tempo de exposição e a adequação dos conteúdos à faixa etária. Quando necessário, a escola orienta as famílias, pois escola e família precisam caminhar juntas, compartilhando responsabilidades”, pondera Adriani.

Para a professora municipal, o segredo de uma alfabetização bem sucedida não está em demonizar as mídias modernas, mas em resgatar a intencionalidade pedagógica, o vínculo de afeto e a humanização no ambiente escolar. “Não podemos simplesmente responsabilizar as mídias digitais ou a Inteligência Artificial pelas dificuldades de aprendizagem. Esses recursos fazem parte da realidade atual e precisam ser utilizados de maneira consciente. A tecnologia pode contribuir, mas é a intencionalidade pedagógica, aliada à relação humana, que dá sentido à aprendizagem”. Ela completa explicando que educar é acompanhar as transformações do mundo sem perder de vista o olhar atento, a escuta e o afeto.

O futuro da docência e o gargalo na formação dos novos educadores

As transformações que chegam às escolas de Irati cobram respostas imediatas também da formação acadêmica. Como lembra a professora Dra. Nelsi, os próprios cursos de Pedagogia enfrentam dilemas profundos para preparar os futuros profissionais.

A docente da Unicentro aponta que muitas matrizes curriculares ainda apresentam lacunas no uso das tecnologias, focando apenas na ferramenta técnica sem abordar as conexões com a educação. Além disso, a realidade do estudante de licenciatura que, em sua maioria cursa a faculdade no período noturno após uma jornada integral de trabalho, limita o tempo dedicado à pesquisa de campo e às leituras aprofundadas.

Para que o Brasil supere a barreira da universalização e alcance uma educação de real qualidade, as três educadoras concordam em um ponto fundamental de que é urgente investir em políticas públicas estruturantes. A valorização da carreira docente, a melhoria da infraestrutura das escolas, o suporte emocional aos professores e o fomento à educação integral são os pilares indispensáveis para que a tecnologia seja apenas uma aliada para que a figura humana do professor continue sendo o verdadeiro motor da transformação social.

Fernanda Hraber

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