Além da sala de aula: projetos de extensão transformam realidades em Irati e região

Por Redação Hoje Centro Sul 9 min de leitura

Iniciativas de universidades aproximam conhecimento da população e contribuem para acesso à justiça, conscientização em saúde e fortalecimento da produção rural, com impacto direto na vida da comunidade

Muito além das salas de aula, as universidades têm ampliado sua atuação junto à comunidade por meio de projetos de extensão, levando serviços, orientação e conhecimento prático à população. Em Irati e região, iniciativas nas áreas de saúde, direito e agricultura mostram como o ensino pode impactar diretamente a vida das pessoas, aproximando teoria e prática em ações concretas.

Saúde e conscientização

Na área da saúde, um dos projetos desenvolvidos pelo curso de Farmácia do Centro Universitário Campo Real atua no recolhimento e descarte correto de medicamentos.

“O principal objetivo do projeto é promover o descarte correto de medicamentos vencidos ou em desuso, evitando riscos à saúde pública e ao meio ambiente. A ação busca prevenir a contaminação do solo e da água, reduzir o uso inadequado de medicamentos e conscientizar a população sobre práticas seguras relacionadas ao armazenamento e descarte desses produtos”, explica a professora e coordenadora de Extensão, Milena Tyssia de Souza Machado.

Além da sala de aula: projetos de extensão transformam realidades em Irati e região

A docente também destaca o caráter formativo da ação. “O projeto proporciona aos acadêmicos uma vivência prática, desenvolvendo responsabilidade socioambiental, consciência ética e competências relacionadas à educação em saúde e atuação comunitária”.

Na prática, o funcionamento ocorre em parceria com o poder público, com instalação de pontos de coleta nas unidades de saúde. “O projeto é aplicado por meio da instalação de coletores nas UBS designadas pela Secretaria Municipal de Saúde. Os medicamentos recolhidos passam por triagem: aqueles fora do prazo de validade são encaminhados para descarte adequado, conforme normas sanitárias e ambientais, enquanto os medicamentos que ainda estão dentro do prazo de validade e em condições adequadas de uso são destinados à doação, seguindo critérios de segurança”, detalha Milena.

Para os acadêmicos, a experiência também reforça a formação profissional. O farmacêutico André Laroca de Lima, formado pela instituição, destaca o aprendizado adquirido. “O projeto contribuiu para aprender o descarte correto de cada apresentação farmacêutica, pois é necessário que haja uma triagem manual antes de serem descartados”.

Ele acrescenta que a experiência também amplia a visão sobre o papel do farmacêutico. “Além disso, o farmacêutico é um profissional essencial quando falamos de uso racional de medicamentos. Com o projeto, aprendi a importância da orientação farmacêutica para que o paciente realize o tratamento corretamente, assim evitando sobras de medicamentos que futuramente poderão ser descartadas de maneira indevida”. A iniciativa, portanto, vai além da destinação correta dos resíduos, atuando também na educação em saúde e na prevenção de impactos ambientais.

Além da sala de aula: projetos de extensão transformam realidades em Irati e região

Acesso à justiça

Na área jurídica, o Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ) da Faculdade São Vicente tem atuado como uma importante ponte entre a população e o acesso à justiça, especialmente em regiões onde a Defensoria Pública não está plenamente presente.

O professor Paulo Pinheiro, coordenador do núcleo, explica que a estrutura do NPJ segue diretrizes nacionais estabelecidas pelo MEC. “Desde o ano de 2018 existe uma norma que institui as diretrizes curriculares do curso de Direito e define que todo curso deve ter um Núcleo de Práticas Jurídicas como órgão responsável pela prática jurídica e pelo estágio obrigatório”. A regulamentação também ganha relevância diante da realidade local.

Ele contextualiza que, no Paraná, o acesso à Defensoria Pública ainda é limitado. “O Paraná foi um dos últimos estados do país a ter Defensoria Pública e, infelizmente, esse órgão não está presente em todas as comarcas. A nossa região não é contemplada, e a população que não tem condições de contratar um advogado particular fica carente de acesso à justiça”, aponta Pinheiro.

Diante desse cenário, o núcleo atua diretamente no atendimento à comunidade. “O nosso NPJ vem auxiliando a população de Irati e região a receber orientações jurídicas e representação processual nas áreas atendidas pelo núcleo”. Os atendimentos são realizados por acadêmicos do curso em estágio obrigatório, com supervisão de professores.

Nesses atendimentos, a demanda é detectada e a equipe inicia o atendimento jurídico ou promove os encaminhamentos necessários. Entre os principais casos atendidos estão demandas de direito de família, como pensão alimentícia, guarda, visitas e divórcio, além de questões de direito do consumidor e situações de violência doméstica e familiar.

O professor também destaca que, quando necessário, os casos são encaminhados para outros órgãos, como OAB, Procon e CRAS, além de mencionar projetos vinculados ao núcleo, como iniciativas voltadas aos direitos humanos e à população em situação de vulnerabilidade. “Com pouco mais de um ano de atuação, eu diria que, com o auxílio do NPJ, a população ganhou um aliado na proteção, garantia de direitos e, principalmente, no acesso à justiça”.

Para quem utiliza o serviço, o impacto é direto. Rosimari Aparecida Lipovieski utilizou o NPJ. Ela relata que o atendimento trouxe agilidade e solução para sua demanda. “O projeto me ajudou muito e foi uma coisa mais rápida, de modo jurídico, digamos assim. Facilitou bastante. A Karyne e sua equipe atenderam muito bem e, da forma que fizemos o acordo, tudo numa boa, ficou muito bom para ambos”.

Karyne Vogler, mencionada pela Rosimari, está no 9º período de Direito e destaca a importância da experiência adquirida no NPJ. “Os atendimentos jurídicos têm contribuído de maneira impactante para minha formação acadêmica. Eu sinto o maior prazer em receber a comunidade iratiense e da região, gosto muito de ouvir as demandas e tenho extrema paciência em dar atenção a qualquer tipo de situação”.

Ela também ressalta a importância do atendimento humanizado e da orientação dos professores. “Faço atendimento presencial e por WhatsApp, com educação e respeito à dignidade da pessoa”. A acadêmica de Direito recebe o apoio jurídico do professor para realizar petições e acordos.

Entre os casos que mais chamaram sua atenção, destaca-se a demanda por pensão alimentícia. “O que mais me marcou foi a grande demanda de pensão alimentícia. Crianças e adolescentes são o maior foco nos acordos, e precisam estar em total bem-estar na realização desses processos”.

Tecnologia e desenvolvimento no campo

Na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), um projeto de extensão tem levado inovação tecnológica ao meio rural, com foco na certificação agroecológica de agricultores familiares — o Projeto Sustenta Agro.

A iniciativa, coordenada pela professora Telma Regina Stroparo, é desenvolvida em parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e conta com financiamento da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná.

Além da sala de aula: projetos de extensão transformam realidades em Irati e região

“O projeto promove a transformação digital no meio rural e já apresenta resultados concretos ao contribuir para a desburocratização da certificação agroecológica, tornando esse processo mais ágil, acessível e alinhado às realidades socioterritoriais da agricultura familiar”, enfatiza Telma.

A proposta adota o sistema SISNEAT, uma tecnologia de código aberto que organiza informações produtivas e auxilia no processo de certificação –  historicamente  marcado pela burocracia e pelo uso de formulários em papel. “O projeto utiliza este sistema para desburocratizar a certificação agroecológica, organizar as informações produtivas e oferecer suporte técnico aos agricultores. Os principais desafios são o acesso à internet, a adaptação às tecnologias e as exigências normativas”.

Entre os principais avanços está a digitalização do Plano de Manejo Orgânico (PMO), um dos documentos mais complexos do processo. Com o preenchimento guiado e automatizado, a ferramenta reduz erros e elimina retrabalho, podendo diminuir em até 80% o tempo gasto nessa etapa.

Além disso, o sistema funciona tanto online quanto offline, permitindo que agricultores utilizem o aplicativo diretamente no campo, mesmo em regiões com baixa conectividade, com sincronização automática quando há acesso à internet.

Os resultados iniciais já demonstram a efetividade da iniciativa, com 20 agricultores cadastrados, cinco associações atendidas, 12 capacitações realizadas e cinco parceiros institucionais envolvidos.

A certificação adotada segue o modelo participativo de garantia, no qual a própria comunidade valida a conformidade da produção orgânica, fortalecendo a confiança, a organização coletiva e o controle social. “A certificação melhora a organização da produção, agrega valor aos produtos e amplia o acesso a mercados, especialmente locais. Também fortalece a autonomia dos agricultores e as redes de cooperação no território”, conclui a professora.

SAIBA MAIS: como acessar os projetos

A comunidade pode ter acesso a diferentes serviços oferecidos pelas instituições de ensino da região.

Atendimento jurídico gratuito (NPJ – Faculdade São Vicente)

O Núcleo de Práticas Jurídicas oferece orientação e atendimento nas áreas de direito de família, consumidor e outras demandas, especialmente para quem não pode contratar advogado.

Os atendimentos ocorrem nas terças e quartas-feiras, das 8h às 11h30, e das 13h30 às 17h, e às sextas-feiras, das 8h às 11h30. O agendamento pode ser feito pelo telefone ou WhatsApp (42) 98445-2139.

Descarte correto de medicamentos (Campo Real)

A população pode participar por meio dos pontos de coleta instalados em unidades básicas de saúde. Medicamentos vencidos ou em desuso devem ser descartados nesses locais.

Certificação agroecológica (Unicentro)

Produtores rurais podem buscar informações sobre o projeto por meio do Instagram @proj.sustenta_agro e pelo blog blog.unitinerante.org, onde são divulgadas orientações e ações da iniciativa.

Mais informações também podem ser obtidas diretamente com as instituições ou em seus canais oficiais.

Fernanda Hraber

Gostou? Compartilhe!