Do provedor ao cuidador: a evolução do afeto e da presença na paternidade moderna

Por Redação Hoje Centro Sul 7 min de leitura

A partir de análises históricas, estatísticas e histórias reais de superação e parceria no lar, as mudanças chegaram, definitivamente, com o novo papel dos pais na criação dos filhos e na desconstrução de responsabilidades tradicionais de gênero

A figura do pai que se limita ao papel de autoridade distante ou mero “provedor financeiro” tem ficado, cada vez mais, na memória do passado. Seja por transformações sociais, reconfigurações do mercado de trabalho ou escolha consciente, a paternidade contemporânea vive um processo de ressignificação. Hoje, muitos homens ocupam de forma ativa os espaços do lar, assumem rotinas de cuidados, enfrentam noites mal dormidas e reaprendem tarefas antes atribuídas exclusivamente às mulheres.

Por trás dessa transição, contudo, há um denso processo histórico e social de quebra de paradigmas. De acordo com a professora doutora Nadia Maria Guariza, docente do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da Unicentro (Câmpus Irati) e vice-coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero, a divisão rígida do trabalho doméstico se consolidou a partir do século XVIII na Europa e chegou ao Brasil no século XIX sob o conceito de “modelo familiar burguês”.

“Esse modelo delimitou espaços e funções: a mulher educada para o lar e a maternidade, e o homem como o provedor. No entanto, ele nunca representou a totalidade da realidade brasileira. A partir dos anos 1960, com o movimento feminista, as funções familiares passaram a ser questionadas e a figura do pai ‘cabeça do casal’ foi reformulada nas mídias, nas leis e na sociedade. Hoje, vivemos uma nova tensão entre o modelo tradicional e as novas configurações familiares”, explica a historiadora.

A desconstrução de crenças e a parceria na prática

A teoria explicada pela história encontra eco no cotidiano de famílias iratienses. Quando o primeiro filho nasceu, em 2019, o professor e doutorando Maycon Tchmolo viveu ao lado da esposa, Juleine, um período intenso de 27 dias de UTI neonatal. Ali, a divisão de tarefas deu lugar à parceria incondicional.

“Sempre fomos muito unidos e sem essa divisão rígida que a sociedade impõe. Nas madrugadas em casa, como ele acordava muitas vezes, a gente revezava: a Ju dormia mais cedo para poder trabalhar no dia seguinte e eu ficava com o bebê no colo até as 3h da manhã”, relembra Tchmolo.

Entretanto, em 2021, o fechamento do projeto em que Maycon trabalhava trouxe um desafio que foi além da rotina: a cobrança interna trazida por uma criação tradicional. Enquanto a clínica de sua esposa prosperava, ele assumia o protagonismo das tarefas domésticas e do cuidado com os dois filhos, o Benício e a recém-chegada Maria Helena.

“Vindo de uma família muito conservadora, me veio um conflito interno pesado. Eu tinha a crença enraizada de que o homem é quem precisava trazer o dinheiro para casa. Foi através do acompanhamento psicológico e do esporte que entendi que aquilo era uma crença que precisava ser quebrada. Quando vimos que o trabalho da Ju renderia mais financeiramente, pensamos estrategicamente no bem da família. Eu assumi a casa e as crianças com amor e desapego da vaidade. Entender que a parceria no lar e o cuidado não diminuem o homem foi a maior transformação da minha vida”, revela o pai.

Para a professora Nádia, o processo enfrentado por Maycon reflete a resistência cultural que ainda atribui o termo “ajudante” ao pai que exerce seu papel. “Quando o cuidado com os filhos é naturalizado socialmente como uma obrigação feminina, ao homem que cuida é dada a denominação de ‘ajudante’. Quando homens ou mulheres realizam atividades socialmente atribuídas ao outro gênero, ainda são vistos como meros auxiliares. Por isso, quando as famílias se abrem para divisões mais equitativas, evita-se a sobrecarga e constroem-se novos referenciais”, aponta.

O reflexo dessa mudança já é sentido na próxima geração. “Nossos filhos crescem sem ver divisão de tarefa por gênero. Eles têm esse exemplo em casa e hoje já nos ajudam a guardar a louça e arrumar o lar, por exemplo. É uma formação de cidadania sem preconceitos”, conclui Maycon.

Do provedor ao cuidador: a evolução do afeto e da presença na paternidade moderna

Paternidade solo: quando o amor ressignifica a vida

Se no arranjo familiar a parceria reescreve papéis, na paternidade solo o amor se desdobra em dedicação integral. É a história de Antônio Carlos Molinari, que detém a guarda definitiva da filha, Paula Fernanda de Góis Molinari, desde 2013, quando ela tinha apenas três anos. Hoje, com a filha aos 16 anos, ele olha para a trajetória de criação exclusiva com a serenidade de quem cumpriu uma missão.

“Quando pedi a guarda, não senti medo nem dúvida porque sabia que era capaz de cuidar dela. Tive o apoio da minha família e amigos nas horas difíceis e precisei aprender a conciliar meu trabalho, a casa, o cozinhar e o levar e buscar na creche e na escola. A chegada da Paula mudou minhas atitudes, meu comportamento e meus hábitos para muito melhor. Fiz tudo com muito amor e faria tudo de novo”, conta Molinari.

Apesar da dedicação admirada por quem o cerca, o pai mantém a modéstia: “Não sinto orgulho de mim porque fiz apenas a minha obrigação. Todo pai deveria cuidar e educar bem seu filho. Para mim, ser pai é ser tudo; é uma bênção de Deus”.

Mas para a filha, o gesto do pai ultrapassa o conceito do dever e Paula Fernanda expressa uma gratidão que transcende as palavras. “Olhando para tudo o que meu pai fez por mim, sinto uma gratidão imensa. Ele abriu mão de muitas coisas para que eu tivesse boas oportunidades e nunca deixou me faltar amor, carinho e apoio. Para mim, ele é muito mais que um pai: fez papel de pai e de mãe, me ensinou com atitudes a ser uma pessoa de valor e é o meu maior exemplo de força e o meu herói. Tudo o que eu sou hoje tem um pouco dele”, declara a jovem.

No fim das contas, ser pai hoje é equilibrar o passado com o presente, projetando um novo horizonte para quem está chegando agora. “O maior desafio é orientar a partir dos bons valores que aprendemos com nossos pais, mas em paralelo com as constantes mudanças do mundo”, pontua Maycon. É nessa ponte entre o ontem e o amanhã que o afeto encontra o seu lugar.

EM NÚMEROS: A DINÂMICA DA FAMÍLIA BRASILEIRA

  • Carga doméstica: Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE (2024), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas.
  • Mudança nos arranjos: O Censo do IBGE aponta que os casais com filhos passaram de 55,8% do total de lares em 2000 para 45,2% atualmente.
  • Mães e Pais Solo: As famílias formadas por apenas um dos pais e filhos continuam em crescimento no país, representando mais de 13,5% das estruturas familiares brasileiras.

(Fonte: IBGE / PNAD Contínua)

Fernanda Hraber

Gostou? Compartilhe!