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15/10/2021

“Sejam professores por amor”, aconselha aposentada que ensinou durante 40 anos

Por que escolher trabalhar como professor? Uma professora em início de carreira e outra que atuou por quatro décadas relatam o que as motivou a atuar na educação

“Sejam professores por amor”, aconselha aposentada que ensinou durante 40 anos

Cecília do Amaral Ivatiuk deu aula durante 40 anos e conta que sempre atuou por amor à docência, assim como sua mãe, Ana Amaral Gruber. Na família da aposentada também há outras pessoas que escolheram a profissão de ensinar. “Sempre falo para os meus netos que sejam professores por amor, tudo o que eu fazia era por amor, era professora porque eu gostava mesmo”, diz Cecília, que começou a trabalhar em Gonçalves Júnior no ano de 1960. Depois, ao longo de sua carreira, atuou na Escola Francisco Vieira de Araújo e no Colégio São Pedro Canísio.

Karen Cristine Sarraff leciona há menos de cinco anos e além de gostar de ensinar, acredita que pode influenciar positivamente a sociedade através desta profissão. “Ser professor envolve muito amor aos alunos, é muito gratificante ver a evolução deles, fazer com que se sintam confiantes. Acredito que ser professor vai além de ensinar, é abrir as portas do mundo e ajudá-los a decidir suas escolhas, formar adultos responsáveis, ser parte da construção de uma sociedade mais justa, uma construção social, cultural, cognitiva, afetiva e humana dos alunos”, diz a professora, que trabalha desde 2017 na Escola Municipal do Campo São Miguel, localizada na área rural de Rebouças. Karen dá aula para crianças do 4º e 5º ano e para a educação infantil. 

Cientes da participação que têm na vida dos alunos –  desde o professor primário que cuida do início da alfabetização até o professor universitário que leciona no doutorado e auxilia os estudantes em projetos originais – o sentimento de realização é comum entre eles  quando veem seus ex-alunos bem-sucedidos. “Eu fico feliz da vida quando encontro meus ex-alunos. O médico que cuidava do meu falecido marido foi meu aluno, vejo dentistas que foram meus alunos, um ex-aluno hoje é juiz, a gente se sente bem contente de ver essas pessoas”, conta Cecília.

Valorização

Hellen H. Bueno e Denilson João Alessi têm dois filhos, João Guilherme de 17 anos que está no 2º ano do ensino médio, e Luiz Henrique de sete anos e frequenta o 2º ano do ensino fundamental. O casal ressalta a importância de valorizar os professores e a escola, imprescindíveis para a formação dos cidadãos. “Sabemos da responsabilidade e compromisso ao socializar e democratizar o acesso ao conhecimento, de auxiliar os pais na construção da moral e da ética. Procuramos sempre falar a mesma língua que os professores, pois acreditamos, de maneira vivenciada, que a parceria família e escola é a receita para o bom aprendizado e para a construção de um cidadão crítico e resiliente”, disse Denilson.

Cecília do Amaral Ivatiuk compara a sua experiência docente com os relatos atuais a respeito da valorização dos professores. “Os alunos antigamente obedeciam mais os professores, os pais também tinham mais respeito, pelo que eu vejo falar, mudou muito o respeito com os professores. Vejo que alguns pais estão deixando a responsabilidade só para os professores, até para educar”, diz. Ela relata que em outros tempos, quando o professor chamava um pai na escola para contar que o filho não estava fazendo a tarefa ou não estava se comportando, a razão estava sempre com o professor. “Hoje muitos pais não têm mais autoridade com os filhos e acham que os professores além de ensinar devem educar”, frisa a professora aposentada.

Karen acrescenta que a valorização dos professores, além do respeito dos pais e dos alunos, também inclui investimentos públicos em materiais para as aulas, condições adequadas dos espaços nas escolas, recursos pedagógicos e tecnológicos, além de boa remuneração para os profissionais da educação.

Na escola em que ela trabalha a maioria dos alunos não têm acesso à internet e, durante a pandemia, o contato entre pais e professores aumentou. “Com a pandemia se tornou difícil por não terem acesso à internet no interior, optamos pelas atividades impressas. Alguns pais não conseguiam ajudar os filhos nas tarefas, mas obtive retorno de todos. Os pais sempre foram muito comprometidos e toda semana buscavam as atividades impressas. Acho que a valorização dos professores aumentou, as pessoas viram as dificuldades, o quanto é difícil garantir o aprendizado das crianças”, pontuou a Karen.

Mesmo em famílias com pais que atuam como professores, dificuldades foram enfrentadas durante a pandemia. “Como sou professora, vivenciei a dificuldade de elaborar aulas remotas, achava que não estava 100% entregue em nenhuma das minhas responsabilidades. Hoje, sou mais compreensiva em relação às atividades de casa, pois vi que não é fácil ensinar nosso próprio filho, pois ele me vê como mãe e não como professora. Na escola, tudo é voltado para aquele momento de aprendizado e em casa tem muitas distrações, o que torna o momento mais difícil”, explica Hellen. 

Denilson e Hellen contam que as maiores dificuldades no ensino remoto foram com o filho mais novo, Luiz Henrique, que não tinha paciência de assistir as aulas em frente ao computador, por isso necessitava de supervisão e orientação.

“O Luiz estava em fase de alfabetização, e não teve avanços significativos, só conseguiu ler após o retorno presencial para escola, pois sabemos que a interação social e a mediação do professor são muito importantes”, conta a mãe. 

A professora Karen destaca que é grande a preocupação com o nível de aprendizado dos alunos que, assim como Luiz Henrique, tiveram dificuldades no período em que ficaram longe das salas de aula. “Fizemos uma recapitulação dos conteúdos e buscamos trabalhar as principais dificuldades. Nessa volta, a preocupação é muito grande com o nível de aprendizagem”, relatou a professora.

Sala de aula

Para muitos alunos foi difícil ficar longe das salas de aula no período de pandemia. Para muitos professores, deixar a sala de aula para se aposentar também é uma decisão complicada. Este foi o caso de Cecília do Amaral Ivatiuk, que trabalhou como professora por 40 anos. 

“Em 2000 fiz uma cirurgia de câncer de mama, já estava aposentada pelo município, mas continuava dando aula pelo estado.  Outra professora ficou no meu lugar e quando eu fui ao colégio dizer que ia voltar, percebi ela ficou triste porque ela precisava trabalhar.  Aí pensei que se toda aposentada continuar trabalhando os outros não vão ter mais o que fazer e parei de dar aula”, conta.

No entanto, se afastar da escola não foi uma tarefa fácil para a professora que passou a fazer bolachas e pirogue com objetivo de ocupar o tempo.

Hoje, Cecília tem 88 anos e relembra o tempo em que se deslocava a pé de Gonçalves Júnior até o centro de Irati para receber o salário de professora e fazer compras.

“Vinha a pé, andava pela cidade inteira e voltava a pé, por anos foi assim porque não tinha outro jeito”, conta. Em sua juventude, ela relata que também se deslocava até a cidade para se divertir. “Vinha a pé dançar nos bailes, dançava a noite toda e voltava, a gente era feliz e não sabia”, finaliza.

Texto: Da Redação/Hoje Centro Sul

Fotos: Letícia Torres/Hoje Centro Sul e Arquivo Pessoal

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