facebook
05/10/2020

“Depressão é uma doença séria, tão séria que leva ao suicídio”

“Falar é a melhor solução” foi o tema da campanha deste ano do Centro de Valorização da Vida (CVV) para o Setembro Amarelo.

“Depressão é uma doença séria, tão séria que leva ao suicídio”

Um suicídio a cada 40 segundos ocorreu no ano de 2019, segundo a da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre as principais causas para o suicídio, estão doenças como a depressão, transtornos de ansiedade, esquizofrenia e distúrbios por uso de drogas lícitas e ilícitas.

“Depressão é uma doença séria, tão séria que leva ao suicídio, mas infelizmente quem nunca teve ou quem nunca estudou o assunto, às vezes não consegue entender”, alerta o médico psiquiatra Lucas Batistela. Ele orienta a buscar informações e conversar sobre o tema.  “Você que está depressivo procure conscientizar as pessoas próximas, mostrando profissionais de respeito e estudos sérios falando sobre o assunto, a ignorância de seus ententes queridos e até mesmo a sua, podem complicar muito o teu caso, que às vezes pode até ser simples de resolver”, diz.

Amigos e familiares podem oferecer apoio às pessoas com depressão, o que pode ser essencial ao tratamento de acordo com o médico psiquiatra.  “O apoio, com incentivo e sem julgamentos, faz toda a diferença na evolução do quadro. Você que conhece alguém com depressão, ajude-o a sair de casa, praticar alguma atividade física, se alimentar melhor e até mesmo uma boa conversa com focos em coisas positivas já faz toda a diferença. Essas coisas simples para alguém que esta em quadro depressivo podem ser muito difíceis mesmo. Alguém dando apoio pode ser o diferencial para a pessoa ‘sair da caverna’ ou não”.

Quando não é possível encontrar apoio entre familiares e amigos, há profissionais como psicólogos e psiquiatras que podem ser procurados, por exemplo,  na rede pública de saúde – os Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) têm psicólogos em suas equipes. Também é possível buscar a ajuda de voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atendem por telefone, através do 188, 24 horas por dia todos os dias. E qual o papel destes voluntários? Ouvir, sem fazer julgamentos.

Leandra Francischett é voluntária da CVV. Ela mora em Francisco Beltrão, é jornalista, e faz parte do grupo de 4.200 voluntários da entidade no país, que prestam apoio emocional e trabalham na prevenção do suicídio. “O CVV não dá conselhos, pois cabe à própria pessoa decidir sobre seus atos. Através da escuta amiga, esta pessoa vai percebendo qual o encaminhamento que deseja tomar”, explica Leandra.

Segundo ela, dar oportunidade para a pessoa falar abertamente sobre seus problemas, sobre seus pensamentos, é uma dos principais focos do trabalho da CVV.  “O mais gratificante é ouvir a pessoa dizer: ‘Muito obrigada!’, sem eu ter dito nenhuma palavra, apenas por escutá-la”, afirma. Inclusive a campanha do CVV  para o Setembro Amarelo (mês voltado à prevenção ao suicídio) neste ano foi “Falar é a melhor solução”. 

A entidade, que existe desde 1962, tem  120 postos de atendimento  no país, localizados em 23 estados e no Distrito Federal. “Em 2019, foram 3.160.000 atendimentos, sendo: 94% pelo telefone 188; 4,5% por e-mail; 1% pelo chat e 0,5% pessoalmente”, conta Leandra. Ela acrescenta que a entidade não tem fins lucrativos, nem vínculos religiosos ou partidários. E que o CVV também presta outros serviços como o Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio (Gass), palestras e o Cine Ser – que é a exibição de um filme seguida de uma roda de

conversa.

Altos índices de depressão e suicídio entre jovens

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS),  em 2019, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Como a questão é grave, pode ser trabalhada desde a infância. É possível identificar ainda em crianças indícios de depressão, de acordo com o médico psiquiatra Lucas Batistela. “Seguem basicamente os mesmos padrões dos adultos, mas as crianças apresentam uma tendência de fuga muito maior na comida, se fechando, irritabilidade e anti-sociabilidade principalmente com outras crianças”, explica.

Ele alerta as famílias a ficarem atentas aos possíveis comportamentos depressivos de crianças e adolescentes,  e a conversar de forma franca com eles, incentivando-os a expor seus sentimentos. “A informação hoje em dia está muito rápida e descontrolada na internet, então mesmo que você tente poupar os teus filhos desses assuntos, eles vão acabar descobrindo, muitas vezes de formas muito piores na web. Então tenha uma conversa franca, sem assusta-los, mas diga que essas coisas acontecem com quem fica guardando os sentimentos. Incentive-os a sempre estarem se expressando e tentando melhorar aquelas coisas que lhe fazem mal. É muito importante eles saberem que, se um dia estiverem fragilizados, vocês estarão ali para lhe dar apoio, lhe ajudar e não reprimir ou ridicularizar seus medos ou problemas”, finaliza Lucas.

 

Como identificar o comportamento suicida

O médico psiquiatra Lucas Batistela explica que são vários os tipos de comportamentos que podem ser adotados por quem pensa em suicídio. De modo geral, ele fala para que sejam observadas as mudanças muito bruscas nos comportamentos cotidianos. “Seja para tristeza profunda, a perda de vontade de fazer as coisas que gostava e até mesmo uma mudança repentina de humor para a felicidade (as vezes estão se sentindo ‘felizes’ pois seu plano suicida já esta organizado). Prestem atenção também se a pessoa costuma dizer frases como: ‘Minha morte seria melhor para todos’;  ‘Pelo menos vocês não teriam mais que me aguentar’; ‘Ninguém se importa mesmo’;  ‘Ninguém entende o que eu sinto’", comenta o médico psquiatra.

 

Solicite ajuda do CVV se precisar

Para obter ajuda em momentos difíceis, ligue para a CVV: 188. O número 188 é uma parceria da entidade com o Ministério da Saúde. A ligação é sigilosa e gratuita para todo o território nacional. “Quando a pessoa liga, não sabe quem será o voluntário que irá atendê-la, nem mesmo de que cidade está falando, por isso é normal encontrar voluntários com sotaques regionais, do Sul ao Norte do Brasil. Como a procura é grande, possivelmente será preciso aguardar alguns instantes na linha até ser atendido, por isso não desligue”, explica a voluntária Leandra Francischett.

O atendimento do CVV não substitui o acompanhamento profissional com psicólogos ou psiquiatras.

 

Como falar da maneira adequada sobre depressão e suicídio?

Para tratar sobre o tema foi criado um guia, utilizando como base expressões e comentários corriqueiros. Trata-se de um trabalho conjunto entre a Janssen (empresa farmacêutica da Johnson & Johnson), Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), Centro de Valorização da Vida (CVV), Departamento de Psiquiatria da Unifesp, Instituto Crônicos do Dia a Dia (CDD), Instituto Vita Alere, Vitalk e revista Veja Saúde.

 

Alguns exemplos que o guia traz

O que a pessoa escuta: "Nossa, que exagero. Você acha mesmo que precisa procurar um psiquiatra?"
Por que isso não ajuda: Em primeiro lugar, é importante refletir o seguinte: se a pessoa chegou a mencionar a hipótese de consultar um psiquiatra, significa que ela pensou muito sobre isso para reconhecer essa necessidade. A reação não é nada acolhedora porque pode dar a impressão de que o paciente é desajustado por procurar esse especialista.

Como seria melhor: "Você já achou o especialista? Precisa de ajuda para encontrar? Acho muito bacana sua iniciativa de procurar um psiquiatra."

O que a pessoa escuta: "Depressão? Isso é frescura. É desculpa de quem não quer fazer nada"
Por que isso não ajuda: É importante refletir que esse tipo de comentário perpetua o preconceito e passa a impressão de que a depressão é algo menor, sem importância. A depressão é uma doença invisível que impacta diretamente a vida das pessoas, e não uma escolha que elas fazem. Reações como essas, inclusive, afastam qualquer um que esteja enfrentando sofrimento emocional de uma conversa sobre o tema, o que pode ser a primeira barreira para a busca por ajuda. É preciso refletir sobre as frases automáticas que surgem quando se fala de depressão para conseguir transformar o julgamento em acolhimento.
Como seria melhor: "Nunca tive depressão e não imagino como isso deve ser difícil. A depressão é uma doença como qualquer outra, e falar sobre isso é um bom começo."

O que a pessoa escuta: "Você é um ingrato(a) ao falar de suicídio. Tem tanta gente com problemas mais graves que o seu."


Por que isso não ajuda: Nunca duvide de uma pessoa que diz que está pensando em se matar. É um mito a ideia de que "quem fala que vai se matar só quer chamar a atenção". Ela pode estar passando por dor e sofrimento profundos, que a fazem considerar o suicídio como uma forma de alívio, de fuga desses sentimentos. Encontrar alguém que possa ouvir e compreender esses pensamentos fortalece as intenções de viver.

Como seria melhor: É importante acolher, abrir espaço para o desabafo, conversar para entender o que está acontecendo e procurar ajuda: "Você está vivendo um momento muito difícil, né? Não consigo nem imaginar o que você está sentindo, mas estou aqui caso queira conversar". E também: "Pode parecer difícil de acreditar agora, mas existem outras maneiras de aliviar seu sofrimento. Com ajuda especializada é possível melhorar. Vamos procurar um médico?".

Alerta: Outro ponto importante: se a pessoa parecer estar em perigo imediato, não a deixe sozinha. Procure ajuda de serviços de emergência um profissional de saúde, ou consulte algum familiar dessa pessoa.

O material completo pode ser acessado em www.falarinspiravida.com.br.

 

Texto: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

COMENTÁRIOS