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07/08/2020

Sem internet, famílias da área rural têm o direito à educação prejudicado

Sem internet, famílias da área rural têm o direito à educação prejudicado

Marcelo Augusto Alves da Silva, 16 anos, e André Victor Nebesniak, 15 anos, são moradores da área rural de Irati e estão matriculados no 1º ano do ensino médio. Ambos não têm internet em casa e nos locais onde moram, Cerro da Ponte Alta e Cachoeira do Cadeadinho, também quase não chega o sinal de telefonia celular para que eles possam acessar o aplicativo Aula Panará. 

“É difícil porque aqui em casa pega mal o sinal e para fazer as atividades tem que subir lá na serra”, conta Marcelo, apontando para um morro distante de sua residência. “Os vídeos eu não estou conseguindo assistir porque a internet é ruim e lá em cima também não fica muito boa, dá só para enviar as atividades escritas”, diz.

André tem conseguido assistir as aulas, mas com maior esforço, como relata a mãe do adolescente, Eliane Nebesniak.  “A gente não tem internet em casa. Daí é bem difícil, ele vai um quilômetro na casa do meu irmão”, conta.

Assim como Marcelo e André, muitos outros alunos de escolas da área rural dos municípios da região Centro Sul também estão com dificuldades para acompanhar as aulas online.

A diretora do Colégio Estadual do Campo do Rio do Couro, Sônia Cristina de Mello Maneira, explica que desde o início das aulas online diversos pais de alunos compraram celulares para os filhos. Algumas famílias utilizaram para o auxílio emergencial de R$ 600 para isso. Entretanto, além do investimento em um smartphone, também é preciso internet de qualidade e em muitos locais nem o sinal 3G chega.

Maristela Andrade Nunes, 13 anos, aluna do 9º ano é exemplo desta situação. A família da menina comprou um smartphone para ela, mas Maristela ainda não pode ver as aulas. “Não adiantou por causa da internet. Daí eu ia até a casa de uma amiga, só que por causa desta pandemia não tem como ficar indo na casa dos outros”, conta.

A alternativa dela é buscar as atividades impressas na escola a cada quinze dias. “É um maço de folhas que vem. É muito trabalhoso, porque tem que copiar no caderno também, bastante complicado”, afirma.

Cesar Hul, diretor do Colégio Estadual do Campo Padre Pedro Baltzar, que possui 96 alunos e está localizado na comunidade do Itapará, também no interior de Irati, destaca que a situação de Maristela não é um caso isolado. “O 3G é muito fraco, qualquer baixada já não pega”, relata.

 O problema sensibilizou a equipe do colégio.  “Identificamos que em torno de 20% que iria conseguir ter acesso à internet, acesso ao aplicativo, fazer leitura, também vídeos e assim por diante. Então, em reunião com os professores, com a equipe escolar, a gente decidiu entregar material impresso para todos os alunos”, conta Cesar.  

Segundo ele, há algumas famílias que têm internet via rádio, o que possibilita aos estudantes o acesso aos vídeos das aulas, pelo aplicativo ou youtube. Mas o custo da instalação e a mensalidade deste tipo de serviço são inacessíveis para muitos.  “Por exemplo, no Itapará tem uma [internet] via rádio, tem uma perto da Água Mineral, mas são poucos os que têm condições financeiras de para pagar R$ 100,00, R$ 115,00 por mês”, relata.

O professor Hélio de Mello, do Colégio Estadual do Campo do Rio do Couro – que possui 165 estudantes matriculados –, fala que um dos pais de aluno da escola chegou a investir cerca de R$ 3 mil para fazer com que a internet chegasse à sua casa e garantir o acesso do filho às aulas online.  “No começo nós tínhamos quase 90 alunos vindo buscar [o material] impresso, hoje nós temos 35. Esse número diminuiu porque muitos pais tiveram que sair atrás de internet, comprar telefone para os filhos. Houve gastos grandes, tem pai em situação humilde que chegou gastar R$ 3 mil reais para instalar uma internet”, afirma.

Na região onde residem os quase 300 alunos das duas escolas, o canal de TV onde as aulas são exibidas também não chega.

Internet só para mensagens

Quem não pode gastar este montante fica a mercê da disponibilidade de dados móveis das operadoras de telefonia celular, do 3G – que é a tecnologia oferecida nesses locais. Na maior parte da área rural de Irati e região é comum que este tipo de acesso à internet funcione apenas para envio de mensagens de texto ou áudio e somente em determinados horários.

 “Só pega de noite, só para enviar mensagem”, afirma o estudante Marcelo, comentando sobre o sinal de telefonia móvel em sua casa, em Cerro da Ponte Alta.

Na localidade Cachoeira do Cadeadinho, onde reside o aluno André, é quase a mesma coisa, de acordo com a mãe do estudante, Eliane Nebesniak. “É só para WhatsApp, você manda uma mensagem e a hora que consegue vai”, diz.

A diretora do Colégio do Rio do Couro, Sônia  Maneira, confirma que esta é uma realidade bem comum às famílias da área rural. É através de mensagens que alunos e professores se comunicam para que dúvidas sobre os conteúdos sejam esclarecidas. E este  é também o meio de contato entre a escola e os pais.

Eliane afirma que devido à internet precária, recorre às mensagens à diretora para acompanhar o rendimento escolar do filho. “Quantas vezes eu dizia: ‘ Sonia, veja lá para mim como estão as notas do André, porque eu não sei´”. 

Troca das aulas pelos slides

Mesmo entre os alunos que conseguem ter acesso aos vídeos das aulas, as condições ruins do acesso à internet fazem com que, em vários dias, não seja possível assistir. “Os que tão fazendo [as atividades] no aplicativo, eles precisam assistir aulas. Nem sempre eles conseguem assistir aula, aí eles olham os slides que têm, para poderem fazer as atividades”, relata a diretora Sonia.

E o professor Hélio de Mello complementa. “Tem aluno que a gente percebe que está com todas as questões erradas. Porque eles vão direto à questão, sem ver o que era o conteúdo,  e acredito que até pela dificuldade de fazer a aula rodar, fazer o vídeo rodar para ele poder assistir”.

Pacote de dados

Os horários diferentes das aulas gravadas em relação às aulas presenciais normais faz com que a opção de assistir os vídeos através do Youtube, de modo geral, seja a que mais se adapta ao cotidiano dos alunos. Entretanto, o pacote de dados pós-pago contratado junto à operadora de telefonia ou os créditos do pacote pré-pago são insuficientes para assistir as aulas.

“Tem alguns alunos que vão pelos dados móveis, daí acabam. ‘Professor acabaram meus créditos, daí não pude terminar minhas atividades’, tem aluno que relatou”,  comenta a diretora Sonia.

Novas torres de telefonia são o sonho da comunidade

“Faz muita falta uma torre para a gente”, afirma Florinda Machado da Silva, avó do estudante Marcelo, referindo-se a uma torre de telefonia móvel. Com a torre, o sinal de internet chegaria em sua casa, em Cerro da Ponte, e o neto teria tranquilidade para estudar.

“Ele está sofrendo bastante com estas tarefas dele”, relata Florinda.

O diretor do Colégio Estadual do Campo Padre Pedro Baltzar, Cesar Hul, é morador da localidade Cachoeira do Cadeadinho e também cita a necessidade de novas torres de telefonia móvel. “Tinha que ter mais torres”, defende.

Eliane Nebesniak é outra moradora que sonha com a melhoria na comunicação na localidade. “Se tivesse uma torre de celular ia ser bom, que daí pegava”, diz.

Helio de Mello, que além de professor também é vereador, pediu, durante a sessão da Câmara Municipal de Irati, no dia 1º de julho, o encaminhamento de ofícios reivindicando melhorias no acesso a internet para a área rural. “Sugiro que além de ofício à Tim, encaminhemos ofício também aos deputados, solicitando estudos para ampliação do sistema com mais torres, acredito que uma no Cerro da Ponte Alta e outra na Barra do Gavião melhoraria muito o atendimento”, disse durante a sessão.

Ele também contou com o apoio do vereador Nivaldo Bartoski, morador do Itapará,  que pediu o envio da reivindicação também ao secretário de Estado de Infraestrutura e Logística, deputado Sandro Alex.

Problema regional

Além do Colégio Estadual do Campo Padre Pedro Baltzar, em Irati, que tem enviado material impresso a todos os 96 alunos devido à precariedade da internet, outras escolas da região também tiveram que adotar o mesmo sistema.

O diretor Cesar Hul relata que nas reuniões das quais participou observou que “tem mais escolas que estão fazendo assim”. Segundo ele, escolas localizadas em Rio Azul e Prudentopólis.

O chefe do Núcleo Regional de Educação de Irati foi procurado para comentar o quanto o problema da dificuldade de acesso à internet afeta as escolas da região, mas  não retornou até o fechamento desta edição.

Texto: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Fotos: Ciro Ivatiuk/Hoje Centro Sul

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