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Reciclagem: Compromisso ambiental e fonte de sustento para muitas famílias de Irati

04/06/2024

Reciclagem: Compromisso ambiental e fonte de sustento para muitas famílias de Irati

 Na Cooperativa de Catadores de Material Reciclável de Irati (Cocaair) e na Associação Malinoski, situadas no Complexo GARI, em Irati, o trabalho árduo dos cooperados não apenas contribui para a preservação ambiental, mas também sustenta muitas famílias. Conheça um pouco mais sobre o dia a dia dos recicladores e as dificuldades que eles enfrentam ao se depararem com materiais contaminados por resíduos orgânicos e descartes incorretos

Mais do que cuidar do meio ambiente, o trabalho de reciclagem é essencial para o sustento de muitas famílias e representa uma fonte crucial de renda para diversas pessoas. Em Irati, a Cooperativa de Catadores de Material Reciclável de Irati (Cocaair) e a Associação Malinoski, localizadas no complexo Gestão Ambiental de Resíduos de Irati  (GARI),  recém inaugurado pela Prefeitura no Condomínio Industrial da Vila São João, são exemplos claros dessa dualidade.

Na Cooperativa Cocaair, os recicladores se unem para garantir que o trabalho e os lucros sejam compartilhados de maneira justa entre todos. “A gente trabalha aqui em cooperativa, somos 16 pessoas e o lucro que dá, dividimos em partes iguais. Os rapazes fazem os fardos na prensa, pesam, deixam armazenados os materiais separados e quando atinge 90, 100 fardos, o caminhão vem buscar e vai para Ponta Grossa. A gente também vende os vidros de conserva, garrafas, latinha de alumínio, ferro, então tudo é dividido”, explica Lucia Gemieski.

Ela conta que encontrou na reciclagem uma oportunidade de mudança de vida quando veio morar em Irati e estava sem emprego. “Eu comecei nessa área porque estava desempregada e logo que vim morar para cá, em 2006, começou uma associação, eu entrei para ver se pegava o jeito de trabalhar com isso, e estou até hoje e eu gosto bastante”, relata com orgulho.

Ela atua na separação de materiais na Cocaair. Sua experiência evidencia tanto os desafios quanto as recompensas do trabalho. “Eu trabalho nessa área faz 18 anos. Tem dias que vem bastante material bom, mas tem vezes vem material contaminado, fralda, papel higiênico, roupa e calçados velhos, coisas que não poderiam vir para cá, mas acaba vindo, por exemplo, vidro quebrado. Esse material vai para uma caçamba, que a gente chama de rejeito, e daí vai para o orgânico”, explica.

Outro desafio é que atualmente o preço pago pelos materiais diminuiu bastante, o que compromete os lucros dos cooperados, mas, segundo ela, ainda assim é possível viver com tranquilidade com a renda obtida. Lucia exemplifica com o preço do papelão que, de acordo com ela, já valeu um real o quilo e hoje chega a apenas sessenta centavos.

É preciso reciclar mais

No dia 5 de junho é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente e o Dia Nacional da Reciclagem. No Brasil, apenas 4% dos resíduos sólidos que poderiam ser reciclados passam por esse processo, índice muito abaixo de países de mesma faixa de renda e grau de desenvolvimento econômico, como Chile, Argentina, África do Sul e Turquia, que apresentam média de 16% de reciclagem, segundo dados da International Solid Waste Association (ISWA).

Embora o Brasil tenha grande potencial para aumentar a reciclagem, diversos fatores mantêm esses índices estagnados, a começar pela falta de conscientização e de engajamento do consumidor na separação e descarte seletivo de resíduos, observa Lucia Gemieski. “Eu acho que o povo deveria se conscientizar, não colocar papel higiênico, fraldas, resto de comida, embalagens de carne que não são lavadas, porque no verão chega até causar muito mal cheiro e não é fácil de trabalhar com isso. E se contaminar o material, temos que jogar tudo para o rejeito”, relata.

Impacto na economia

A falta de reciclagem adequada dos resíduos gera uma perda econômica significativa para o país. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostrou que somente os recicláveis que vão para lixões levam a uma perda de R$ 14 bilhões anualmente, que poderiam gerar renda para a população que trabalha neste setor.

Luis Ângelo Ferraz é operador de prensa na Cooperativa Cocaair e tira seu sustento exclusivamente com a renda obtida nesta atividade. “Eu trabalho com a reciclagem aqui faz sete meses na cooperativa, mas na profissão, faz 14 anos. Durante uns 8, 9 anos eu trabalhava como coletor e agora passei a operar a prensa, ajudo como operador de prensa”, conta Luis, que aprendeu a profissão na prática com seus colegas.

Ele destaca que nem sempre o material recebido é seguro e muitas vezes acaba expondo os trabalhadores a potenciais perigos. “Na parte da classificação dos resíduos, era para ser somente o material reciclável mesmo, mas aparece coisas que podem estar contaminadas e quando vem para a prensa a gente nem mexe porque é perigoso, por exemplo algo tóxico, agulhas e esse tipo de coisa, e isso pode prejudicar tanto o pessoal que classifica, como a gente aqui. Foram feitas campanhas para evitar isso, geralmente não tem aparecido tanto, mas de vez em quando a gente acha”, descreve.

Pai de duas meninas, o profissional que mora no bairro Vila Nova, em Irati, enfatiza a importância da reciclagem não somente para o meio ambiente, mas também para garantir o sustento de famílias como a dele. “ Eu consigo viver bem deste trabalho, só tem que saber controlar os gastos para não se apertar, porque o lucro vem a cada 15 ou 20 dias, então sempre tem que ter um dinheiro de reserva”, conta.

Casos inusitados

Apesar de muitas vezes os recicladores estarem com o dinheiro do mês contado, Luis relembra com orgulho um momento em que integrante da cooperativa encontrou uma boa quantia em dinheiro em meio ao material reciclável, que foi devolvida ao legítimo dono. “Eu lembro que uma vez um rapaz achou dinheiro e foi devolvido para o pessoal que era dono, e isso me marcou, porque é importante, não era nosso e foi devolvido”. Além disso, ele conta que é comum encontrarem objetos que podem ser reutilizados pelos próprios trabalhadores. “Roupa e calçado, geralmente quando aparece e se servir para gente, se der para usar, a gente aproveita, se não servir, a gente vê com algum colega que esteja precisando”, conta.

Lucia Gemieski também conta que já encontrou objetos de valor que pôde reutilizar. "Eu já encontrei um celular que foi jogado fora e eu fiquei usando por mais de 3 anos. O pessoal acha bastante coisa, inclusive até mesmo um pouquinho de dinheiro de vez em quando", diz.

Complexo GARI

Em Irati, a coleta de materiais recicláveis é feita no município por uma empresa terceirizada. O material é encaminhado para o Complexo GARI, onde é dividido entre a Cooperativa de Catadores de Material Reciclável de Irati (Cocaair) e a Associação Malinoski, que separam e vendem os materiais.

Inaugurado no ano passado, o Complexo GARI é uma estrutura que visa atender toda a demanda que o município tem em relação ao lixo. O espaço é formado por barracões adequados para o recebimento e separação de resíduos.

A secretária municipal de Meio Ambiente de Irati, Magda Adriana Lozinski, explica que não é possível saber quanto material é coletado no município mensalmente, pois esses números não são divulgados pela cooperativa e nem pela associação que atuam na separação.

Ela comenta como funciona o complexo e quais atividades são realizadas no local. “O complexo GARI foi criado para servir de local que comtemple estruturas para destinar todo tipo de resíduo produzido pela população. Hoje já está em funcionamento a unidade de transbordo, a de ⁠reciclagem e o ⁠almoxarifado da secretaria de Meio Ambiente”, descreve.

De acordo com Magda, existe o apoio da Prefeitura Municipal para a realização dos trabalhos de seleção de materiais no complexo. “Atualmente a prefeitura auxilia a Associação e a Cooperativa de reciclagem com o local, barracões, despesas de luz e água e a coleta dos materiais através de empresa terceirizada licitada”, afirma a secretária.

Ao mencionar sobre a logística da coleta de materiais recicláveis em Irati, Magda defende que a frequência semanal da passagem do caminhão nos bairros é adequada para atender às necessidades da cidade neste momento.  “A coleta de lixo reciclável é realizada uma vez por semana na área urbana. Atualmente não há precisão de aumento de dias de coleta, pois ocorre a necessidade de aumentar a equipe e frota e isso demanda estudo financeiro de custo”, explica a secretária de Meio Ambiente.

Educação Ambiental

Magda afirma que na rede municipal de ensino o tema reciclagem é abordado continuamente  ao longo do ano letivo. “A Educação Ambiental é permanente na rede de ensino, onde as crianças de rede municipal ao longo do ano letivo trabalham com o tema, favorecendo e intensificando a conscientização bem como a responsabilidade de cada um em relação ao lixo reciclável. Também temos o programa Eco Troca que ocorre em alguns bairros, onde o morador leva o resíduo reciclável e troca por alimento”, finaliza.

 

Texto e fotos: Lenon Diego Gauron

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