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Rádio: Uma voz atemporal que une gerações e transforma vidas

20/02/2024

Rádio: Uma voz atemporal que une gerações e transforma vidas

Em fevereiro é comemorado o Dia Mundial do Rádio, um dos principais veículos de comunicação de todos os tempos, que se reinventa a cada dia para levar informação e entretenimento há mais de cem anos no Brasil. A primeira transmissão foi no dia 7 de setembro de 1922, durante a comemoração do centenário da Independência, quando foi transmitido o discurso do então presidente da República, Epitácio Pessoa.

Desta época até agora, aconteceram significativas transformações. Uma profissional que acompanhou de maneira íntima parte desta evolução e contribuiu para a trajetória do rádio é Rose Harmuch. Com seis décadas dedicadas a esse meio de comunicação, a radialista tem muito a contar. “Eu comecei com nove anos. Eu fui aprender a fazer técnica com o meu pai, eu tinha vontade de trabalhar, queria ver como é que era, como é que funcionava. Naquela época podia trabalhar e era tudo com o disco de vinil”, relata.

Rose enfatiza que quando conheceu o rádio, na cidade de Arapongas, o local assemelhava-se a um ambiente teatral, com plateia, performances musicais e a presença marcante das radionovelas. “Tinham programas de auditório e eram cobrados ingressos para entrar no programa. Tinha artista famoso que ia lá e lotava, era bem legal. E antigamente tinha o palco, onde havia apresentação de cantor, o rádio teatro, era feito assim. Meu pai escrevia peças de teatro e eles gravavam”, descreve.

Em Irati, Rose deu início à sua trajetória em 1978, no programa "Meio e Dia em Notícias, da  Rádio Najuá, um noticiário que permanece no ar até os dias de hoje. Ela lembra que, na época, sonhava em ser psicóloga, porém, sua paixão por programas jornalísticos transformou-se em sua profissão e carreira.

Com uma trajetória mais recente, o radialista Paulo Henrique Sava deu início à sua carreira em 2001. “Eu sempre quis trabalhar em rádio, eu cheguei a fazer um teste na Vale do Mel e acabei não passando na época. Em 2001 acabei entrando no rádio através do Renato Marochi, eu fazia escola de Teologia com ele e ele tinha um programa na antiga rádio Difusora. Eu falei que eu poderia ajudar no programa, porque eu tinha interesse. No outro dia ele falou para eu fazer o programa sozinho. Eu preparei tudo, mas só esqueci de levar o roteiro das músicas para o operador”, relembra Paulo, com humor. Ele complementa que depois desse dia passou a acompanhar de perto como os programas eram feitos para aprender melhor a profissão.

Arnoldo Krubniki Júnior trabalha há nove anos na Rádio T de Irati. Ele recorda como iniciou e como foi a evolução do meio que ele já conhece há muito tempo. “Eu era empresário, mas rádio sempre foi uma paixão minha. Meu pai teve rádio no passado e quando eu tinha meus 17, 18 anos, era já era apaixonado. Eu conheço rádio desde os tempos dos LPs, dos cartuchos e das edições dos comerciais em fitas – que tinham que cortar e serem coladas com durex. Hoje a evolução do rádio é muito grande, é tudo digital. Desde o procurar de uma música, uma vinheta, até a transmissão que a gente faz hoje, a gente utiliza a fibra ótica”, descreve. Ele relata também que foi nos torneios de futebol organizados junto ao seu pai no interior de São Paulo que provavelmente começou a desenvolver o estilo único que ainda carrega hoje.

O papel social do rádio

Além de entreter, o rádio também exerce diversas funções sociais. Maria Edenise Nebesniak, criada pelo pai afetivo, sempre teve consciência da existência de seu pai biológico, mesmo sem tê-lo conhecido. Em 2014 ela decidiu buscar seu pai biológico com a ajuda da Rádio Najuá. “Eu procurei a rádio, contei a história para eles, que prontamente disseram que iriam me ajudar. Na época eu morava em Água Clara, interior de Irati. Pela manhã estive na rádio, meio-dia já saiu a reportagem e foi tudo muito rápido, em questão de horas eu já sabia aonde meu pai estava”, relata. Agentes da Polícia Federal entraram em contato com ela e a repassaram  um número de telefone de uma empresa que estava vinculada aos dados do pai biológico dela.

Maria relata que compartilhou os dados com o jornalista Rodrigo Zub, que, ao contatar a empresa no estado do Mato Grosso, descobriu que o homem já não estava mais empregado lá. Contudo, Zub obteve o número de telefone de Gilberto, pai de Maria, que ficou ciente da história e, no mesmo dia, teve uma conversa telefônica com sua filha. “Lembro até hoje a emoção que eu senti de saber que ele me acolheu, pois meu maior medo era a rejeição. Ele falou que iria marcar uma data para vir para Irati e viajou mais de 2.000 km para me conhecer. O reencontro aconteceu na rádio, a emoção tomou conta de todos que estavam presentes. Eu não tinha registro de pai na certidão de nascimento, então ele fez questão de registrar. No dia do encontro conheci meu irmão mais velho que veio junto”, descreve Maria.

A família continua mantendo contato constante.

É preciso dar a notícia, seja ela qual for

Há pouco mais de um ano, um ônibus da Viação Catarinense com 54 passageiros tombou na BR-277 em Fernandes Pinheiro deixando 7 pessoas mortas e diversos feridos. Paulo Sava acompanhou de perto a tragédia e relata que foi uma das coberturas que mais marcaram a sua carreira. “Eu pude ver a movimentação, a retirada dos corpos, foi uma cobertura difícil de fazer. Foi muito difícil também ver a reação dos familiares”, conta.

Outro acontecimento que marcou sua carreira foi dar a notícia da morte de um colega de trabalho. “Outra situação bem difícil foi quando faleceu nosso querido amigo e colega João Maria Rodrigues. Coube a mim apresentar essa notícia na Voz do Povão e eu pude fazer uma homenagem – assim como ele fazia para os amigos –, chegou minha vez de fazer para ele, que foi meu professor no rádio também, uma pessoa que sou muito grato, que tinha um coração muito grande”, relata.

O radialista Arnoldo Krubniki Júnior também lembra com carinho do colega de profissão que inspirou diversos outros profissionais no estado. “Eu nunca vou esquecer do ícone do nosso rádio paranaense que foi o seu João Maria Rodrigues, o nosso eterno 'garotinho'. Com toda a sua irreverência e a forma de ele ser, ele com certeza é um dos maiores nomes do rádio paranaense”, cita.

Mudanças

Por outro lado, com as transformações tecnológicas, o meio radiofônico se viu desafiado a ajustar suas práticas para continuar desempenhando um papel relevante na sociedade. E isso mudou também a forma como as notícias são produzidas, como destaca Paulo Sava. “Antes a gente atendia o ouvinte através do telefone e carta. Depois começou o SMS e o pessoal começou a participar dessa forma. Mas o que eu mais senti de mudança foi recentemente, com a convergência do rádio e a internet. Agora a gente produz material que vai para a rádio e também internet, já tem que ir pensando o que tem que fazer, como vídeos e fotos. Essa convergência faz com que o rádio se reinvente, assim como foi no passado com a chegada da televisão”, diz o radialista.

No passado, o processo de produção de notícias também demandava uma abordagem mais direta e ativa, o que muitas vezes é simplificado com aplicativos de mensagens atualmente. “Antigamente, a gente tinha que correr com a notícia, acontecia alguma coisa, a gente ligava para a Polícia Militar e Polícia Civil, para ter a informação. Tinha que ir lá, estar no local do acontecimento. A polícia muitas vezes ligava às três horas da manhã informando de uma ocorrência, a gente ia tirar foto, entrevistar, ver o que aconteceu, pegar os dados. Não tinha o WhatsApp, você tinha que anotar tudo aí montar a matéria”, relembra Rose Harmuch.

Apesar das mudanças na forma de produção, o gosto popular por este meio de comunicação continua. De acordo com a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel), uma pesquisa da Kantar IBOPE revelou que 80% dos brasileiros ouvem rádio diariamente. A pesquisa revela também que 76% dos ouvintes reconhecem a modernização do rádio em seus conteúdos e formatos, e 38% afirmam que a opção de ouvir online enriqueceu sua experiência, um aumento em relação aos 30% em 2022, o que mostra a força que o meio possui.

“Eu acho muito interessante o rádio pelo alcance na população. Está presente nas residências, nos veículos, no trabalho, nos smartphones e também nos momentos de lazer da vida dos brasileiros. Não tem como fugir do rádio, o seu companheiro é sempre o rádio, pois você pode estar fazendo outras coisas e o rádio tá ligado”, descreve Arnoldo Krubniki Júnior.

Paulo Sava acrescenta a relavância do rádio para os moradores do interior. “Nas comunidades do interior, na maioria delas, a notícia local vai chegar lá através do rádio, é onde o pessoal fica sabendo tudo que está acontecendo. O pessoal do interior ouve bastante as missas também e o entretenimento”, comenta.

Audiência

Segundo uma pesquisa do Kantar IBOPE, a música segue como principal conteúdo procurado pelos ouvintes, com 94% da preferência da audiência, seguida por 32% para notícias locais, 26% para noticiários nacionais, 25% para notícias de trânsito e 24% para futebol (notícias e comentários).

A credibilidade do rádio é também inquestionável: 83% dos ouvintes reconhecem que o veículo apresenta notícias com agilidade e 64% confiam nas notícias que ouvem.

A magia do rádio

Muitas vezes os ouvintes sentem-se amigos dos locutores e imaginam como esses profissionais são fisicamente. “A essência do rádio é você saber que você está falando com alguém que está lá num cantinho. Às vezes a pessoa está doente ou está com algum problema, e você chega e começa a brincar, conversar, ela te responde do outro lado. Tem muita gente que vem contar para nós ‘Nossa, eu brinco com vocês, eu discuto com vocês’. É legal isso, porque traz alegria para as pessoas. A maioria não está te vendo, mas ela imagina você e muitas vezes chega aqui e diz assim: ‘Nossa, como é diferente você falando e você presencialmente”, conta Rose Harmuch.

Texto/Fotos: Lenon Diego Gauron

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