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26/10/2021

Por que o custo de vida continua subindo tanto?

A inflação para este ano, que era estimada em 5,8% foi revisada pelo Banco Central no final de setembro para 8,5%, que os consumidores percebem no dia a dia pelas constantes altas nos preços dos alimentos, dos combustíveis, da energia elétrica.

Por que o custo de vida continua subindo tanto?

Nos últimos tempos, praticamente todas as pessoas que vão ao supermercado já se assustaram com o valor a ser pago. Ao comprar gás de cozinha, a situação se repete, e nos postos de combustíveis também. Mas, por que o custo de vida tem subido tanto? A explicação, de acordo com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), precisa considerar vários fatores que colaboram para a aceleração da taxa de inflação no país.

No mês de setembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), apontou que a inflação foi de 1,20%, a maior para o mês de setembro desde 1994. Também em setembro, o Banco Central admitiu oficialmente que a inflação do ano de 2021 ficará acima da meta e elevou a estimativa que era de no máximo 5,8% para 8,5%.

“O que a gente tem visto é que embora a inflação esteja refletindo uma alta generalizada de crises na economia brasileira, de fato ela está sendo mais forte em alguns segmentos. E temos em primeiro o dos alimentos”, afirma a economista Maria Andréia Parente Lameiras, que é pesquisadora do IPEA. No último mês, a elevação de preços no setor de alimentos foi puxada especialmente pelo aumento das frutas (5,4%), das aves e ovos (4,0%) e dos leites e derivados (1,6%). A carne bovina já estava mais cara anteriormente, o que levou muitas famílias a substituírem-na por outras proteínas mais baratas, como aves e ovos, aumentando a demanda de consumo desses produtos e seus preços também.

 A pesquisadora do IPEA lembra que esta alta de preços nos alimentos não é recente, vem, especificamente, deste o ano passado, com a pandemia e a desvalorização cambial do real frente ao dólar. Além destes fatores, o problema climático foi outro aspecto que afetou a produção de alimentos no país – diretamente no campo e também devido ao aumento do preço da energia elétrica, que impactou no preço da produção.

“Tem um aumento muito forte da energia elétrica por conta do problema climático, não choveu e foi preciso usar as termoelétricas, então primeiro foi feito o uso das bandeiras tarifárias. Depois, ainda assim isso não era suficiente e houve reajuste da bandeira tarifária vermelha nível 2, que já era maior. Ainda assim não foi suficiente e o governo teve que criar uma bandeira adicional, que é de escassez hídrica e isso majorou ainda mais as contas de energia elétrica,”, relata Maria Andréia.

Simultaneamente, ao longo do ano, o preço dos combustíveis também manteve rotina de alta, influenciada pelo mercado internacional e pelo câmbio.  A Petrobras reajusta os preços de acordo com a variação do câmbio e seguindo a cotação internacional do preço do barril do petróleo, porque os combustíveis derivados de petróleo são commodities e têm seus preços atrelados aos mercados internacionais, cujas cotações variam diariamente.

De janeiro a setembro deste ano, os preços de revenda registraram aumentos de 28% no diesel, 32% na gasolina e 27% no gás de cozinha (GLP), segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

“Ano passado a pandemia fez com que o mercado do petróleo ficasse muito menos volátil, porque as pessoas foram para dentro de casa e aí a produção de petróleo estava mais do que dando conta, porque não tinha muita demanda naquele momento. Quando chega 2021, que a economia mundial começa crescer, as pessoas, os países começam a demandar mais petróleo e esse preço aumenta”, explica a economista e pesquisadora do IPEA, Maria Andréia.

Além disso, ela frisa a questão cambial, pois a valorização do dólar e desvalorização do real também ajudou os combustíveis a se tornarem mais caros no Brasil.

Impacto na economia

Com os combustíveis mais caros e com a energia elétrica mais cara, toda a economia do país é afetada, pois são itens imprescindíveis à produção e a logística, de modo geral.

“Quando a gente fala de inflação de combustível, de inflação de energia elétrica, não é só o combustível da bomba que você está comprando que está mais caro, mas tudo aquilo que  trafega via frete está sendo impactado. Então todos os produtos que são transportados por via terrestre acabam também aumentando de preço.  Quando a gente fala de aumento de energia elétrica não estamos falando só daquela conta que mais cara no final do mês, falamos que os custos para produzir qualquer produto estão maiores, porque as fábricas precisam da energia.  Os preços dos serviços estão mais caros, porque as pessoas precisam de energia elétrica para tocar os seus serviços.  Então, o aumento de preços que, embora apareça diretamente num item,  acaba disseminando para outros preços na economia”, destaca Maria Andréia.

Inflação afeta mais as famílias mais pobres

De acordo com estudos do IPEA, a inflação é mais acentuada para as famílias de renda muito baixa. Os dados acumulados nos últimos 12 meses (setembro de 2020 a setembro de 2021) revelam que, embora a pressão inflacionária tenha acelerado para todas as faixas de renda, a inflação acumulada nas famílias de renda mais baixa (11%) é 2,1 pontos percentuais maior que a registrada na classe de renda mais alta (8,9%).

“A inflação dos mais pobres é maior porque o peso das coisas que estão subindo é maior no orçamento dessas famílias. E essas famílias acabam sendo penalizadas também porque já têm um orçamento que é muito restrito, então elas não têm como acomodar esses aumentos de preços. Ao contrário das famílias mais ricas, se o alimento sobe muito, se a energia sobe muito, elas têm a opção de, de repente sair menos para comer fora de casa, ou abrir mão de alguma pequena viagem, de algum gasto supérfluo, e elas conseguem manter o seu padrão de vida. Para uma família mais pobre isso não tem, não tem de onde tirar, essa família já não tem supérfluo”, explica pesquisadora do IPEA.

Para as famílias de renda muito baixa, os dados dos últimos 12 meses revelam que, além dos aumentos nos preços dos alimentos no domicílio – como carnes (24,9%), aves e ovos (26,3%) e leite e derivados (9,0%) –, os reajustes de 28,8% da energia e de 34,7% do botijão de gás de cozinha explicam grande parte da alta inflacionária no período.

Já para as famílias com maiores rendimentos, a inflação acumulada nestes meses é impactada, sobretudo, pelas variações de 42,0% dos combustíveis, de 56,8% das passagens aéreas, de 14,1% dos transportes por aplicativo e de 11,5% dos aparelhos eletroeletrônicos.

 

Altas dos combustíveis e do gás de cozinha trazem dificuldades para empresas

Texto: Cibele Bilovus/Hoje Centro Sul

Equacionar os custos para manter o empreendimento funcionando e gerando empregos é o desafio de todo empresário, seja no comércio, na indústria ou na prestação de serviços.

Em todos os segmentos, o aumento dos preços dos combustíveis e do gás de cozinha impacta negativamente, entretanto, em determinados setores, afeta mais do que em outros.

A equipe do jornal conversou com alguns empresários dos segmentos de alimentação e transportes, que contaram como o aumento de preços atingiu seus negócios  e o que mudou em suas rotinas de trabalho:

 

“Aumentou consideravelmente o custo do nosso produto e pela atual situação não conseguimos repassar esta alta para nossos clientes. Acabamos intensificando o uso dos fogões industriais à lenha e fazendo um novo planejamento dos horários de circulação de veículos – otimizando em uma corrida várias funções a serem realizadas. Mas, mesmo com todas as medidas adotadas, ainda não estamos conseguindo absorver essa alta, o que tem diminuído muito a margem de lucro em nosso produto”, relata Walter Henrique Gaedicke, 34 anos, administrador e proprietário da WA Esteak House.

 

“O impacto é geral e influencia diretamente na alta dos outros produtos que usamos, tanto em casa como em nosso empreendimento. Nossa margem de lucro cai drasticamente, o que nos obriga a aumentar o valor do produto, ocasionando na diminuição dos pedidos. O consumidor compra menos e isso acaba sendo ruim para todo o comércio local”, avalia Mozart Martins Silva, 35 anos, chefe de cozinha e proprietário do Loko D Baum Pizza Cone.

 

 “O aumento do diesel hoje ficou muito complicado. Há alguns anos tinha um aumento bem distante um do outro, então nós, transportadores de cargas, tínhamos uma chance de nos programarmos com as despesas, até mesmo prestações de caminhão e compra de pneus.  Hoje a situação mudou, o impacto é muito grande, pois vem aumentando gradativamente mês a mês. Estamos trabalhando praticamente no vermelho, vai ficando ‘elas pôr elas’. Para ter uma ideia, hoje tenho cinco caminhões, trabalho 30 dias e 40% do faturamento é diesel. Tenho 10 funcionários, aí a preocupação é muito maior, pois são todos efetivados, chegando final do ano tenho décimo terceiro, tenho um compromisso com eles. A minha saída está sendo aumentar a prestação de serviços para mais empresas”, destaca Renato Pachude, 54 anos, proprietário da Pachude Transportes.

 

“Em 2019 nós fechamos o ano com o diesel, que é o que usamos, no preço de R$ 2,90. Em 2020 entramos com o preço em R$ 3,15, e depois disso foram só aumentos. O combustível é 40% do faturamento mensal na empresa. Hoje estamos em uma situação que nos deixa amarrados, estamos em meio a uma crise, onde todos foram afetados de alguma forma, gerando dificuldade financeira, então como decidimos gradativamente retornar com o transporte escolar, encontramos um entrave, uma crise e o combustível com preço alto. Como balancear os dois? Optamos por reduzir o trabalho e cobrar o mesmo valor de 2020, diminuímos o lucro, mas atendendo alguns dos nossos clientes. Com a política de preços da Petrobrás nós não conseguimos acompanhar, porque iria subir em quase 50% o valor das mensalidades, e isso não podemos fazer. Então com este cenário temos que nos adaptar, tirar de um lado para poder firmar um cliente e assim conseguimos trabalhar”, conta Cleber Roberto Jonsson, 39 anos, proprietário da Vitoria Transportes Escolar.

Futuro

Fazer uma projeção quanto ao desempenho da economia para o próximo ano não é tarefa fácil. Há muitos custos que não foram repassados pela indústria, pelo comércio e pelo setor de serviços para os consumidores – o que pode ocorrer em 2022, ampliando a inflação. Também há a instabilidade do câmbio, que sofre interferência de questões políticas e de fatores internacionais. 

Entretanto, a expectativa dos economistas é que em 2022 a inflação seja menor do que neste ano, ficando entre 4% e 5%, o que ainda é uma inflação alta.

“Esperamos uma desaceleração que deve vim muito dos alimentos, também esperamos que esses problemas climáticos que acontecem em 2021 não aconteçam em 2022, então não deve haver problemas de safra”, afirma a economista e pesquisadora do IPEA Maria Andréia Parente Lameiras. 

 

Texto: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Foto: Ciro Ivatiuk/Hoje Centro Sul

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