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04/06/2021

Por que estamos tão intolerantes?

Especialistas falam sobre intolerância, polarização e fake news nos dias atuais e como lidar com toda esta situação

Por que estamos tão intolerantes?

Nos últimos anos, não há quem não tenha presenciado, vivido ou conhecido um momento de intolerância. Seja com opiniões nas famílias, discussões nas redes sociais e até mesmo no debate político, a sensação é de que algumas pessoas estão perdendo a habilidade de dialogar.

O psicólogo Alexandre Bez explica que isso se intensificou com a pandemia. “A pandemia acentuou esse sentimento, piorando para quem já sofria com isso e também desenvolvendo a intolerância para aqueles que não haviam manifestado antes”, relata.

Ele pontua que a intolerância pode ser um sintoma de algo maior. “A intolerância pode ser um sintoma de pessoas que não agem com compreensão, além também de indicar questões reprimidas do inconsciente! Fatores de criação, culturais e mesmo de amizades, podem contribuir para uma pessoa desenvolver um comportamento intolerante”, disse.

A consequência pode ser desastrosa. “Falta de controle emocional, a incapacidade em lidar com o outro e, também, como não respeitar a diversidade de uma maneira geral são as características mais comuns da intolerância”, disse.

Para a psicóloga clínica e comportamental, Osmarina Vyel, o tempo atual funciona como se o ser humano possuísse dois lados, mas apenas um é incentivado, fazendo com que a intolerância nasça. “Temos a luz e a escuridão dentro de cada indivíduo, neste momento o que mais está sendo estimulado é a parte escura, ou seja, a parte ainda primitiva, por isso que há tanto sofrimento, pois pouco se estimula a parte da lucidez, a parte nobre que nos faz seres mais conscientes de nossos atos”, conta.

Fake News

Atualmente, uma das situações que vemos a intolerância crescer é em relação às fake news. O termo em inglês já está popularizado na cultura brasileira, mas o fato é que ainda há muitas pessoas que acreditam e defendem desinformações vindas das notícias falsas. Quando confrontadas com a verdade, as pessoas que acreditam nas informações falsas tendem a ter um comportamento negacionista e intolerante.

O psicólogo Alexandre destaca que muitos continuam compartilhando desinformações porque aquela desinformação se encaixa naquilo que aquele indivíduo acredita. “As pessoas que defendem as mentiras disparadas pelas fake news, são impulsionadas por ideologias, muitas vezes relacionadas à política. A questão ideológica e a falta de preparo emocional colaboram para que as pessoas façam parte dessa onda de disseminação de fake news”, relata.

O professor de Comunicação Social da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Dr. Marco Bonito, explica que o compartilhamento de fake news, mesmo depois de confrontado, é uma questão cultural. “De maneira geral, as pessoas tendem a crer naquilo que lhes faz mais sentido, de acordo com os seus valores morais e éticos. Desacreditar dá muito mais trabalho do que simplesmente aceitar a crença já estabelecida. Para quem desacredita é preciso checar os fatos e confrontá-los com a realidade, poucas pessoas tem pré-disposição para isso”, conta.

Esse ato de compartilhar e reproduzir informações que confirmam crenças ou hipóteses iniciais é chamado por especialistas de viés de confirmação.  “Quando as pessoas acreditam em uma fake news elas reiteram vieses de confirmação, ou seja, elas aceitam com maior facilidade aquilo que confirmam crenças ou hipóteses que elas já acreditavam anteriormente, ignorando aquelas notícias que são diferentes de suas opiniões, mesmo sendo verdadeiras”, explica a professora de Comunicação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Maytê Carvalho.

A troca de informações somente dentro de um mesmo grupo acaba caracterizando aquilo que é chamado de bolha de informação. “Como essas pessoas só querem consumir aquilo que elas já acreditam e que não desafiem as suas opiniões, é comum que elas busquem se cercar somente de conteúdos, informações e falas que vão de acordo com suas crenças pré-estabelecidas, ajudando, assim, a criar uma bolha de informação, seja social ou virtual”, conta Maytê.

O professor Marco ressalta que as bolhas de informação não são um ato novo. “Antes mesmo das redes sociais digitais, as pessoas também já se informavam dentro de bolhas de informação, escolhendo quais fontes de informação (ou nenhuma) seriam as mais convenientes”, explica.

Contudo, desta vez há um outro componente que acaba fortificando as bolhas de informação nas redes sociais: o interesse comercial das plataformas. “Com as redes sociais digitais há uma preocupação com o ethos de cada rede, cujo interesse é fazer com que a rede seja ‘saudável’ do ponto de vista dos seus interesses comerciais. Isso faz com que os algoritmos de cada rede sejam configurados para oferecer a ‘melhor experiência’ ao usuário, ou seja, mostrar a ele o que ele deseja ver. Evitando que ele abandone a rede. Isso faz com que sejam criadas as tais bolhas de informação. O fato é que: as pessoas veem nos seus feeds aquilo que costumam curtir, interagir e publicar”, detalha.

Por isso, quem costuma receber e compartilhar fake news acaba tendo mais exposição a este tipo de informação falsa do que outros usuários que acabam recebendo diferentes informações. Para a professora Maytê, esse ambiente pode ser propício à polarização e à intolerância. “As fake news são notícias falaciosas, falsas, com aspecto e aparência de notícias verdadeiras, contudo mentirosas. Então, suas consequências estão diretamente ligadas à polarização e podem resultar em manipulação de resultado de eleições (Brexit, por exemplo, e a campanha de Donald Trump), alienação política e social, incentivo ao uso de remédios sem comprovações médicas e científicas, acusações políticas sem provas concretas e até mesmo divulgação de falas e posicionamentos nunca ditos por personalidades históricas e da mídia”, destaca.

Entretanto, o professor Marco destaca que é preciso ter atenção ao que vemos como intolerante. “A princípio, toda intolerância deveria ser repugnante. Contudo, como se pode tolerar crimes contra a humanidade, por exemplo? A intolerância deve surgir sempre que os Direitos Humanos forem ofendidos, esse tipo de intolerância é o antídoto contra regimes autoritários e autocráticos, por exemplo. Se as bolhas de informação servem para criar um tipo de intolerância que repudia os crimes contra os Direitos Humanos, não parece ser uma má ideia, mas quando ela estimula a intolerância aos grupos sociais mais vulneráveis, aí ela deve ser repudiada e reprimida pelas forças democráticas”, explica o professor Marco.

Polarização

É nesse mesmo sentido de ser intolerante com o intolerante que o cientista político e professor de Relações Internacionais, Bruno Lima Rocha, acredita que o conceito de polarização pode ser problemático. “Há um problema quando se fala em polarização. É como se fosse duas pessoas brigando, duas crianças ‘tô de mal’, e não tem sentido. Se tu me disseres: ‘Ah é correto polarizar a conta de um governo totalitário?’. Eu vou dizer que sim. É correto ter uma postura radicalizada contra uma invasão estrangeira? Vou dizer que é uma obrigação. É correto não aceitar o debate político? Eu vou te dizer que não é correto. São temas diferentes”, afirma.

A polarização no debate político já foi apontada como origem da intolerância. Mas segundo Marco, essa polarização não é uma novidade, mas sim, a reverberação que ela está tendo que é nova. “A polarização política não é uma novidade, isso sempre foi assim, desde o início das democracias. As redes sociais apenas registram e potencializam essa polarização de uma maneira maior, ainda não vista em outros tempos, pré-digitais”, disse.

O cientista político explica que a polarização na política é entendida quando o debate ocorre apenas entre as extremidades do espectro político. “A polarização no sentido que a gente tem, na teoria liberal-democrática, uma linha imaginária que tem três marcos. Um marco é aquelas forças políticas que jogam dentro da institucionalidade. E os marcos que quem joga dentro ou fora. E os que só jogam fora. Se costuma dizer que ao se aproximar do centro é quando a gente tem uma direita, que em tese, respeita os direitos sociais e tem uma esquerda que não privilegia a luta de classes, ou seja, a luta pelo conflito distributivo, e sim um acordo entre classes. Quando diz que polariza, polariza entre modelos das pontas do espectro político. Não quer dizer que o extremo seja pior ou melhor que o centro. Tem nada haver uma coisa com a outra. A gente vai caindo em caricatura despolitizada e confundindo comportamento e cultura com transmissão política”, explica.

Para ele, há um bloqueio que impede o debate na política brasileira. “O que ocorre no Brasil, no meu entendimento, a polarização política brasileira é porque há um bloqueio no debate político. Esse bloqueio é derivado desde a crise de 2014 e vem avançando, sendo deplorado. Vai indo cada vez mais à direita e de forma mais irracional”, conta.

De acordo com o cientista político, essa irracionalidade é algo desejada por grupos políticos que desejam manipular o debate atualmente. “Quanto maior for a exacerbação do debate político, a ignorância no debate político, aumenta a irracionalidade. Essa irracionalidade vai ser manipulada por quem sabe fazer”, disse.

Como sair do caos?

Em meio à polarização, fake news e intolerância, muitas pessoas ficam perdidas e não conseguem encontrar meios para sair da situação atual em que vivemos. Contudo, os especialistas apontam que em cada área é possível vislumbrar soluções, mesmo que longínquas.

É o caso da política brasileira. Para o cientista político, não deve haver uma solução a curto prazo, mas é possível começar vislumbrar uma saída se o país fizer um novo pacto democrático, tal qual foi feito em 1985, quando oficialmente terminou a ditadura. Segundo ele, isso ajudaria a trazer o debate democrático à tona. “Quanto mais aumentar a racionalidade e a reflexão no debate político, diminui o grau de manipulação”, conta. Contudo, para isso, a população brasileira precisa participar. “A racionalidade do debate político brasileiro implica numa participação maior através de parâmetros de debates”, relata.

Já para evitar a manipulação por meio das fake News, o segredo está em buscar mais informação. “Sempre que receber alguma novidade pelas plataformas digitais, verifique a fonte da notícia. Foi publicado em algum veículo de comunicação confiável? Passou em algum programa de televisão que você costuma assistir com frequência? Apure sempre, pois as fake news costumam estar presentes em sites falsos, postagens sem fontes ou que não apresentam veracidade”, explica a professora Maytê.

Outro meio também é verificar os checadores de informação. “Pesquisem em sites especializados em checagem de fatos para saberem se a notícia é verdadeira ou falsa. Hoje, temos diversas plataformas com essa finalidade e que são de confiança. Entre algumas delas, está a Agência Lupa, ligada ao site da Folha de S. Paulo, e o portal Fato ou Fake, criado pelo Grupo Globo”, conta.

Todavia, a professora destaca que é preciso estar atento também de onde está vindo a informação. “Apesar dos veículos de comunicação serem os meios mais seguros de se informar, é preciso entender, também, que existe uma linha editorial, valores e interesses definidos pela direção do jornal, revista ou site que, mesmo praticando a imparcialidade necessária, pode apresentar opiniões e posicionamentos que influenciam e que estão de acordo com o interesse de seus consumidores. Realize uma análise sociodiscursiva da notícia, ou seja, busque saber qual a visão política e social do Publisher. É uma pesquisa encomendada por algum laboratório farmacêutico? Qual é a finalidade dessa notícia além de informar?”, disse.

Além de procura em sites corretos, o comunicólogo Marco Aurélio também enfatiza a necessidade de a sociedade procurar se educar digitalmente. “Eu acho que é fundamental uma educação total digital. Uma coisa que nós não temos. A internet chegou de uma maneira rápida, onde as pessoas não estavam preparadas e com isso se perdeu muito do que podemos extrair de bom da internet”, explica.

Mas o que fazer contra a intolerância? Para os psicólogos, é preciso colocar um limite na conversa e há casos em que não é possível dar continuidade ao debate. “Se afastar e não discutir é a melhor opção. Não entrar na onda é o mais indicado para evitar desgastes. Muitas vezes pode ser difícil estabelecer um diálogo com essas pessoas, especialmente porque quem é intolerante possui o que se chama psiquiatricamente de ‘caráter rígido’, não cedendo mesmo a explicações lógicas, tanto como reais”, comenta Alexandre.

Mesmo assim, há maneiras de ter um diálogo saudável quando o outro possibilita. “É preciso compreender que o diálogo é importante para que a sociedade se desenvolva, isso sempre com muita cautela e paciência, para evitar estresse nas conversas. Nunca levantar o tom de voz, sempre procurar explicar os motivos pelos quais as fake news são um problema e também porque é necessário combatê-las”, aconselha.

Para a psicóloga Osmarina, mais do que apenas não incentivar o debate intolerante, as pessoas podem começar a mudança dentro delas mesmas. “Faça sua parte, seja cada vez mais um ser humano melhor, priorizando a ética, delicadeza, transparência e amor nas relações e nas atitudes simples do cotidiano. A escolha está sempre ao nosso alcance”, destaca.

Texto: Karin Franco

Fotos: Pixabay

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