Para além do papel: os caminhos e os desafios para a efetiva inclusão e equidade em Irati e região
Com o crescimento contínuo da demanda por diagnósticos e acompanhamento especializado para TEA, TDAH e Síndrome de Down, a APAE, a associação de famílias TEAbraça e a Secretaria de Assistência Social articulam ações para transformar direitos em políticas de pertencimento e suporte integral às famílias
Inclusão não se resume a abrir portas ou garantir a presença física de uma pessoa em uma sala de aula, no ambiente de trabalho ou em espaços comunitários. Tratada na essência, a inclusão significa assegurar o pertencimento, o desenvolvimento pleno e a participação ativa de cada cidadão na sociedade. Em Irati, a discussão sobre a equidade para pessoas com deficiência e condições diversas do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e a Síndrome de Down, ganha centralidade no debate público.
Em meio a um aumento expressivo no volume de diagnósticos e na busca por atendimentos especializados, a articulação entre entidades, a mobilização e as diretrizes do poder público apontam avanços expressivos, mas também traçam um diagnóstico claro sobre os desafios estruturais que o município e a região ainda precisam superar.
APAE com estrutura, novos projetos e o desafio da demanda
Com uma trajetória histórica e fundamental na região, a APAE de Irati desempenha hoje um papel estratégico e multidisciplinar no atendimento a pessoas com deficiência intelectual, Síndrome de Down, TEA, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento. A instituição atua de forma integrada articulando três eixos vitais: educação, saúde e assistência social.
Na área educacional, além de ofertar Educação Infantil, Ensino Fundamental na modalidade de Educação Especial e EJA (Fase I), a APAE deu um passo inovador com a implementação, em julho de 2025, das Oficinas do Currículo Funcional. A iniciativa busca ir além da alfabetização e da aprendizagem tradicional, focando no desenvolvimento da autonomia, socialização, comunicação e na preparação prática dos alunos para a vida cotidiana e comunitária.
Já no pilar da saúde, a estrutura conta com uma equipe multiprofissional formada por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, permitindo um plano de acompanhamento individualizado. Para a pessoa com Síndrome de Down, as abordagens estimulam o ganho motor, cognitivo e de linguagem. No caso do TEA associado à deficiência intelectual, o foco recai sobre a regulação comportamental, a interação e a comunicação funcional.
Atualmente, a APAE atende cerca de 163 alunos, acompanha 70 pacientes e suas famílias na área clínica e conta com um quadro de, aproximadamente, 55 profissionais. Trata-se de uma estrutura robusta, contudo, o aumento dos pedidos por avaliações clínicas e intervenções precoces na infância tem pressionado a capacidade máxima da instituição.
“O principal desafio da APAE de Irati atualmente não está na falta de estrutura ou no comprometimento dos nossos profissionais, mas na necessidade urgente de fazer com que a nossa capacidade instalada consiga acompanhar o crescimento acelerado da demanda do município e também da nossa região. A instituição acaba se tornando a grande referência para famílias que não encontram esses serviços na rede regular”, conta Gislaine Gomes da Silva Bione (Gige), diretora da instituição.
Para ela é fundamental fortalecer as parcerias com a Prefeitura, Secretaria de Saúde, Educação e Assistência Social para a ampliação de atendimento com equipes, convênios e vagas.
O desafio do mercado de trabalho
A transição para a vida adulta e a inserção no mercado de trabalho também fazem parte do escopo da instituição, que mantém Unidades Ocupacionais de Artesanato, Jardinagem e Marcenaria. Gige destaca que, embora as empresas da região demonstrem maior abertura e interesse na contratação, o cenário local ainda precisa evoluir.
O objetivo é superar a visão meramente burocrática de cumprimento de leis e cotas, migrando para um modelo que reconheça as competências individuais, respeite as limitações de cada pessoa e ofereça adaptações razoáveis no ambiente de trabalho.
Diagnósticos, barreiras e a voz das famílias
Se por um lado as instituições buscam ampliar o atendimento, na outra ponta estão as famílias que vivenciam diariamente a busca por respostas, diagnósticos precisos e acolhimento escolar e social.
Gilvana Mirelli Assis, vice-presidente da Associação TEAbraça e mãe da Maria Eduarda de sete anos, diagnosticada com TEA nível 1 de suporte e TDAH, traz uma realidade enfrentada pelos pais na região. Segundo ela, a oferta de serviços públicos especializados em Irati ainda se mostra limitada diante do crescimento contínuo da demanda nos últimos anos.
“Ainda enfrentamos a falta de um espaço físico plenamente adequado e de um número maior de profissionais capacitados para atender toda a demanda das nossas famílias. O município precisa acompanhar esse ritmo. Para que a inclusão aconteça de verdade na prática, e não fique restrita ao texto bonito das leis, é fundamental transformar direitos em ações concretas e contínuas. Inclusão não é apenas permitir que a criança esteja dentro de uma sala de aula; é garantir que ela tenha reais condições de aprender, se comunicar e pertencer ao ambiente”, ressalta a vice-presidente.
Entre os principais gargalos apontados pela representante da Associação estão a demora no acesso a laudos e terapias de apoio, a carência de formação continuada para educadores na rede regular e, sobretudo, a persistência de atitudes preconceituosas por parte da sociedade, muitas vezes alimentadas pela desinformação acerca das deficiências invisíveis, como o autismo e o TDAH.
Presença preventiva, formação da rede e a Política de Cuidados
No âmbito da gestão municipal, a Secretaria de Assistência Social desempenha um papel essencial. A atuação busca intervir antes que as vulnerabilidades sociais se transformem em violações de direitos.
Por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) que funcionam como a porta de entrada da rede, as famílias recebem orientação sobre o Cadastro Único, acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), Carteira de Identificação e Passe Livre estadual. Já o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) entra em ação nos casos mais graves, quando há quebra de vínculos, negligência ou violência.
A assistente social, Fernanda Rocha, diretora-geral da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, destaca que o acolhimento de uma pessoa com deficiência não pode ficar restrito aos muros da entidade, nem exigir que a família precise reapresentar sua história a cada serviço público que procura. A articulação entre saúde, educação, esporte, cultura e o setor produtivo é premissa básica para a autonomia.
“Durante muito tempo, a sociedade, diante da deficiência, fez a seguinte pergunta: ‘O que essa pessoa consegue fazer?’. Precisamos mudar a chave e começar a perguntar: ‘O que está impedindo essa pessoa de participar e de conseguir fazer?’. Nem toda limitação pertence ao indivíduo. Muitas vezes, a limitação está na barreira atitudinal que impomos, em uma comunicação inacessível ou em regras pensadas para um único padrão de funcionamento. Autonomia não é fazer tudo sozinho, mas ter o direito e os apoios necessários para poder escolher”, explica ela.
Olhar para quem cuida: a Política Municipal de Cuidados
Outro avanço conceitual e prático destacado pela Assistência Social é o fortalecimento do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e a construção da Política Municipal de Cuidados.
A iniciativa reconhece que, por trás de uma pessoa que necessita de suporte contínuo, quase sempre existe a figura de um cuidador familiar, na grande maioria das vezes, mães, que abrem mão de sua vida profissional, de seus estudos e de sua própria saúde mental para exercer um cuidado solo e não remunerado.
“Cuidar é uma dimensão fundamental da vida, mas não pode ser uma responsabilidade atribuída exclusivamente às famílias. Proteger a pessoa com deficiência exige, necessariamente, olhar para quem está ao seu lado e oferecer uma rede pública que compartilhe essa responsabilidade. Inclusão de verdade não é pedir que as pessoas atípicas se adaptem o tempo todo ao mundo; é construir uma cidade que aprenda, definitivamente, a acolher as diferenças”, conclui Fernanda.
Como acessar os serviços em Irati
- CRAS (Porta de Entrada): Orientação para Cadastro Único, avaliação para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Passe Livre estadual.
- APAE de Irati: Atendimento educacional (Infantil ao EJA e Currículo Funcional) e clínica multiprofissional (fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e psiquiatria) mediante encaminhamento e avaliação.
- TEAbraça: Rede de apoio, acolhimento familiar e troca de experiências para famílias atípicas de pessoas com TEA e TDAH.
- Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência: Espaço de controle social para proposição e fiscalização de políticas públicas locais.
Fernanda Hraber


