O mercado redescobre o valor da experiência

Por Redação Hoje Centro Sul 9 min de leitura

Com o envelhecimento da população e a dificuldade de preencher vagas em diversos setores, empresas voltam a valorizar profissionais acima dos 50 anos

Durante anos, a rotina de Zélia Pereira foi dedicada, exclusivamente, à casa e aos filhos. As experiências profissionais ficaram no passado e, com o passar do tempo, ela acreditava que dificilmente voltaria a ter carteira de trabalho assinada. Aos 53 anos, uma oportunidade mudou completamente seus planos.

Ela soube de uma vaga para zeladora que permanecia aberta havia bastante tempo. Incentivada a conhecer a proposta, decidiu tentar. Foi contratada. Hoje, além de contribuir com a renda da família, ela redescobriu uma rotina diferente daquela que viveu durante muitos anos.

“Não esperava voltar a trabalhar fora e isso tem sido muito bom, porque tem mais uma renda em casa e também saí da mesma rotina de muitos anos na vida”, conta. A história dela acompanha uma transformação que começa a aparecer também nos números. Em um mercado de trabalho que, durante muito tempo, associou juventude à produtividade, empresas passam a reconhecer na experiência um diferencial importante para enfrentar desafios como a escassez de mão de obra e a necessidade de equipes mais estáveis.

O cenário acompanha mudanças na própria população brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados com os resultados do Censo Demográfico 2022, mostram que as pessoas com 65 anos ou mais representam 10,9% da população brasileira, o maior percentual já registrado pelo instituto. O envelhecimento da população modifica o perfil da força de trabalho e torna cada vez mais comum a presença de profissionais maduros em busca de recolocação ou de novas oportunidades.

No Paraná, essa mudança já aparece nos números. Informações do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgadas pela Secretaria de Estado do Trabalho, Qualificação e Renda, apontam que, entre janeiro e maio de 2025, foram criadas 1.481 novas vagas formais para trabalhadores com 50 anos ou mais, um crescimento de 17% em comparação com o mesmo período de 2024.

Embora Irati não possua um levantamento específico sobre essa faixa etária, a percepção da Agência do Trabalhador confirma que a tendência também chegou à região. Segundo a gerente da Agência do Trabalhador de Irati, Maria Inez Robaszkievicz, a abertura para profissionais acima dos 50 anos vem crescendo, acompanhando justamente essa valorização da experiência profissional.

“Hoje, muitos empregadores da região relatam dificuldade para manter equipes estáveis. Por isso, trabalhadores acima dos 50 anos têm ganhado espaço por apresentarem menor rotatividade, comprometimento com horários, experiência prática, facilidade para lidar com clientes e perfil de liderança informal dentro das equipes”, relata Maria Inez.

Experiência deixa de ser obstáculo e passa a ser diferencial

A percepção de que a idade representa uma barreira para conseguir emprego ainda existe, mas começa a perder espaço em diversos segmentos da economia. Na avaliação da Agência do Trabalhador, profissionais maduros costumam reunir competências que fazem diferença no cotidiano das empresas. Entre elas estão a experiência acumulada ao longo da carreira, responsabilidade, comprometimento e capacidade para lidar com diferentes situações do ambiente de trabalho.

Maria Inez ressalta, entretanto, que essas qualidades não dispensam a necessidade de atualização constante. “O mercado de trabalho está em permanente transformação e exige adaptação a novas tecnologias e processos por parte de trabalhadores de todas as idades. A qualificação profissional contínua torna-se um fator importante para ampliar as oportunidades de inserção e permanência no emprego”.

Ela destaca ainda que diferentes setores da economia têm reconhecido os benefícios da diversidade etária dentro das equipes. “Observa-se que comércio, indústria, serviços e logística vêm promovendo ambientes de trabalho mais equilibrados ao combinar diferentes experiências, conhecimentos e perspectivas”. Essa mudança também aparece nas vagas disponíveis em Irati e na região.

A indústria figura entre os segmentos que mais absorvem trabalhadores acima dos 50 anos, principalmente em atividades ligadas à produção, controle de qualidade, logística, manutenção e supervisão. No comércio, há oportunidades para atendimento ao cliente, operação de caixa, vendas, fiscalização de loja, reposição e controle de estoque.

Já a forte movimentação econômica ligada ao agronegócio, à madeira e ao setor industrial amplia a procura por motoristas, conferentes, auxiliares operacionais e profissionais para controle de cargas e apoio administrativo. O setor de serviços, que lidera a geração de empregos no Paraná, também concentra vagas para áreas como limpeza, conservação, recepção, portaria, saúde, educação, alimentação e hotelaria.

Para quem procura recolocação profissional, a principal porta de entrada continua sendo a Agência do Trabalhador de Irati, que concentra oportunidades nesses diferentes segmentos.

Quando diferentes gerações aprendem juntas

Mais do que preencher vagas, empresas têm percebido que reunir profissionais de diferentes idades pode tornar as equipes mais completas. Na Leão Alimentos e Bebidas, essa é uma estratégia incorporada à cultura organizacional, como explica a Head de Desenvolvimento Organizacional e Institucional da empresa, Danielli Bortolamedi.

“Acreditamos que a idade, por si só, não define o potencial de uma pessoa. O que buscamos são profissionais alinhados aos nossos valores, com vontade de aprender, colaborar e contribuir para um ambiente de trabalho cada vez mais diverso”. Na avaliação dela, profissionais acima dos 50 anos costumam agregar uma bagagem construída ao longo da carreira, além de maturidade para enfrentar desafios, visão prática, equilíbrio e capacidade de construir relações de confiança — características que fortalecem tanto as equipes quanto os resultados da empresa.

Mas a especialista ressalta que a troca acontece em mão dupla. Enquanto compartilham experiências acumuladas ao longo dos anos, os profissionais maduros também aprendem com novas tecnologias, metodologias e diferentes formas de trabalhar apresentadas pelas gerações mais jovens.

“Essa combinação fortalece a inovação, amplia o repertório das equipes e cria um ambiente mais colaborativo”. Segundo Danielli, esse intercâmbio faz parte de uma cultura que entende o aprendizado como um processo permanente.  “Investimos continuamente em capacitação e acreditamos que aprender é um processo permanente, independentemente da fase da carreira”.

O preconceito ainda existe, mas perde espaço

Apesar dos avanços, a idade ainda pode representar uma barreira para quem procura uma oportunidade. Esse preconceito, conhecido como etarismo, ocorre quando pessoas são julgadas ou limitadas por causa da idade, seja ela considerada muito jovem ou mais avançada.

Na avaliação da Head de Desenvolvimento Organizacional da Leão, embora o mercado tenha evoluído e o debate sobre diversidade geracional esteja mais presente nas empresas, ainda há desafios importantes. “Felizmente, vemos um movimento crescente de organizações que entendem que equipes diversas geram melhores resultados e que a experiência é um ativo importante para os negócios”, enfatiza.

Ela explica que, na empresa, os processos de seleção priorizam competências, potencial de desenvolvimento e aderência à cultura organizacional, e não a idade dos candidatos. Um exemplo dessa filosofia é o grupo de afinidade Vintage, criado para reunir colaboradores de diferentes gerações em momentos de troca de experiências, construção de ideias e fortalecimento de um ambiente mais inclusivo.

“Acreditamos que a convivência entre diferentes gerações amplia perspectivas, fortalece a colaboração e cria um ambiente em que todos têm espaço para aprender e ensinar”. A iniciativa dialoga com a própria história da empresa que, neste ano, completa 125 anos de atuação. “Sabemos que longevidade também é resultado da capacidade de reunir diferentes perspectivas, gerações e histórias em torno de um mesmo propósito: promover bem-estar para as pessoas, dentro e fora da organização”, comenta Danielli.

Nunca é tarde para recomeçar

Se os números mostram que o mercado começa a olhar de forma diferente para os profissionais maduros, histórias como a de Zélia mostram o impacto que essa mudança pode ter na vida das pessoas. Depois de anos dedicados exclusivamente à família, voltar ao mercado de trabalho parecia algo distante.

Hoje, a carteira assinada representa mais do que uma renda extra. Significa autonomia, novos desafios e a descoberta de uma fase que ela não imaginava viver. Por isso, quando fala com outras pessoas que estão na mesma situação, ela faz questão de incentivar. “Se a pessoa tem vontade de trabalhar ou voltar a trabalhar, que seja motivada a ir, porque é muito legal iniciar algo totalmente novo depois de um tempo em que a gente acha que a vida será a mesma”.

Num país que envelhece rapidamente, especialistas acreditam que histórias como essa tendem a se tornar cada vez mais comuns. Ao mesmo tempo em que empresas passam a reconhecer o valor da experiência, profissionais maduros descobrem que conhecimento, responsabilidade e disposição para aprender continuam sendo atributos capazes de abrir portas — independentemente da idade.

Onde estão as vagas para profissionais 50+?

Segundo a Agência do Trabalhador de Irati, as principais oportunidades para profissionais acima dos 50 anos concentram-se em:

  • Indústria: produção, controle de qualidade, logística, manutenção e supervisão;
  • Comércio: atendimento ao cliente, operação de caixa, vendas, reposição, fiscalização de loja e controle de estoque;
  • Logística e transporte: motoristas, conferentes, auxiliares operacionais e controle de cargas;
  • Serviços: limpeza, conservação, recepção, portaria, saúde, educação, alimentação e hotelaria.

Fernanda Hraber

Gostou? Compartilhe!