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Edição 1230 - Já nas bancas!
29/05/2020

Municípios não sabem quantas pessoas perderam emprego ou renda com a pandemia

Faltam informações sobre quem são as pessoas que precisam de ajuda. O sistema nacional de dados, por município, relativo ao emprego e desemprego, Caged, está desatualizado.

Municípios não sabem quantas pessoas perderam emprego ou renda com a pandemia

Não há dados oficiais sobre o impacto econômico do coronavírus na vida dos moradores de Irati e da região. Quem são os iratienses que tiveram seus empregos e sua renda afetados pela pandemia? Quantas são estas pessoas? Quantos microempreendedores individuais (MEIs) foram atendidos com o Auxílio Emergencial? Quantos trabalhadores autônomos, informais? Qual o número total de Auxílios Emergenciais pagos pela agência da Caixa Econômica de Irati? Qual foi o percentual de aumento no número de demissões no município?Nenhuma destas perguntas tem resposta.

Ministério da Cidadania, Caixa Econômica Federal, Secretaria Municipal de Assistência Social e Agência do Trabalhador foram procurados, mas não há informações concretas.  A Secretaria de Assistência Social e o Ministério da Cidadania têm o número de pessoas que fazem parte do Cadastro Único e que, por isso, recebem o Auxílio Emergencial. Ao todo, 4.154 famílias de Irati integrantes do Cadastro Único receberam a primeira parcela Auxílio Emergencial, no valor de R$ 600,00 ou R$ 1.200,00. Destas famílias, 2.674 estão inscritas no programa Bolsa Família.

Os demais beneficiados pelo Auxílio Emergencial, como trabalhadores informais, autônomos, microempreendedores e desempregados não estão incluídos neste público. A secretária municipal de Assistência Social, Sybil Dietrich, já solicitou que estas informações sejam disponibilizadas ao Município.  “Eu fiz o pedido para a Caixa Econômica, para eles nos enviarem quem são estas famílias que pediram o Auxílio Emergencial para a gente poder pautar as nossas ações. Eles ainda não me passaram”, relata a secretária.

Sybil comenta que o setor Assistência Social não dispõe de profissionais em número suficiente, nem de estratégias para mapear todas estas pessoas. Ela cita que o próprio governo federal não tinha estas informações.  “Eles mesmos não tinham, porque eles tinham cogitado um número x, mas foi bem maior a procura”, diz.  

Quanto ao índice de desemprego, o Ministério do Trabalho deixou de atualizar desde dezembro do ano passado os dados de admissões e demissões de pessoas, por município, no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Nesta semana, na quarta-feira (27),  foram disponibilizadas apenas algumas informações nacionais e estaduais no Caged.  No Brasil, na comparação entre os meses de janeiro a abril de 2019 com o mesmo período em 2020, o número de demissões aumentou 10,5% e o número de admissões caiu 9,6%. Não foi divulgada a comparação dos primeiros quadrimestres de 2019 e de 2020 por Estado.

Em relação aos municípios, não há informações. “O governo federal não tem alimentado uma plataforma que é pública e de importância para que nós tenhamos dados, que é o Caged. A última alimentação do Caged foi em dezembro de 2019 e aí nós não temos acesso a estas informações”, explica o chefe da Agência do Trabalhador de Irati, Marcelo de Ávila Francos. Segundo ele, é a partir dos dados lançados no Caged que a Agência do Trabalhador tem o perfil de cada município.

Sem acesso às informações oficiais, Marcelo faz uma estimativa do desemprego em Irati e região, baseada no número de pessoas que foram até a agência para requerer o seguro desemprego – sem considerar os pedidos feitos através de aplicativo.  “Desde que começou a pandemia nós temos: no mês de março, em torno de 200 e poucos; no mês de abril que foi o forte, nós passamos de 300 atendimentos de seguro desemprego. E agora, no mês de maio teve um declínio bem acentuado”, relata o chefe da Agência do Trabalhador.

Ele conta que anteriormente à pandemia, na Agência de Irati – que atende também outros municípios da região, como Fernandes Pinheiro, Teixeira Soares, Rio Azul, Rebouças e Inácio Martins – eram feitas, em média, 200 solicitações por mês de seguro desemprego.  

Em abril, quando aumentou significativamente a procura pelo benefício, além dos mais de 300 pedidos feitos através da agência em duas semanas (pois na primeira e na segunda semana do mês a agência permaneceu fechada), Marcelo conta que também foram prestados em torno de 500 atendimentos por telefone, whattsApp e e-mail para orientar as pessoas a darem entrada no seguro desemprego diretamente através do aplicativo.

“O que se tem de ideia é que a pandemia agravou o desemprego, se olharmos na prática nos mostra que sim, mas os dados nós não temos para provar isso”, diz Marcelo. Segundo ele, a falta dos números oficiais, através do Caged, prejudica a atuação da agência na discussão de estratégias junto aos governos.

Entretanto, mesmo sem os dados do Caged e tendo como base os atendimentos prestados, ele reitera que no mês de maio o número de solicitações de seguro desemprego caiu bastante. “Hoje conseguimos fazer o atendimento no mesmo dia”, comenta.  “Isso para nós foi um indicativo de que diminuiu”, diz Marcelo. Mas, o chefe da Agência do Trabalhador de Irati pondera que o momento atual é instável.   “A nossa realidade hoje é esta, mas ela pode mudar de um dia para o outro”, afirma.

Vagas de emprego voltaram a ser oferecidas neste mês de maio

“Nós tivemos um período natural de não oferta de vagas. Por que natural? Por toda a incerteza que a pandemia causou. E agora o mês de maio foi diferente. No final de abril já teve alguma oferta e no mês de maio foi um mês de maior oferta de oportunidades de trabalho. Tanto que estamos tendo boletins diários”, conta o chefe da Agência do Trabalhador de Irati, Marcelo de Ávila Francos.

Os interessados pelas vagas anunciadas devem procurar a agência pessoalmente e levar seu currículo. Marcelo explica que não é possível o envio de currículos por e-mail porque no ato da entrega o candidato já passa por uma a pré-triagem antes de ser colocado em contato com a empresa empregadora.

 As entrevistas de seleção continuam sendo feitas pelo empregador, em entrevistas individuais, que podem ocorrer em espaço disponibilizado na Agência do Trabalhador.   “Temos combinado com as empresas que nos procuram, nós continuamos disponibilizando a nossa sala, mas de maneira diferente, sem aglomerações”, comenta Marcelo.  Segundo ele, tem funcionado bem as entrevistas individuais,  de cerca de 15 minutos. 

Tecnologia aliada e inimiga

Muitas pessoas procuram os CRAS de Irati para ajudá-las solicitar o Auxílio Emergencial, que precisava ser feito através de aplicativo, pois não têm smartphone. Mesmo assim, estas famílias tinham que informar um número de celular para ter acesso ao benefício.

“A nossa tática é estar nesse suporte aos auxílios do Estado e Governo Federal, porque a gente executa, eles dão o suporte financeiro e a gente tem que estar ali, na linha de frente com a população”, comenta a secretária de Assistência Social de Irati.

Nas duas semanas do mês de abril em que a Agência do Trabalhador de Irati ficou fechada, muitas pessoas tiveram dificuldade em solicitar o seguro desemprego através do aplicativo. “Nós percebemos que o uso de tecnologias ainda é um tabu para certas pessoas. Ao mesmo tempo em que o mundo está se preparando para isso, está andando para este avanço tecnológico, algumas realidades ainda não são do uso da tecnologia. E nós podemos dizer que a nossa região é uma região assim”, relata o chefe da Agência do Trabalhador.  Segundo ele, muitas pessoas têm dificuldade em entender como funciona, em baixa o aplicativo, em instalá-lo e usá-lo. Marcelo comenta que também existe o contraponto, as pessoas que tem facilidade com o uso da tecnologia, conseguem fazer estes processos, mesmo que com auxílio remoto da equipe da Agência do Trabalhador, e entram em contato para elogiar a comodidade de poder fazer tudo a partir de casa.

Quanto à emissão da Carteira de Trabalho, que passou a ser apenas digital, por aplicativo, desde o final de fevereiro – não existe mais a emissão de carteiras em papel em todo Brasil –  também há quem aprove e quem tenha muitos problemas devido à falta de acesso à tecnologia.  “Nós somos questionados, as pessoas dizem: ‘Eu não tenho um celular, como é que eu faço?’ E nós ficamos de mãos atadas, nós não temos como resolver este problema da população”, comenta Marcelo. Ele acredita que a transição para o exclusivamente digital deveria ter sido mais ponderada.  “Nós saímos de um documento gratuito, para que a população tenha que ter no mínimo um smartphone, é algo para ser pensado. Acho realmente importante nós avançarmos tecnologicamente, mas também é importante nós pensarmos em quem não vai ter esse acesso”, diz. E ele cita o fato do Sul do Brasil ser constituído por população essencialmente agrícola, que muitas vezes tem apenas um telefone rural para se comunicar com familiares, não tem um smartphone. Outro fator é que parte desta população também não tem acesso à internet ou tem um acesso precário, em um smartphone defasado que não comporta certos aplicativos.

Quem o “Todos por Irati” está atendendo

A ação “Todos por Irati” definiu como critério atender as famílias em dificuldade financeira em virtude da pandemia, que não tinham sido beneficiadas por outros programas municipais, estaduais ou federais. Por isso, nesta semana estão sendo entregues as cestas básicas para as famílias que não fazem parte do Cadastro Único e procuraram os Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) ou foram indicadas pelas instituições parceiras da campanha.

Ao todo 300 famílias de Irati não inscritas no Cadastro Único procuram os CRAS ou foram listadas pelas entidades. “Não sabemos dizer quem são estas famílias, se esta busca delas é momentânea por conta da pandemia, se elas estavam fora do Cadastro Único e a gente não conseguiu atingi-las, ou se elas não tinham informações [para se inserirem no Cadastro Único]”, comenta a secretária municipal de Assistência Social de Irati, Sybil Dietrich.

Ela acredita que depois da visita das equipes para a entrega das cestas da ação “Todos por Irati” é que será possível  fazer um diagnóstico dessas 300 famílias e identificar um perfil .

Outras 500 famílias que fazem parte do Cadastro Único pediram ajuda nos CRAS e estão recebendo os alimentos da campanha “Todos por Irati”.   “Se elas foram procurar ajuda é porque de alguma forma elas estão precisando. E isso vai poder ser verificado nesta visita, a gente vai entender o que ela recebeu, o que ela não conseguiu receber”, afirma a secretária.

Depois da entrega dos alimentos às 800 famílias é que será feito um diagnóstico, que indicará quem são estas pessoas e se a necessidade de auxílio é temporária ou terá de ser prestada por mais tempo.

Aa todo, foram confeccionadas mais de 3.000 cestas de alimentos através da campanha. Depois da entrega destas 800 e da elaboração do diagnóstico, a comissão organizadora da ação “Todos por Irati”, se reunirá novamente e decidirá sobre a destinação dos demais alimentos.

Dados sobre o emprego no Paraná

De acordo com as informações atualizadas nesta quarta-feira (27) no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), nestes primeiros quatro meses do ano, no Paraná ocorreram 403.244 contratações com carteira assinada e 425.668 demissões. Isso  resultou em um saldo de 22.424 empregos a menos do que o número de contratações, ou seja, queda de 0,84%.

Texto/Fotos: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Imagem: Pixabay

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