facebook
14/08/2020

Motoboys também são vítimas de ofensas em Irati e região

Motoboys também são vítimas de ofensas em Irati e região

“As pessoas xingam sem dó, é normal. É só atrasar uma entrega”, relata o motoboy Jackson Padilha. Ele trabalha em Irati e assim como Matheus Pires Barbosa, 19 anos, de Valinhos, São Paulo, também recebe tratamento vexatório. Entretanto, ao contrário de Matheus, Jackon e muitos outros entregadores que trabalham na cidade de Irati e em outras do Brasil nunca gravaram vídeos das ofensas que já receberam, nunca foram destaque nas redes sociais e na imprensa, permanecem no anonimato.

O tratamento com o intuito de humilhar que motoboys, garçons, porteiros e outros profissionais  recebem traz à tona preconceitos, como o socioeconômico e o racial, presentes no Brasil há muitos e muitos anos.

“Infelizmente não acredito que estamos evoluindo na redução gradual dos preconceitos. A mídia mostrou esse caso e houve repercussão nacional, mas existem essas situações diárias no nosso cotidiano. Podemos presenciar isso em diversas esferas, em questão socieconômica, religiosa, política, profissional, entre tantas”, afirma a psicóloga Daniele Pires.

Segundo ela, as ofensas podem ocasionar danos emocionais ao agredido. “Podem causar sérios abalos psicológicos, dificultando, impedindo e travando algumas vezes o ‘agredido’, a sua evolução”, explica.

Entretanto, apesar da seriedade da questão, as  vítimas desse tipo de violência permanecem invisíveis. Na Secretaria Municipal de Assistência Social de Irati, por exemplo, praticamente não há reclamações sobre casos como esse do motoboy. 

“Casos envolvendo preconceito racial e ou socioeconômico – diferente das violências contra criança, mulher e idoso, por exemplo –, dificilmente as pessoas procuram o CRAS [Centro de Referência em Assistência Social] ou o CREAS [Centro de Referência Especializado em Assistência Social] para denunciar um fato vivenciado, já ocorreu, mas ocasiões isoladas”, relata a secretária de Assistência Social de Irati, Sybel Dietrich.

Ela acredita que isso ocorre porque “talvez o preconceito racial e econômico ainda esteja muito naturalizado, o que faz com que as pessoas não nos procurem de imediato, já as violências contra idosos, por exemplo, tem mobilizado de outra forma”.

Segundo Sybel, a equipe da Secretaria de Assistência Social está preparada para atender e dar o auxílio necessário àqueles que forem vítima humilhação. “Uma das situações que a assistência social está na linha de frente é a atuação em situações vexatórias e de humilhação, tendo uma rede de serviços e corpo técnico especializado para assegurar o acolhimento dessas pessoas, acompanhando sua situação e caso seja necessário e de interesse do sujeito, inserir ele em outros serviços do município que busquem o acesso aos seus direitos sociais”, conta.

Agressor

Para a psicóloga Daniele Pires, o homem que praticou a agressão contra o motoboy, que foi retratada no vídeo que viralisou, também  precisa de tratamento.  “No caso do vídeo vejo preconceito e pobreza de espírito. Essa pessoa precisa de tratamento psicológico para se conhecer melhor, amar a si mesmo e aprender a respeitar as outras pessoas”, afirma. Ela defende que “o ser humano precisa trabalhar mais a humildade e a empatia para que a vida fique mais leve, e com menos danos psicológicos, rótulos, bulling”.

Educação

A importância dos pais darem bons exemplos aos filhos para evitar ofensas e agressões é comentada pela psicóloga. “As crianças aprendem com exemplos e repetições. Os pais precisam orientar o que é certo e errado. A boa conversa com os filhos é essencial. As atitudes dos pais no cotidiano enriquecem o desenvolvimento dos pequenos. Por exemplo, agradecer, cumprimentar, desculpar, ajudar. Não falar mal, não criticar a todos por tudo, perceber que tudo tem seu motivo e algo de positivo”, diz Daniele.

Promoções e problemas

Jackson Padilha conta que normalmente situações em que recebem tratamento ofensivo acontecem quando as empresas fazem promoções e não se preparam. “Atrasam os pedidos, a cozinha não vence e vai sobrar para o motoby”, conta. Segundo eles, muitas vezes o cliente não quer pagar pelo pedido que demorou a chegar e discute com o entregador. Entretanto, não entram em contato com a empresa responsável pelo produto para reclamar.

Os problemas e ofensas aos motoboys envolvem todo tipo de entrega, segundo Jackson. Remédios, produtos agropecuários, materiais de construção, dentre outros itens. “Não é só comida à noite, é com remédio, qualquer coisa”, diz.

Como reagir às agressões

A secretária de Assistência Social de Irati, Sybel Dietrich, explica o que as vítimas de ofensas, humilhações e tratamentos vexatórios podem fazer, legalmente.

“Qualquer pessoa que sinta que sua dignidade foi ferida deve registrar boletim de ocorrência e representar criminalmente o agressor, além de poder entrar com ação por danos morais, pela exposição pública a que foi submetida”, afirma Sybel.

Segundo ela, atualmente a pessoa ofendida tem uma rede de serviços aos quais pode ter acesso para a garantia do seu direito à dignidade. “A assistência social entra com o papel de acompanhamento e de inserção desse sujeito em outras políticas como na segurança pública (Delegacia, Polícia Militar), sistema de justiça (Ministério Público), saúde, educação, dentre outras, dependendo da demanda desse sujeito. Cada situação é analisada e acompanhada pela equipe técnica”, finaliza. 

 

Texto: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

 

COMENTÁRIOS