Mercado de trabalho: desafio entre vagas abertas versus qualificação e comprometimento

Paraná mantém alto número de vagas abertas, mas dificuldade em encontrar profissionais qualificados, comprometidos, responsáveis e com vontade de aprender compromete contratações, fato que se reflete também em Irati e região
O Paraná inicia 2026 com o mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, desafiador. Dados recentes das Agências do Trabalhador mostram milhares de vagas abertas em todo o Estado, especialmente nos setores da indústria, comércio, serviços e agropecuária. O Paraná segue entre os estados que mais intermediam contratações no país, mas o volume de oportunidades não tem significado, necessariamente, facilidade para preenchê-las.
Essa realidade estadual ajuda a explicar o cenário observado em Irati e região, onde a oferta de vagas permanece constante, mas a dificuldade em encontrar profissionais qualificados se tornou um dos principais entraves para empresas e empregadores.
Alta oferta de vagas e escassez de mão de obra qualificada
Segundo a gerente da Agência do Trabalhador de Irati, Maria Inez Robaszkievicz, as vagas com maior número de ofertas estão concentradas, principalmente, em funções operacionais — justamente aquelas que hoje apresentam maior dificuldade de preenchimento. “Os setores de concessão e manutenção de rodovias, supermercados e atividades sazonais durante o período de safra lideram a demanda, com vagas para operadores de conservação, ajudantes de sinalização, agentes de pedágio, motoristas, repositores, pedreiros, serventes e outras funções essenciais”, cita.
Ao mesmo tempo, as empresas relatam dificuldades para encontrar profissionais com o perfil e a qualificação necessários, especialmente para cargos operacionais que exigem experiência prévia ou conhecimentos técnicos específicos. “O cenário evidencia um desafio recorrente no mercado de trabalho regional: a alta oferta de vagas coexistindo com a escassez de mão de obra qualificada”.
De acordo com Maria Inez, o perfil das vagas e dos candidatos passou por mudanças significativas nos últimos anos, acompanhando transformações no próprio mercado de trabalho. “Hoje, as empresas estão menos focadas apenas em diploma e mais na capacidade real de fazer o trabalho. O que mais pesa na contratação atualmente é a qualificação técnica e as habilidades práticas. Cursos profissionalizantes, certificações e saber ‘colocar a mão na massa’ contam muito. A experiência continua importante, principalmente para vagas que exigem prática prévia. A escolaridade formal ainda é relevante, mas já não é o único fator decisivo — exceto em profissões regulamentadas”, detalha a responsável pela Agência do Trabalhador, ressaltando que saber fazer é um fator determinante, aliado à vontade de trabalhar, e que a experiência e a qualificação técnica seguem como os principais diferenciais.
Tecnologia amplia oportunidades, mas exige preparo
Outro ponto que influencia diretamente a relação entre vagas e candidatos é o avanço da tecnologia. Para a gerente, as plataformas digitais ampliaram o acesso às oportunidades, mas também escancararam desigualdades. “O uso de tecnologias e plataformas digitais tem facilitado o acesso ao emprego em Irati, pois permite que o trabalhador encontre vagas, envie currículos e se conecte com empresas de forma mais rápida, sem depender apenas do atendimento presencial. Por outro lado, ainda existem dificuldades para quem tem pouco acesso à internet ou baixa familiaridade com ferramentas digitais”, explica Maria Inez. Essa condição impacta o limite de aproveitamento dessas oportunidades.
Nesse contexto, a qualificação profissional, especialmente na área de tecnologia, surge como um diferencial cada vez mais importante. Em Irati, o Instituto Federal do Paraná (IFPR) tem atuado diretamente na formação de profissionais alinhados às novas demandas do mercado. O coordenador do curso de Bacharelado em Engenharia de Software do campus, professor Valter Estevam, destaca que a instituição oferece uma formação mais aprofundada na área. “Hoje, o IFPR Campus Irati oferece o curso de Bacharelado em Engenharia de Software. Esse curso substitui o Tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, que ofertou vagas nos últimos 10 anos e formou quase uma centena de excelentes profissionais”.
Estevam explica que o curso de Engenharia de Software tem duração de quatro anos e carga horária de 3.200 horas, o que possibilita ao IFPR ofertar uma formação ainda mais aprofundada em desenvolvimento de software, preparando o egresso não apenas para o mercado de trabalho atual, mas também para os desafios do futuro.
De acordo com o coordenador, a tecnologia está presente em quase tudo o que faz parte da rotina das pessoas hoje. “Quase todas as atividades humanas contemporâneas necessitam, em alguma medida, de recursos computacionais, sejam eles o acesso à internet, o uso de uma rede social, a conexão ao GPS para entregas e deslocamentos, a transferência eletrônica de dinheiro, a emissão de nota fiscal, entre muitos outros exemplos. Tudo isso demanda a construção e a manutenção de sistemas de informação, o que é feito por profissionais como os formados pelo IFPR”. Sobre a inserção desses profissionais no mercado, Estevam comenta que o retorno tem sido positivo na região.
O outro lado da contratação
Se, de um lado, o poder público e as instituições de ensino apontam a qualificação como caminho para reduzir o descompasso entre vagas e trabalhadores, do outro, as empresas convivem diariamente com o desafio de contratar. A percepção do setor empresarial ajuda a entender quais competências realmente pesam na prática e como o mercado local tem reagido a esse novo cenário.
Com 27 anos de atuação na área de recursos humanos, Paula Iurassek Rufino, supervisora de filial e gestora de RH, explica que as maiores dificuldades de contratação estão concentradas nas vagas operacionais e braçais. “Especialmente as que exigem disponibilidade de horário, trabalho em turnos e atividades físicas. Muitos candidatos buscam funções mais flexíveis, o que reduz o número de interessados e aumenta a rotatividade”.
Como resposta às exigências de flexibilidade na contratação, o uso de agências de trabalho tem sido adotado por empresas para atender demandas operacionais e sazonais. “Por meio do trabalho temporário, conforme a Lei nº 6.019, a empresa ganha agilidade, segurança jurídica e flexibilidade, com todo o processo de recrutamento e gestão contratual realizado pela agência, atendendo demandas sazonais e operacionais de forma eficiente”, explica.
Em sua avaliação técnica, o perfil buscado pelas empresas também mudou ao longo dos anos. Hoje, mais do que formação ou experiência, o comportamento do profissional tem sido decisivo no processo de contratação. “As habilidades comportamentais têm sido o principal fator na contratação. Comprometimento, responsabilidade, disponibilidade e vontade de aprender são decisivos, especialmente nas vagas operacionais. Formação e experiência podem ser desenvolvidas, mas postura e engajamento são determinantes para a permanência e crescimento do profissional”, afirma Paula. Trata-se de uma constatação que reflete a prática observada diariamente nos processos de recrutamento.
Fernanda Hraber

