Médico endocrinologista explica os prós e contras do uso do Mounjaro

Por Redação Hoje Centro Sul 8 min de leitura

Em quais situações o uso do Mounjaro tem recomendação médica? Quais alimentos e bebidas devem ser evitados durante o consumo do remédio? Por que o medicamento vindo do Paraguai pode prejudicar a saúde? O médico endocrinologista Matheo Augusto Morandi Stumpf esclarece estas e outras dúvida

Medicamento da moda, o Mounjaro tem sido amplamente utilizado para a perda de peso. No Brasil, apenas a farmacêutica Eli Lilly detém a patente até 2036 da substância Tirzepatida (que é a base do remédio).  Isso significa que apenas ela pode produzir e comercializar medicamentos feitos com esse composto no país, o que mantém os preços pouco acessíveis.

Para driblar o custo elevado do fármaco e a obrigatoriedade da prescrição médica para a compra em farmácias, opções irregulares do Paraguai se popularizaram, sobretudo nas redes sociais, o que gerou preocupação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Nesta semana, a Anvisa proibiu a comercialização, distribuição, importação e uso das canetas emagrecedoras Gluconex e Tirzedral no Brasil. Os dois produtos vinham sendo trazidos do Paraguai. 

Médico endocrinologista explica os prós e contras do uso do Mounjaro
Médico endocrinologista Matheo Augusto Morandi Stumpf

Diante desses fatos, a equipe do jornal Hoje Centro Sul entrou em contato com o médico endocrinologista Matheo Augusto Morandi Stumpf para esclarecer algumas das principais dúvidas sobre a utilização do Mounjaro. Em quais situações o uso do Mounjaro tem recomendação médica? Quais alimentos e bebidas devem ser evitados durante o consumo de Mounjaro? Como o medicamento vindo do Paraguai pode prejudicar a saúde das pessoas?

Estas e outras questões são explicadas pelo Dr. Matheo. Confira a entrevista:  

Jornal Hoje Centro Sul (HCS) – Como o senhor avalia os benefícios e riscos do medicamento Mounjaro?

Dr. Matheo Stumpf (MAMS) – O Mounjaro, nome comercial da Tirzepatida, é um análogo duplo do GIP e GLP-1, hormônios produzidos no intestino que têm função de saciedade e reduzem inflamação sistêmica. É um remédio, do ponto de vista cardiovascular, excelente, pois além de redução de peso, reduz chance de infarto, AVC, evolução para diabetes, entre outros. Os riscos maiores da medicação são seus efeitos colaterais, especialmente gastrointestinais (náusea, vômito, constipação), manejáveis com titulação lenta da dose e uso de sintomáticos (Vonau, Plasil).

Qual a importância da prescrição médica para o uso do medicamento?

MAMS – Até 2024 as medicações antiobesidade injetáveis não precisavam de receita para compra na farmácia. Isso estimulava o uso por pacientes sem indicação clínica e com risco de efeitos colaterais graves como desidratação e vômitos incoercíveis por uso de dosagem inadequada, mais alta que o recomendado. Atualmente a medicação precisa de 2 receitas brancas, uma ficando retida na farmácia.

Quais são os critérios clínicos mais utilizados para indicar o Mounjaro a um paciente?

MAMS – A indicação baseada em diretrizes médicas recomenda a prescrição de um medicamento antiobesidade em uma das duas situações:

1) paciente com índice de massa corporal – IMC (relação entre o peso dividido pela altura ao quadrado) acima de 30 kg/m² (ou seja, grau de obesidade)

2) IMC acima de 25 (ou seja, sobrepeso) desde que associado com circunferência abdominal aumentada ou com alguma comorbidade como pressão alta, diabetes, artrose, colesterol elevado, etc.

Quais são as consequências de interromper o tratamento de forma abrupta?

MAMS – A obesidade é uma doença crônica, assim como diabetes e pressão alta. O que acontece com um paciente hipertenso que suspende seus remédios? A pressão volta a subir. O mesmo ocorre com qualquer fármaco antiobesidade. A suspensão da medicação em geral leva a ganho de peso. Para evitar isso, o uso da medicação deve ser contínuo, as vezes em doses menores, só para se manter o peso perdido e evitar o reganho total.

Como o perfil do paciente (idade, peso, comorbidades) influencia os resultados do tratamento?

MAMS – Pacientes mais jovens e saudáveis tendem a perder mais peso com as medicações antiobesidade de uma forma geral, por serem mais ativos fisicamente, mais tolerantes aos efeitos colaterais com doses maiores e por usarem menos medicações concomitantes que podem reduzir a eficácia do tratamento.

Como identificar e evitar o uso de Mounjaro falsificado ou adquirido de forma irregular?

MAMS – O Mounjaro é fabricado pela farmacêutica americana Eli Lilly. Foi lançado em 2025 no Brasil e tem patente. Qualquer forma de adquirir a medicação fora de uma farmácia regular, em que o medicamento é original e foi aprovado pela ANVISA, é perigoso. A medicação manipulada (seja do Brasil ou do Paraguai) pode ter contaminantes, não ser asséptica com risco de infecção no local de aplicação, ter concentrações e farmacodinâmica diferentes da medicação original (ocasionado instabilidade de meia-vida) e com a molécula inativa (a medicação precisa de refrigeração para ter estabilidade). O Ministério Público de algumas cidades já tem agido contra o contrabando e tráfico de algumas versões falsificadas.

Quais são os principais riscos de usar Mounjaro sem prescrição médica?

MAMS – O acompanhamento médico é fundamental no tratamento da obesidade. Tanto para mitigar os efeitos colaterais da medicação quanto para se avaliar posologia, titulação e dose de manutenção.

Quais são os principais desafios no acesso ao medicamento para os pacientes que precisam?

MAMS – No Brasil, 7 em cada 10 pessoas têm sobrepeso ou obesidade. Infelizmente o SUS não tem nenhum medicamento antiobesidade disponível gratuitamente. O custo do Mounjaro, por ser uma medicação ainda com patente e mais moderna, é bastante elevado, próximo a 2 mil reais por mês. Porém, com o tempo e concorrência, a tendência é o acesso ficar maior. O Ozempic/Wegovy (princípio ativo Semaglutida, agonista somente do GLP-1) teve sua patente finalizada este mês. Até o final do ano esperamos que várias apresentações genéricas aprovadas pela ANVISA, após testes de farmacocinética e segurança, sejam disponibilizadas nas farmácias, reduzindo o preço das medicações e aumentado sua acessibilidade.

Existe algum alimento ou bebida que se deve evitar durante o uso?

MAMS – Alimentos ultraprocessados e ricos em calorias geralmente exacerbam os efeitos colaterais da medicação. Por isso orienta-se evitar álcool, frituras e açúcares (bolo, refrigerantes que não sejam zero com adoçantes, etc).

Quem não deve usar Mounjaro?

MAMS – As principais contraindicações em bula do Mounjaro são: alergia ao princípio ativo, história de câncer medular de tireoide, pedra na vesícula não operada e história de pancreatite aguda grave de etiologia não determinada, amamentação e gestação.

Esse medicamento pode causar dependência ou efeito rebote após a interrupção?

MAMS – A medicação não causa dependência nem sintomas de abstinência após sua suspensão. Mas como comentado anteriormente obesidade é uma doença crônica. A tendência do corpo é sempre retornar ao seu peso máximo da vida. Portanto, na interrupção total, há risco de reganho de peso.

É feito algum tipo de orientação para pacientes que usam o medicamento apenas por estética?

Quais orientações os médicos têm recebido para lidar com o uso crescente desse tipo de medicamento?

MAMS – Pacientes sem indicação de droga antiobesidade não devem fazer uso por risco de terem efeitos colaterais indesejados e de evolução para distúrbios de imagem corporal como anorexia e bulimia. O Mounjaro é hoje a medicação com maior potência em perda de peso aprovado pela ANVISA no Brasil, chegando em média a 20 kg. Ou seja, o uso em pacientes sem obesidade ou sobrepeso têm risco de evoluir com desnutrição, IMC muito baixo, sarcopenia (baixa massa muscular) devido ao seu grande efeito. O ideal, nestes casos sem indicação, é orientar somente reeducação alimentar e prática regular de exercícios físicos, que já auxiliam na mudança de composição corporal e também em menor grau na redução de peso.

Luisa Cieslinski

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