Mais do que promessas, o que o Centro Sul espera de seus representantes para romper gargalos históricos

Por Redação Hoje Centro Sul • • 11 min de leitura

Comércio, saúde, agronegócio, inovação e gestão: lideranças regionais traçam uma agenda de reivindicações que deve orientar o compromisso de eleitos com o desenvolvimento de Irati e região

A cada período eleitoral, a região assiste à movimentação de campanhas com candidatos vindos de todos os lugares em busca do voto do eleitorado local. No entanto, o Centro Sul enfrenta desafios estruturais crônicos que exigem articulação, orçamento e compromisso contínuo nas esferas estadual e federal. De problemas de logística na infraestrutura rodoviária e rural à necessidade de descentralizar a saúde de alta complexidade; da retenção de jovens talentos à interiorização da inovação e à agregação de valor ao agronegócio: o desenvolvimento regional depende de políticas públicas sólidas, permanentes e integradas com urgência.

Com as eleições neste domingo (04), a escolha nas urnas ganha um peso decisivo. Para construir um projeto de reivindicações fundamentado nas reais necessidades, lideranças de vários setores trazem um diagnóstico analítico de prioridades da região de Irati.

Articulação municipal: as pautas prioritárias da Amcespar

Na linha de frente da gestão pública municipal, a Associação dos Municípios do Centro do Paraná (Amcespar) atua como a voz institucional dos prefeitos na articulação de pautas prioritárias. Diante do cenário em que o eleitorado regional, muitas vezes, distribui seus votos entre candidatos de diferentes lugares, a entidade defende que a prioridade inegociável deve ser o retorno efetivo em investimentos para o Centro Sul.

O prefeito de Rio Azul e presidente da Amcespar, Leandro Jasinski, reforça que os planos de governo e as propostas dos futuros parlamentares precisam contemplar as especificidades dos municípios de forma integrada. “A nossa região possui demandas importantes que precisam ser tratadas de forma regionalizada. Entre as principais prioridades estão a melhoria da infraestrutura e da logística, o fortalecimento da agricultura e do agronegócio, o incentivo ao comércio, à indústria e à geração de empregos, além de investimentos em saúde, educação, saneamento, habitação e conectividade”. Jasinski diz que o Centro Sul tem potencial para crescer ainda mais, mas são necessários investimentos que considerem as características dos municípios. “Quando um município avança, toda a região se fortalece”, destaca.

O presidente da associação enfatiza que o papel da Amcespar, após a abertura das urnas, será o de monitoramento ostensivo e cobrança direta de compromissos firmados com a população local. “Independentemente de partido ou de onde seja o candidato, o compromisso deve ser com o desenvolvimento do Centro Sul. A Amcespar manterá um diálogo permanente com deputados, senadores, Governo do Estado e Governo Federal, apresentando demandas de forma organizada e acompanhando a destinação dos recursos. Fortalecer a união entre os prefeitos dá mais força à região”. O prefeito cobra que quem recebe o apoio e os votos da população precisará compreender que há uma responsabilidade com a região.

Mais do que promessas, o que o Centro Sul espera de seus representantes para romper gargalos históricos

Agro: defender a estrutura fundiária e agregar valor

A região possui uma vocação agrícola expressiva. Em Irati, por exemplo, o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária ultrapassa a marca de R$ 1 bilhão, posicionando o município em 30º lugar no Paraná, figurando entre os 7,5% maiores produtores de um estado com 399 municípios. Mais do que os números do campo, o grande diferencial local reside na sua estrutura agrária, composta majoritariamente por pequenos e médios produtores que sustentam diretamente a economia das cidades.

Quem traz esses dados é o presidente do Sindicato Rural de Irati, Mesaque Veres, que também chama a atenção para o impacto socioeconômico de proteger essa população rural e evitar o esvaziamento do campo, citando transformações históricas ocorridas em outras partes do Paraná, após eventos climáticos severos na década de 1970.

“Nossa maior riqueza, além da produção, é termos uma população muito significativa no campo, constituída por pequenos e médios produtores. Quando a estrutura fundiária se altera bruscamente e o pequeno sitiante vende sua área, a população rural migra, e o impacto no comércio local é devastador. Um município do Noroeste do estado, por exemplo, tinha 54 mil habitantes em 1970 e hoje tem menos de 10 mil. A agricultura continuou forte lá com grandes fazendas, mas a fonte primária de geração de renda das famílias no comércio urbano encolheu drasticamente”, reflete Mesaque.

O líder sindical ressalta que o avanço das monoculturas de grãos, como a soja e o milho, é relevante, mas expõe o pequeno agricultor à volatilidade de preços e às margens apertadas da escala. A saída estratégica passa pelo apoio do Estado ao desenvolvimento e fortalecimento da produção e industrialização internas.

“A soja e o milho ganham em escala e são mais favoráveis à grande produção. O grande desafio para o pequeno e médio produtor é ter renda satisfatória. Precisamos urgente de alternativas para agregar valor à produção local: em vez de apenas vender o grão, transformar o milho e a soja em ração, e a ração em proteína animal (suínos, aves e peixes), além de criar agroindústrias de conservas e derivados. O oeste do Paraná, em municípios como Toledo e Palotina, fez essa lição de casa através do cooperativismo e da integração justa”, aponta ele.

Para garantir que o jovem permaneça no campo com dignidade, o presidente do Sindicato Rural cobra a superação de gargalos básicos na zona rural e o fortalecimento de mecanismos estaduais e federais de proteção, como o seguro agrícola.

“O campo funciona 24 horas por dia e precisa de estradas rurais de qualidade, energia elétrica estável, conectividade com internet e serviços de saúde e educação no mesmo nível da cidade. Além disso, diante das severas oscilações climáticas, o governo federal precisa garantir um seguro rural sólido. Quando há frustração de safra, ocorre o ‘efeito chicote’: o produtor deixa de produzir e o prejuízo em cascata atinge o comércio e a indústria da cidade”, Veres conclui que o Estado precisa ser mais enxuto, eficiente e fomentar o desenvolvimento de dentro para fora”.

Infraestrutura e Comércio: os desafios do transporte e das empresas

O crescimento sustentável do comércio, dos serviços e da indústria está diretamente atrelado à capacidade da região de oferecer um ambiente de negócios estruturado e vias seguras para o transporte de cargas e passageiros. Na avaliação da Associação Comercial e Empresarial de Irati (Aciai), as intervenções na malha rodoviária são a virada de chave para a competitividade regional.

“A principal demanda é criar condições para que a região cresça de forma planejada. Isso passa por investir em infraestrutura rodoviária, especialmente na BR-153 e nos contornos de Irati e Imbituva, melhorar a conexão entre os municípios e garantir mais segurança e fluidez para quem transporta pessoas e mercadorias”, pontua a presidente da Aciai, Samara Coelho.

Além das obras logísticas para redução de custos de frete, o fortalecimento das empresas já instaladas e a atração de novas indústrias dependem do acesso a áreas industriais equipadas e de políticas públicas desburocratizadas.

“Precisamos oferecer áreas industriais preparadas, com energia, água, saneamento, internet de qualidade e bons acessos rodoviários. O desenvolvimento regional não depende apenas de atrair novos empreendimentos, mas de dar condições para que os negócios locais cresçam, invistam e contratem. A Aciai defende que essas decisões sejam construídas em diálogo constante entre os municípios e o setor produtivo”, acrescenta Samara.

Saúde: estruturação hospitalar regional e o peso da representatividade

Na área da saúde, os desafios enfrentados pela população do interior evidenciam a necessidade de descentralizar atendimentos de média e alta complexidade, reduzindo a dependência de grandes centros, como Curitiba ou Ponta Grossa, para procedimentos de urgência e especialidades.

Com a bagagem de quem já esteve à frente da Prefeitura de Fernandes Pinheiro, presidiu o Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS/Amcespar) e atualmente chefia a 4ª Regional de Saúde, Cleonice Schuck ressalta que a consolidação de uma rede hospitalar regionalizada é o único caminho para assegurar atendimento justo e humanizado.

“O apoio à estruturação dos hospitais do interior do estado para atendimento de média e alta complexidade é fundamental. A organização da rede de atendimento à saúde faz toda a diferença na qualidade oferecida, de forma justa, igualitária e com prioridades para os casos emergenciais”, afirma Cleonice.

A gestora reforça ainda que a atração de investimentos e a ampliação de serviços de saúde na região exigem articulação política sólida aliada ao compromisso técnico e ético das equipes de gestão. “O apoio político com forte representatividade regional, com certeza, favorece o repasse de recursos e a garantia de maior incentivo e defesa do atendimento de saúde com mais qualidade — desde que tenhamos profissionais competentes e compromissados com o bem-estar da população, desempenhando com seriedade e empatia a função proposta para o bom aproveitamento das oportunidades ofertadas”, pondera a chefe da 4ª Regional de Saúde.

A inovação tecnológica como fator multiplicador econômico

Embora o agronegócio, o setor moveleiro/madeireiro e os serviços sejam os motores tradicionais da economia regional, a sustentabilidade de longo prazo exige a incorporação de tecnologia e o incentivo à nova economia de base tecnológica.

O professor Diogo Fernandes, diretor da Incubadora de Negócios de Irati (Ineti) da Unicentro, destaca que o investimento público em inovação funciona como uma engrenagem que moderniza setores consolidados e abre margem para novos mercados.

“Nossa região tem uma forte vocação no agro, na madeira e nos serviços. Esses três setores continuam essenciais, mas uma economia que só depende deles fica vulnerável a oscilações de preço, clima e mercado. O investimento em inovação funciona como um multiplicador: leva tecnologia para o que já fazemos bem, com automação para pequenos negócios e ferramentas digitais para produtores, e abre espaço para novas oportunidades. Na incubadora, vemos que um recurso público, mesmo pequeno quando bem aplicado, transforma uma ideia local em empresa, gerando emprego e arrecadação aqui dentro”, detalha Fernandes.

Ele aborda também a importância da continuidade nas políticas de ciência e tecnologia como ferramenta para deter o êxodo de jovens qualificados formados pelas instituições de ensino superior do Centro Sul. “O jovem não sai da região apenas por salário; ele sai porque não vê a oportunidade de construir algo relevante aqui. Políticas de continuidade, como bolsas de iniciação científica e inovação conectadas a problemas locais, programas de estágio e melhoria da conectividade, são fundamentais”. O professor defende que o essencial é que sejam políticas de Estado, e não de mandato, pois a retenção de talentos exige previsibilidade.

Na visão da Ineti/Unicentro, os representantes políticos precisam atuar na descentralização dos recursos estaduais e federais de fomento, desburocratizando convênios entre universidades, poder público e iniciativa privada. “Editais de fomento e linhas de crédito são vitais para a subvenção de startups em estágio inicial. A descentralização de recursos é essencial para que as empresas que nascem no interior permaneçam aqui e não precisem se deslocar para os grandes centros para viabilizar suas ideias”. A Ineti atua, exatamente, como essa ponte entre o conhecimento acadêmico e a geração de empregos de qualidade.

Mais do que promessas, o que o Centro Sul espera de seus representantes para romper gargalos históricos
Esta nota é uma reprodução da edição impressa do Jornal Hoje Centro Sul de 02 de outubro

Fernanda Hraber

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