Informação, afeto e responsabilidade com a vida transformam o diagnóstico precoce de câncer
Para além dos laços das campanhas de saúde, Outubro Rosa e Novembro Azul, histórias de superação, acolhimento e busca ativa por conscientização mostram que prevenir é um ato diário de coragem e amor próprio
Todos os anos, o calendário ganha tonalidades marcantes em outubro, com o rosa que ressalta o combate ao câncer de mama e, em novembro, o azul que volta os olhares para a saúde masculina. Mas além do apelo visual destas campanhas de saúde, o verdadeiro divisor de águas entre a vida e o avanço silencioso de uma doença está na informação contínua, na quebra de tabus e no trabalho dos postos de saúde.
Na prática, a conscientização sobre este assunto tão importante ganha vida quando sai da teoria e da fala, e alcança o cotidiano das pessoas. Em Irati, a mobilização ganha força com o acolhimento comunitário, a reestruturação da atenção primária e a coragem de quem enfrentou o diagnóstico de frente e hoje usa sua voz como exemplo para salvar outras vidas.
O olho no olho que transforma escolhas
Para que a mensagem da prevenção ultrapasse a barreira da desinformação, a busca ativa tem se mostrado um instrumento poderoso. À frente da Rede Feminina de Combate ao Câncer, a presidente Ângela Maria Hilgemberg destaca que o trabalho itinerante da instituição, como as palestras ministradas em empresas locais, escolas e universidades, estabelece um canal direto e acessível de diálogo com a comunidade.
Ângela relata que o engajamento do público e os questionamentos que surgem durante e após esses encontros revelam o quanto as pessoas ainda desconhecem o próprio corpo e os fatores de risco evitáveis. “Nós conseguimos mostrar que, muito além do que as pessoas imaginam que sabem, existe um leque de conhecimentos relacionados ao autocuidado e à importância do diagnóstico precoce. Ouvimos relatos de pessoas que, definitivamente, decidem mudar hábitos e melhorar escolhas cotidianas que influenciam no surgimento de cânceres evitáveis”, observa a presidente da Rede Feminina.
Para ela, a informação atua como um verdadeiro convite à autorresponsabilidade. Ao compreenderem o impacto do modo de vida na saúde, os participantes das palestras tornam-se multiplicadores em seus lares e ambientes de trabalho, espalhando uma cultura de cuidado preventivo baseada em evidências. “Essas pessoas passam a compreender que os exames de imagem são o padrão ouro para o diagnóstico precoce. A informação pulverizada gera uma sociedade mais consciente e protegida”, completa Ângela.
Atenção primária busca qualidade da consulta acima da corrida por exames
Se por um lado as mobilizações provocam um despertar na população, por outro, a gestão da saúde pública municipal busca organizar essa procura de forma estratégica. O coordenador da Atenção Primária de Irati, Gean Carlos dos Santos, explica que o município registra, historicamente, um volume expressivo de atendimentos no último trimestre do ano, ultrapassando a marca de mil coletas de exames citopatológicos entre os meses de outubro, novembro e dezembro.
Contudo, a diretriz adotada pela Secretaria Municipal de Saúde foca na transformação desse modelo. Segundo o coordenador, as equipes foram orientadas a priorizar a qualidade do atendimento e a escuta individualizada em vez da busca puramente quantitativa durante as campanhas.
“Neste ano, estamos trabalhando um pouco diferente. A orientação às equipes está mais voltada para a qualidade das consultas e do acompanhamento do que simplesmente para aumentar a quantidade de exames realizados durante a campanha. Sempre se teve a cultura de fazer o exame, mas o exame faz apenas uma parte do processo, não deve ser o foco principal”, explica Gean.
O coordenador argumenta que a concentração de agendamentos apenas nos meses temáticos pode gerar um efeito gargalo nos serviços de saúde, impactando diretamente o tempo de resposta aos pacientes que mais precisam de agilidade. “Quando muitas pessoas deixam para procurar o serviço somente em outubro, por exemplo, pode haver uma concentração maior de exames, aumentando o tempo para liberação dos resultados e, consequentemente, podendo atrasar a investigação de possíveis alterações”, alerta o coordenador.
Para garantir o acesso facilitado e permanente da população aos serviços de prevenção durante todos os meses, Gean reforça que as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município mantêm cronogramas de atendimento com horários ampliados e noturnos. Diante de qualquer alteração identificada nos exames de rotina, a própria equipe da UBS acolhe o morador, solicita exames complementares e realiza o encaminhamento para a rede especializada, acompanhando o caso do início ao fim do tratamento.
O medo do diagnóstico e a negação que adia a cura
No campo médico, a agilidade na busca por atendimento é apontada como o fator decisivo para o êxito terapêutico. O Dr.José Clemente Linhares, diretor médico do Hospital Erasto Gaertner, uma referência estadual no tratamento oncológico, analisa que, embora as mulheres costumem ser mais atentas e assíduas aos exames preventivos de rotina, o temor psicológico ainda afasta parcelas da população dos consultórios.
O médico relata que, em alguns casos, pacientes identificam alterações no corpo, mas entram em um perigoso processo de negação, agindo como se a ausência do diagnóstico pudesse fazer o problema desaparecer.
“Às vezes, nos deparamos com doenças em estágios avançados que poderiam ter sido diagnosticadas precocemente. Ao perceberem alguma alteração, algumas pessoas reagem com negação por medo. Embora seja uma exceção e não a regra, precisamos reforçar que a dúvida não elimina a doença; apenas o diagnóstico rápido permite a cura”, alerta o especialista.
A força da intuição e a certeza da vida: a jornada de Marina
A teoria médica e os dados de saúde pública ganham sentido humano na história de Marina Harmatiuk. Acostumada a realizar check-ups anuais rigorosos, Marina mantinha seus exames de mamografia e ecografia mamária rigorosamente em dia. No entanto, menos de um ano após o último laudo sem alterações, um pressentimento persistente fez com que ela decidisse realizar o autoexame de mama em casa.
“Passei uma semana com esse pressentimento e com medo de descobrir algo quando realmente fizesse o autoexame. Assim que me toquei, já senti um nódulo e não tive dúvidas do que se tratava”, relembra Marina.
A partir daquele toque, a agilidade do atendimento fez toda a diferença. Apenas dois dias após sentir o nódulo, ela realizou nova mamografia e ecografia, que apontaram alta suspeita de malignidade. Acolhida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Irati, a resposta do serviço público foi rápida: em apenas dois meses após a identificação inicial, ela já dava início à primeira sessão de quimioterapia.
A rotina das infusões, iniciada em junho, trouxe desafios físicos e emocionais severos, exigindo resiliência diariamente. Contudo, Marina encontrou na rede de apoio de familiares e amigos o pilar necessário para atravessar o período mais delicado da jornada.
“A quimioterapia é algo que abala demais, não só pelos sintomas físicos, mas pela fragilidade com que a gente se vê. O apoio da família e dos amigos têm sido essencial. Fico muito emocionada quando vejo o cuidado do meu marido, dos meus filhos e da minha mãe. Amigos antigos e pessoas que surgiram agora me emocionam com mensagens e orações. Mesmo em um momento tão difícil, me encanta ver como as pessoas têm sido solidárias”, compartilha ela.
Na reta final do ciclo de quimioterapia com cirurgia e radioterapia previstas na sequência, Marina transformou o diagnóstico em um divisor de águas na forma como encara o cotidiano. A superação do choque inicial deu lugar a um sentimento profundo de gratidão e ao desejo de viver cada instante com intensidade. “Desde que saí do choque do diagnóstico, nunca tive dúvidas de que a cura viria. Hoje, mesmo fazendo quimioterapia, me sinto mais viva do que nunca. Saber que tenho uma doença agressiva, mas que ganhei uma segunda chance de continuar a viver, me faz querer aproveitar cada minuto”, afirma.
O depoimento de Marina serve como um alerta vivo sobre a importância da autoatenção permanente e do fim do estigma que ainda cerca a oncologia. Para ela, o diagnóstico precoce foi a chave que aumentou suas chances e tornou o processo mais tolerável. “Se não fosse o autoexame que fiz, teria descoberto bem mais tarde. Tenho muita confiança na ciência e sei que as chances aumentaram muito com o diagnóstico precoce. Pensar em câncer assusta, mas na maioria das vezes, não vai ser nada. E caso seja, é tratável: não é mais uma sentença de morte como antigamente”, conclui Marina, inspirando outras mulheres a priorizarem o próprio corpo.
“Homem de verdade também se cuida”: a lição de Brandalize
Se a atenção feminina evolui a passos largos, a saúde masculina ainda esbarra em velhos tabus, na vergonha e na resistência dos homens em procurarem atendimento médico preventivo. Quebrar essa barreira de silêncio exige coragem — uma virtude que Élcio José Brandalize conhece e testemunha de perto.
Aos 33 anos, ao perceber um desconforto atípico e uma alteração na região do pescoço, Brandalize não adiou a busca por respostas. Após passar por exames minuciosos, veio o diagnóstico de nódulos na tireoide, exigindo uma cirurgia de grande porte para a remoção total da glândula.
O procedimento trouxe um impacto imediato para a sua rotina: a necessidade do uso de traqueostomia e um longo período de silêncio forçado, que colocou à prova sua força emocional. “Foi um grande susto, pois nunca havia enfrentado uma cirurgia daquela gravidade. Fiquei vários dias sem falar, usando a traqueostomia, e sofri muito porque cheguei a pensar que nunca mais recuperaria a minha voz. Imagine só, eu, o Brandalize, sem poder falar! Foi um período de muita angústia, medo e incerteza”, relembra.
Além da intervenção cirúrgica, o pós-operatório exigiu disciplina e resiliência diante dos protocolos agressivos da oncologia. A necessidade de isolamento hospitalar e a restrição alimentar severa marcaram uma das fases mais complexas da sua recuperação. “O tratamento, após a cirurgia, também foi muito sofrido. Precisar ficar sem consumir sal por conta do tratamento com iodo e permanecer totalmente isolado foram algumas das partes mais difíceis de todo esse processo”, conta Élcio.
Quando o capítulo parecia superado, o destino exigiu nova dose de bravura. Em 2022, durante uma consulta médica de rotina, os exames apontaram a necessidade de uma nova intervenção cirúrgica, fazendo com que ele revivesse o enfrentamento contra a doença, desta vez com a maturidade de quem já conhecia o caminho.
A dupla vitória contra o câncer transforma Brandalize em um porta-voz da conscientização e da quebra de preconceitos em relação aos cuidados com a saúde masculina. Para ele, o autocuidado não diminui a masculinidade, pelo contrário, reforça a responsabilidade com a própria vida e com a família. “Se hoje eu pudesse deixar uma mensagem para cada homem, seria esta: cuidar de si mesmo não é sinal de fraqueza. É sinal de inteligência, coragem e respeito pela própria vida. Não espere o problema se agravar para procurar um médico, nem deixe para cuidar da saúde apenas quando o corpo der sinais de que algo está errado. Homem de verdade também se cuida. Prevenir é um ato de coragem”, conclui Brandalize.
Fernanda Hraber


