Globista e trapezista, Luisa conta como educação e cultura se integram no dia a dia de artistas do circo
Você já parou para pensar como é nascer e crescer em uma família circense? Com a vida nômade, é possível estudar? Como são definidas as atividades que cada um terá no circo? Como é a rotina diária? Estas e outras perguntas são respondidas pela estudante de jornalismo e artista do Circo Torricceli, Luisa Cieslinski, que relata com paixão sua experiência circense
A infância no circo é um assunto explicado diversas vezes na vida de artistas mirins. A mudança recorrente de escolas traz essas perguntas incontáveis vezes: “Como vocês fazem para estudar? Por quantas escolas passam por ano? Onde vocês moram?” E nós, crianças que cresceram no circo, com todo o estrelismo, adoramos responder a elas outra vez.
A arte do circo atravessa gerações, e é conhecida por ser uma cultura que alcança grandes e pequenas cidades. Mesmo com uma grande quantidade de famílias tradicionais de circo no Brasil, o estilo de vida de crianças nômades ainda é algo pouco conhecido. É fácil me recordar de vários momentos em que ouvi: “Como vocês conseguem mudar de escolas tantas vezes?” e pensei: “Como vocês podem passar tanto tempo em uma só?”
Cultura e desenvolvimento
A juventude circense é marcada por brincadeiras, estudos e ensaios. É um ambiente rico para o desenvolvimento, unindo cultura, expressão corporal e criatividade. Atividades como malabarismo, acrobacias e mímica desenvolvem a coordenação motora, promovem competências socioemocionais (como confiança e espírito de cooperação) e despertam a imaginação, tornando o aprendizado uma experiência lúdica e sensorial. Existe um espírito de comunidade inexplicável entre as crianças do circo, onde se estuda nas mesmas escolas, e na volta se brinca de circo, tornando os ensaios atividades divertidas, de compartilhamento de experiências, com uma competitividade saudável.
A arte circense é culturalmente passada de pais para filhos. Nós aprendemos naturalmente as técnicas e como funcionam os equipamentos e tradições circenses que perduram há décadas, trazendo um aprendizado que não existe em outro lugar.
O circo carrega a existência de uma cultura apaixonante, que tem muita dificuldade de documentar acontecimentos e transmitir como realmente é a vida no circo. Normalmente, os documentários de pessoas “da praça” são incapazes de penetrar no âmago dos grandes circos.
Educação
Além das atividades que passam a cultura de geração para geração, o circo contemporâneo é um local que valoriza o estudo e a capacidade de raciocínio, afinal, a apresentação nos espetáculos é apenas a ponta do iceberg da vida circense. A gestão dessas empresas envolve saberes financeiros, educação física e gestão administrativa. As crianças do circo mudam de escola cerca de uma vez por mês (sempre que o circo muda de cidade) e apesar de terem direito à educação garantido por lei (Art. 29 da Lei nº 6.533/1978), enfrentamos desafios com relação a falta de preparo das instituições e preconceitos ligados ao nomadismo.
A falta de conhecimento das instituições nos obriga a muitas vezes ter que explicar as leis para diretorias, exigindo vagas para os jovens que estão cursando o ensino fundamental e médio, mas aos poucos, a conquista dos direitos públicos das famílias circenses vai acontecendo.

Ensaios
Os treinamentos diários na primeira infância das crianças de circo acontecem como brincadeiras. Aprendemos a jogar malabares, saltar e nos movimentar no picadeiro. É o momento de decidir quais artes temos mais afinidade.
Ao atingir a juventude, a experiência se torna mais individual, permitindo que os jovens escolham seus horários e as modalidades que querem ensaiar, sempre acompanhados de um professor adulto.
Nicolas Zanquetin, por exemplo, é um dos mais jovens trapezistas a dar um mortal duplo no trapézio voador. Após incansáveis tentativas, o garoto de apenas 15 anos conseguiu executar a proeza, e muito disso se deve ao estilo dos treinamentos feitos no circo. Existe não só um incentivo por parte dos colegas, mas diversão nos ensaios, brincadeiras e discórdias, o que faz com que o aprender se torne interessante para o adolescente.
Alguns interesses desabrocham mais lentamente. Com 17 anos, eu comecei os treinamentos no globo da morte, número que exige meses de treinamento árduo para ser realizado, e uma das atrações mais perigosas do mundo do circo. Os ensaios são repetitivos, a arte não permite erros, e cria uma afinidade com a adrenalina por parte dos motoqueiros.
Os horários se modificam dependendo do turno da escola dos mais jovens. Os adolescentes do Circo Torricceli têm a manhã e o final da tarde para os ensaios, sempre respeitando a hora dos estudos, e os adultos acompanham esses horários, sendo uma arte que necessita de constante treinamento para ser exercida. É claro que aproveitamos após os espetáculos para voltar aos ensaios, afinal, para o povo do circo, estar no picadeiro é eletrizante.
As conquistas para os direitos públicos para famílias circenses ainda estão em andamento, e cada vez mais a educação brasileira reconhece os métodos de ensino circenses, buscando coloca-los em prática em escolas e outras instituições, visando a melhora das habilidades físicas e cognitivas das crianças. Essa nova visão da vida circense traz melhores chances de documentação dessas famílias, o que facilita a criação de leis para facilitar a existência da vida, dos direitos e da arte do circo.
Circo de tradição familiar é reconhecido como patrimônio cultural
No dia 11 de março deste ano, o Circo de Tradição Familiar foi oficialmente inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão do patrimônio cultural do Brasil. A 112ª reunião do conselho consultivo do patrimônio cultural trouxe reconhecimento para as famílias que vivem da arte do circo há gerações. O conselho destacou o circo como referência cultural de relevância nacional, oficialmente reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Luisa Cieslinski


