Finitude: um dos maiores tabus da humanidade, como encará-la?
Ressignificar a finitude é um dos grandes desafios da maioria das pessoas, tanto daquelas que têm a consciência que estão passando por essa fase, como de familiares e amigos delas. O processo inclui vivenciar a dor e deparar-se com questionamentos como: O que faz sentido na sua vida? O que te traz alegria? O que é sagrado para você? Por outro lado, perdas abruptas também trazem a dificuldade de encarar a finitude
O dia 2 de novembro carrega, por tradição, o silêncio, as flores sobre as lápides e a lembrança daqueles que já partiram. No entanto, por trás do ritual de visitas aos cemitérios, também está um dos maiores tabus da humanidade: a finitude. Em uma sociedade que cultua a produtividade, a juventude e a eterna busca pela felicidade a qualquer custo, encarar o fim da vida ainda é um exercício desconfortável. Mas por que temos tanto medo da morte, se ela é a única certeza absoluta da existência?
Para a médica Marcella Gomes, especialista em Cuidados Paliativos com dedicação diária ao acompanhamento de pacientes oncológicos e em estágio avançado, o primeiro passo para lidar com essa realidade é compreender que o cuidado humano não se esgota quando a cura médica deixa de ser possível. “Acredito que uma das maiores transformações que os Cuidados Paliativos nos proporcionam é compreender que, mesmo quando não há mais possibilidade de cura, sempre existe algo a ser feito por aquele paciente. Sempre”, destaca a médica.
Segundo a especialista, a medicina, durante muito tempo, foi associada exclusivamente à ideia de curar. No entanto, quando a doença avança e as terapias modificadoras encontram limites, o papel profissional se transforma. “Passamos a olhar ainda mais atentamente para a pessoa que existe por trás do diagnóstico, em todas as suas esferas, seja física, espiritual, social e psicológica. O que ela sente, o que lhe causa sofrimento, o que é importante para ela, qual o seu sagrado, quais são seus medos e o que ainda lhe traz sentido e alegria. Entender que nem sempre se pode curar, mas podemos transformar, profundamente, a maneira como uma pessoa vive esse percurso. E isso não é pouco. Isso é medicina em sua forma mais humana”, reforça a Dra. Marcella.
O tabu da morte e o contraste dos lutos
O processo de despedida assume caminhos muito diferentes, dependendo de como a morte se apresenta. O psicólogo William Ferreira, docente do curso de Psicologia da Unicentro, aponta que as vivências do luto dividem-se em realidades distintas, mas igualmente complexas.
“Uma cultura que tenta afastar a dor também encontra dificuldade para falar sobre a finitude. Vivemos em uma sociedade que valoriza muito o ganho, a produtividade e a felicidade, como se tivéssemos que estar sempre conquistando alguma coisa e evitando tudo aquilo que nos faz sofrer. A morte nos confronta com os limites desse ideal”, analisa o psicólogo.
Ferreira explica que o medo da morte está profundamente ligado ao valor que depositamos nos vínculos. “Quando convivemos com alguém que nos ama, também nos reconhecemos no olhar dessa pessoa, na maneira como ela nos acolhe e na história que construímos juntos. Isso fortalece o senso de quem somos. A morte interrompe essa presença, e isso pode ser muito difícil de compreender”, pontua.
Além disso, ele faz uma distinção fundamental no processo: a diferença entre dor e sofrimento. Para William, a dor é inerente à vida e às perdas, mas o sofrimento muitas vezes entra em cena quando tentamos lutar contra essa dor ou evitar senti-la. No luto, o caminho não é eliminar a dor, mas aprender a acolher e integrá-la à nossa história.
Na avaliação do psicólogo, as vivências também se dividem entre o luto antecipatório (quando há tempo de acompanhamento em doenças prolongadas) e o luto agudo (gerado por perdas abruptas). “Quando a morte é repentina, o impacto gerado é muito particular. A pessoa pode experimentar o choque, a incredulidade e uma dificuldade inicial para compreender o que aconteceu. Já quando existe uma doença prolongada, a família pode começar a vivenciar perdas antes da morte propriamente dita. Há mudanças na rotina, nos papéis familiares e um desgaste emocional importante. De qualquer forma, o fato de a morte ser esperada não significa que a família esteja preparada para ela”, detalha o psicólogo.

O eco de uma partida repentina
As teorias da Medicina e da Psicologia podem ser compreendidas na história de quem viveu o impacto da ausência de perto. Natural de Irati e hoje residente em Santa Catarina, Marinice Teleginski guarda na memória a madrugada do dia 2 de maio de 2020 como o divisor de águas em sua vida.
Naquela madrugada, no início da pandemia de COVID-19, uma ligação insistente da cunhada trouxe a notícia que parecia impossível: seu irmão, Reginaldo, havia sofrido um acidente de trânsito. Aos 27 anos, estudante de Agronomia e faltando pouco mais de um ano para se formar, ele teve a vida interrompida de forma súbita.
“Eu jamais imaginava que seria algo relacionado a ele. Ele era o braço direito do meu pai no sítio, estava sempre em volta do ninho. E tudo aconteceu no início de uma pandemia, quando todo mundo já estava com medo de perder os familiares para a doença. No nosso caso, a gente acabou perdendo-o de maneira muito abrupta num acidente”, relata Marinice.
Para ela, que mora em Santa Catarina e teve de encarar o luto distante do seio familiar, a dor ganhou contornos ainda mais complexos. A maior marca foi a impossibilidade de ver o irmão pela última vez. Como o corpo foi carbonizado no acidente, a família não teve a presença física para materializar o adeus, tornando a assimilação da perda uma barreira profunda.
“O meu cérebro não conseguiu assimilar até hoje. Eu sou uma pessoa racional, sei os fatos, mas lá no fundo tem alguma coisa que não me deixa entender como verdade. O meu 2020 foi um ano no automático. Parece que me ligaram um botão e eu tive que ser robotizada para dar conta”, lembra ela deste período.
Raízes, acolhimento e a reconstrução do vínculo
Apesar da dor da ausência e de todas as lembranças dos planos interrompidos, Marinice destaca que a solidez dos princípios cultivados pelos pais, Joana e Pedro, sustentou a família. O sítio era o refúgio e o espaço de afeto de Reginaldo — o braço direito do pai nas lidas do campo. Era ali que ele cultivava suas paixões, como os cavalos, os rodeios e a música gaúcha.
A marca desse laço foi simbólica no dia da partida, quando um profissional contratado por Reginaldo apareceu pela manhã na casa dos pais, sem saber do ocorrido, aguardando para iniciar a construção de uma pista de laço que ele havia planejado.
Mesmo diante dessa quebra abrupta e dolorosa do cotidiano, a sabedoria dos pais deu o norte aos filhos. “Ver meu pai e meu mãe tendo que se despedir de um filho e, mesmo assim, ainda nos dando força, dizendo que se o fundo do poço não era uma alternativa para mudar a situação, então que nós não fôssemos para lá, que estivéssemos juntos de mãos dadas e seguindo, acabou nos dando muito mais força”, recorda Marinice. Hoje, a saudade é acolhida com afeto e o Reginaldo permanece vivo em cada encontro familiar, nos brindes e nas lembranças daqueles que continuam a honrar as suas raízes.
Essa ressignificação encontra respaldo na prática clínica da Dra. Marcella, que aponta como o diálogo e o acolhimento mudam a perspectiva do fim. “A esperança é um pilar que deve existir, independentemente da proximidade do fim da vida. Falar sobre a possibilidade da morte não significa retirar a esperança. Significa permitir que ela encontre novos caminhos: o controle de sintomas, o desejo de estar em casa, de realizar um desejo, de se despedir ou simplesmente de ter um dia tranquilo, sem sofrimento”, pontua a médica.
Para fechar o ciclo, o psicólogo William lembra que a data de Finados pode ser ressignificada coletivamente. “O Dia de Finados não precisa ser uma data sem tristeza. Pode ser um momento em que a saudade e a dor coexistem com o carinho, a gratidão e a memória. A permanência com esse sentimento possibilita a transformação a ponto de atualizarmos, em nossa consciência, não apenas a experiência da perda, mas, sobretudo, o que essas pessoas que se foram representaram em nossas vidas”.
Fernanda Pereira Hraber


