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25/01/2021

Enxurrada provocou inundações em Irati e pessoas tiveram que ser resgatadas de barco

Chuvas intensas concentradas em um curto período de tempo, áreas permeáveis insuficientes para absorver o volume de água, arborização reduzida e lixo em locais inadequados.

Enxurrada provocou inundações em Irati e pessoas tiveram que ser resgatadas de barco

Na última semana, na tarde de segunda-feira (18), em um período de apenas 40 minutos foi registrado o volume de 130 milímetros de chuvas em Irati, de acordo com a Defesa Civil. Com isso, a infraestrutura para o escoamento pluvial não conseguiu dar vazão ao grande volume de água que acabou atingindo casas e estabelecimentos comerciais no centro e nos bairros da cidade, além de atingir alguns pontos na área rural – nas localidades de Serra dos Nogueiras, Caratuva e Pinho de Baixo. 

A Defesa Civil apurou que em aproximadamente 500 unidades habitacionais houve comprometimento de móveis e eletrodomésticos, roupas, gêneros alimentícios e quedas de muros. As famílias de Lisionete Roiek Minella e Fabiana Rocha estão entre as afetadas pelas intensas chuvas. 

Lisionete conta que a enxurrada atingiu a casa de seus pais, Julio e Marli, que moram no bairro Fósforo perto do rio, na Travessa Getúlio Vargas. “Perderam tudo, caiu o muro, molhou todos os móveis. Não deu tempo de salvar nada, eles são idosos”, relata Lisionete.

Já Fabiana comenta como as águas atingiram sua casa, localizada no bairro DER. “Foi tudo muito rápido, não achávamos que fosse entrar em casa, de repente começou a voltar água do bueiro, e percebemos que os bueiros da esquina não davam conta tamanha à quantidade de água”, diz.

Ela afirma que, a apesar da entrada de água, a família conseguiu impedir prejuízos, o que não ocorreu na residência de um parente, morador da área central da cidade.  “Na casa do meu sobrinho, próxima ao ginásio Batatão, ele teve que sair às pressas e teve algumas perdas”, conta Fabiana.

Em alguns locais, as pessoas precisaram ser retiradas de suas casas de barco, com o apoio do Corpo de Bombeiros de Irati por estarem em situação de risco. De acordo com a comandante do 3º Subgrupamento de Bombeiros de Irati, capitã Keyla Karas Soltes, desde a identificação dos primeiros pontos de alagamento, ocorreu o resgate de aproximadamente 50 pessoas. Ao todo, 19 bombeiros atuaram para retirar moradores de Irati que estavam em situação de risco em suas casas. “A região de Canisianas foi a que concentrou o maior número de atendimentos”, conta Keyla.

As equipes do Corpo de Bombeiros utilizaram três embarcações, caminhão de combate a incêndio e resgate, além de três viaturas de busca e salvamento. Os atendimentos foram feitos em 26 locais, segundo a comandante. “Essas pessoas que foram atendidas estavam em situação de risco, pelo volume de água. Algumas ficaram desalojadas”, comenta a capitã.

As pessoas que tiveram que deixar as suas casas por questões de segurança e não tinham locais como residências de familiares para ficar, permaneceram alojadas na Casa de Passagem – disponibilizada pela Secretaria de Assistência Social para abrigar temporariamente aqueles que foram afetados devido às fortes chuvas.  

Ainda foram registrados pela Defesa Civil danos por inundação em estabelecimentos comerciais e lavouras, porém a apuração destes danos ainda não foi finalizada.

O que de fato ocorreu em Irati?

Especialistas em planejamento urbano e meio ambiente participaram, na quarta-feira (20), ao vivo no Meio Dia em Notícias da Rádio Najuá, de um debate para explicar para a população as causas dos transtornos vivenciados em Irati essa semana.

“Irati sofreu uma enxurrada, tanto é que num instante baixou as águas. Graça a Deus que a caixa, o recebedor das águas do tributário chamado Rio das Antas, que é o rio Imbituvão, estava com o seu nível baixo”, enfatizou o presidente do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), João Luís Veríssimo.

Segundo ele, isso permitiu que as águas corressem livremente e desaguassem no rio Imbituvão. Assim, os transtornos ocasionados não permaneceram por várias horas ou dias, como já aconteceu em outros tempos.

O  arquiteto José Tadeu Smolka explica que a intensa ocupação urbana, com as construções e pavimentações que impermeabilizam o solo, reduzem as áreas verdes,  são fatores  de peso para que ocorram enxurradas e alagamentos. “Com as construções e pavimentações não há a absorção da água [pelo solo], que chega muito rápido na parte mais baixa do rio”, frisa. O arquiteto cita que isso acontece em vários bairros e as águas precisam ir para algum local. 

“A água que vem de toda a bacia deste rio, claro que o rio não vai suportar, não vai dar vazão a esta quantidade de água”, diz.

Smolka enfatiza que as árvores e o solo com vegetação rasteira, sem construções, tem papel decisivo para evitar problemas quando vêm fortes chuvas. “Uma árvore com mil folhas contem um litro de água. Elas são a maneira mais ancestral, mais antiga, de conter essas enxurradas. Claro que se nós cortarmos as árvores, elas não vão mais conter as enxurradas”, afirma.

Sobre o solo sem edificações, o arquiteto argumenta: “Uma camada de terra de dois metros de profundidade, a cada metro quadrado esse terreno vai segurar dois metros cúbicos de água, dois mil litros de água, e vai soltar esta água gradativamente, pode demorar até um mês para a água que infiltrou no solo nu chegar no rio, ou seja, não vai mais causar uma enxurrada”.

A conscientização das pessoas quanto à importância das áreas permeáveis no quadro urbano e a destinação correta do lixo são alguns dos pontos defendidos por Smolka  e por Veríssimo para minimizar os problemas.

Outra questão relevante, de acordo com o presidente do Comdema,  é que seja colocado em prática o Plano Municipal de Drenagem, que já fez um estudo sobre como agir para evitar enxurradas, alagamentos e enchentes em Irati. 

“Creio que, agora, com esta situação [enxurradas que ocorreram nessa semana] mais o advento do Plano de Drenagem Municipal, que foi um trabalho muito bem feito pela empresa contratada pelo Município no qual eles elencaram vários pontos, vamos chamar assim de ‘pontos negros’, esses pontos deverão ser trabalhados um a um para o fim de nós elaborarmos um projeto a contento e que venha trazer algumas soluções”, disse Veríssimo.

A diretora da Defesa Civil, Rozenilda Romaniw Bárbara explica que várias obras já foram feitas pelo Município na área central de Irati, mas que há mais intervenções a serem feitas para que haja efetividade plena na drenagem urbana. Segundo ela, as obras precisam ser vistas “no conjunto” e quando for feita a bacia de contenção acima, perto do Bosque São Francisco, haverá eficiência mais eficiência.

Entretanto, Rozenilda, assim como Smolka e Veríssimo, frisa a que a conscientização em relação à ocupação do solo, à permeabilidade, é essencial, pois as obras são paliativas. “Aqui em Irati a gente não consegue fazer mais tantas obras corretivas, elas vão ser paliativas, podemos fazer todas as bacias possíveis e imagináveis e mesmo assim sofrermos as inundações, as enxurradas, é uma discussão salutar para que a gente possa pensar o quanto cada um de nós pode colaborar”, finalizou a diretora da Defesa Civil.

Orientações de segurança diante de enxurradas ou inundações

Primeiro, é preciso monitorar o nível da água. “Verificando que a água está chegando próximo à residência, elevar os pertences, quando for possível, desde que não haja risco, e se proteger em locais mais altos também”, recomenda a comandante do 3º Subgrupamento de Bombeiros de Irati, capitã Keyla Karas Soltes.

Ela também destaca que transitar em locais de alagamento é uma atitude totalmente imprópria. “De carro, procurar não passar por locais alagados onde a água passe do nível das rodas do carro, visto que se ele tiver com um nível de água muito alto você acaba perdendo o controle e o carro pode ser levado pela enxurrada”, explica.

Keyla ainda orienta que quando algum condutor de veículo verificar que o nível da água está subindo na via, o ideal é “procurar estacionar em local mais alto, havendo esta possibilidade”. “E se o nível da água continuar subindo, sair do veículo, porque este acaba sendo um local de risco”, frisa. 

A comandante do Corpo de Bombeiros de Irati alerta que atravessar a enxurrada a pé também é perigoso. “Procure ao máximo evitar atravessar locais onde haja enxurrada. Em virtude do fluxo da água pode ocasionar quedas e até afogamento”, explica.

Caso aconteça uma emergência e alguém acabe ficando ilhado, ou verifique uma situação de risco à vida, telefone para o 193. “E o Corpo de Bombeiros vai até o local para fazer o salvamento, fazer o resgate”, finaliza Keyla.

Doações para as famílias atingidas

Com o objetivo de auxiliar as pessoas vítimas das chuvas que atingiram Irati nesta segunda-feira (18), foram montados pela Prefeitura de Irati pontos de arrecadação de doações na escola Francisco Vieira de Araújo e no Provopar Municipal – que também faz a coleta quando as pessoas não podem se dirigir até os locais de doação, telefone 3907-3038. Estão sendo recebidos alimentos, materiais de higiene e limpeza, colchões e roupas de cama. Também estão sendo aceitas doações de móveis e eletrodomésticos.

Também se mobilizaram para serem pontos de arrecadação de doações para as famílias afetadas pelas chuvas a matriz São Miguel, a 8ª Companhia Independente de Polícia Militar e a rede de Supermercados Ivasko – que lançou a campanha “Chuva de Solidariedade”. Para cada  alimento ou material de limpeza doado nos pontos de arrecadação da rede Ivasko, o grupo também doará a mesma quantia.

Texto: Da Redação/Hoje Centro Sul

Fotos: Ciro Ivatiuk /Hoje Centro Sul e Divulgação 

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