Entre tradição e mudança: como a Quaresma é vivida nos dias de hoje
Período religioso ainda mantém práticas entre fiéis, mas mudanças nos hábitos sociais e no comportamento da população revelam novas formas de viver a fé
Durante décadas, o período da Quaresma foi marcado por silêncio, reflexão e até restrições no cotidiano da população. Em muitos lugares onde o catolicismo é predominante, costumes religiosos influenciavam diretamente hábitos alimentares, práticas pessoais e até a realização de eventos. Hoje, entre a manutenção de tradições e a mudança de comportamento, a forma de viver esse tempo litúrgico revela um cenário mais diverso.
Para a fiel católica Luzia Mosele, a essência da Quaresma permanece viva, especialmente no campo espiritual. “O tempo da quaresma pra mim é um tempo de muita oração e arrependimento. Afinal são 40 dias para se pensar em muitas coisas”, diz. Segundo ela, o período também é marcado pela lembrança de passagens importantes da fé cristã. “Lembramos neste tempo de Jesus no deserto sendo tentado pelo demônio e ele resistiu. Lembramos, na Via Sacra, todas as cenas que aconteceram até sua morte”, relata.
Criada na tradição católica, Luzia conta que muitos dos costumes foram aprendidos ainda na infância, dentro da própria família. “Fui criada na igreja católica, aprendi muitas coisas dentro da família principalmente com meu pai que levava tudo muito certinho”. Entre as práticas mantidas até hoje, ela destaca a abstinência de carne em datas específicas. “Costume que aprendi desde de criança, não comer carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa”, comenta. A fiel relata que faz penitência todos os anos, mas deixa de comer carne somente nesses dois dias mesmo. “Porque, pra mim, o mais importante é o que sai da boca”, completa.
Ao mesmo tempo em que mantém práticas tradicionais, Luzia reconhece mudanças ao longo do tempo, como as superstições que hoje ninguém acredita mais, observa ela.

que o período ainda impacta bastante a procura por peixes
Tradição que movimenta o comércio
Se por um lado a fé continua presente na rotina de muitos fiéis, por outro, ela também se reflete diretamente no comportamento de consumo durante a Quaresma. Proprietária de um pesque e pague, Marli Parteka confirma que o período ainda impacta significativamente a procura por peixes. “Geralmente, a quantidade de peixes aumenta bastante nesta época”, relata.
Segundo ela, a movimentação segue uma tendência já observada em outros anos. “O movimento aumenta sempre no começo da Quaresma e, no final, dobra a quantidade de pessoas para comprar o seu peixe, igual antigamente”. Para Marli, a motivação dos clientes ainda está fortemente ligada à tradição religiosa, transmitida entre gerações sobre não consumir carne. “A maioria ainda respeita, fazendo jejum de carne vermelha, optando por comer peixe nessas datas até terminar o período”, explica.

Costumes que mudaram
A influência da tradição também pode ser observada no comportamento social durante a Quaresma, especialmente em atividades de lazer. O proprietário de uma casa de shows, André Vicente, acompanha essa mudança ao longo dos anos e destaca que o período já teve um impacto muito maior no público.
“Antigamente, o pessoal era bem mais rigoroso, não saía de casa nesse período. Lembro que não compensava fazer eventos — a gente aproveitava a Quaresma para fazer reformas e nosso espaço ficava fechado. Era algo bem drástico mesmo: cerca de 90% a 95% do público não frequentava”, relembra.
Segundo ele, com o passar do tempo, houve uma flexibilização desses hábitos, principalmente entre os mais jovens. Ainda assim, o período segue influenciando o movimento. “Hoje, como trabalhamos com três a quatro tipos de público, sentimos isso de formas diferentes. No sábado, que é mais voltado para o público jovem, a Quaresma ainda impacta em torno de 30% a 35%. Muitos não saem, e os que saem evitam beber e dançar — dão uma segurada”.
Por outro lado, entre o público mais velho, o comportamento permanece conservador. “Já aos domingos, com um público entre 40 e 50 anos, não adianta abrir. Não realizamos bailes nesse período porque as pessoas realmente não participam. Financeiramente não compensa, e também optamos por não abrir como forma de respeito”, explica. Vicente entende que essas mudanças refletem transformações culturais ao longo do tempo. “Acredito que essa mudança de comportamento vem muito da cultura e do folclore ligados à Quaresma. Ainda existe esse costume, e muita gente leva a sério, mas o público jovem é bem diferente — hoje, muitos já não se ligam tanto nisso”.
Fé entre permanência e adaptação
A vivência da Quaresma dentro da Igreja também acompanha as transformações da sociedade, mas sem perder seus fundamentos. O padre Alexandre Spena destaca que as práticas essenciais continuam presentes na vida dos fiéis. “Cada cristão é chamado a viver a oração, o jejum e consequentemente viver a caridade. Esse tríplice pilar alimenta e conduz a vivência cristã em preparação à Páscoa do Senhor”.
Ao analisar as mudanças ao longo do tempo, ele avalia que tradição e adaptação caminham juntas. “Acredito que as duas coisas acontecem simultaneamente. Hoje, de forma mais expressiva pela possibilidade que as mídias trouxeram, mas nunca deixaram de serem vividas na vida cristã. Os costumes não mudam porque estão inseridos nos valores cristãos. A forma de vivê-los é que se torna uma expressão atualizada do tempo vivido”, afirma Spena.
O padre salienta que a Igreja busca manter a essência da fé, ao mesmo tempo em que dialoga com a realidade atual. “A Igreja sempre busca mostrar os valores que permanecem inalterados, mas visam, em todo tempo, a dignidade humana e a responsabilidade cristã. A Igreja, cada vez mais integrada na realidade e na vida, busca atualizar e incentivar as práticas quaresmais no tempo do qual está inserida sem vir a ferir os ensinamentos de Cristo que continuam os mesmos e o faz através das homilias, catequese, formações, encontros, práticas devocionais e orientações pessoais mas sempre assegurando o mistério da fé e dos ensinamentos de Cristo atualizados e contextualizados com a dinâmica do tempo”. De acordo com Alexandre, a Igreja procura preservar os valores essenciais da fé cristã, ao mesmo tempo em que adapta a forma de vivenciá-los à realidade atual.
Entre a tradição e novas formas de fé
Se para alguns a Quaresma continua sendo vivida dentro dos moldes tradicionais, para outros a relação com a espiritualidade seguiu novos caminhos ao longo do tempo.
O funcionário público, Erico Fernando, conta que, embora tenha sido criado dentro da religião católica, sua vivência mudou com o passar dos anos. “Eu fui criado na base do catolicismo e por algum tempo ainda segui os costumes. Mas depois, com outras vivências, acabei deixando de lado a ligação com qualquer tipo de religião e me permitindo construir uma relação com Deus somando todas as minhas experiências”. Ele relata que, por um período, ainda manteve algumas práticas, como a abstinência de carne, mas que também passou por transformações. “Por um tempo, ainda sim deixei de comer carne nestes dias santos, por exemplo, porém depois isso também foi mudando porque penso que praticar alguma penitência vai muito além”. Ele entende que o caminho é buscar ser uma pessoa melhor no dia a dia.
Mesmo diante das transformações, o período da Quaresma segue presente na vida da população — seja por meio da fé, da tradição familiar ou de novas formas de espiritualidade. Mais do que regras, o que permanece é a busca por significado, ainda que vivida de maneiras diferentes ao longo do tempo.
Fernanda Hraber

