facebook
29/05/2020

Editorial - A crise da falta de informação

Editorial - A crise da falta de informação

O Brasil é um país continental. Cada estado, cada município de um estado tem realidade totalmente diferente. Em cada uma destas localidades, a economia é baseada em produtos e indústrias distintas. O clima é diferente, as tradições culturais são diferentes, a origem étnica da população é diferente. Em síntese, muda tudo. Cada particularidade estadual e municipal tem de ser levada em conta tanto para o projeto de desenvolvimento socioeconômico do país, como para as medidas que visam o enfrentamento local  à pandemia de coronavírus. 

Parece lógico e não precisa ser pós-doutor em gestão pública para observar isso. Entretanto, na prática, nunca estivemos tão sem acesso a informações detalhadas para balizar as políticas públicas como agora. Prova disso é que, em meio à crise econômica provocada pela necessidade de isolamento social para que a população não seja dizimada pelo coronavírus, não se tem informações sobre os índices de desemprego nos municípios. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) simplesmente deixou de ser alimentado desde dezembro do ano passado pelo governo federal. Agora, nesta semana, foram divulgados os primeiros dados de 2020, cerca de três meses depois do início da pandemia no país, mas  sem fazer a estratificação dos números por município, como antes acontecia. Só no Paraná são 399 municípios com realidades totalmente distintas e afetados em diferentes escalas pelos efeitos socioeconômicos da pandemia. 

Também não há informações sobre quem são os beneficiários do Auxílio Emergencial que não fazem parte do Cadastro Único – cadastro que reúne famílias que recebem mensalmente benefícios assistenciais do governo, como o Bolsa Família. Quem são os vendedores de cachorro-quente, as manicures, os barbeiros que trabalham de forma autônoma – formal, através do MEI (Microempreendedor Individual) ou informal, sem nenhum vínculo com o Instituto Nacional  de Seguridade Social (INSS)  –  e que deixaram de ganhar devido ao isolamento social, ninguém sabe.

Não há dados oficiais sobre eles, mesmo com o pagamento do Auxílio Emergencial. Será que este auxílio está realmente chegando às pessoas que mais precisam, que foram afetadas pela pandemia?  O governo não sabe.

Houve um deslumbramento com o poder da tecnologia de processamento de dados possibilitada por um aplicativo. Entretanto, esta mesma facilidade tecnológica de processamento de dados não tem sido utilizada para dar transparência ao uso do dinheiro público e ao perfil de quem recebe o auxílio, evitando fraudes. 

Deveria ser amplamente divulgado, diariamente atualizado, afinal são estatísticas importantes para que estados e municípios se posicionem diante da crise, definam políticas públicas em consonância com o governo federal para as ações sociais e para a recuperação econômica.

Vivemos um grave momento de obscurantismo e crise institucional, em que diante de uma pandemia que atinge o mundo inteiro e tem reflexos na vida cotidiana de todos, há líderes nacionais brasileiros olhando apenas para o próprio umbigo. O Brasil precisa de comando coerente, ponderado, democrático, e para isso, cada vez mais a informação é imprescindível, em todos os âmbitos. Não é possível continuarmos navegando às cegas, pois, assim, só chegaremos ao caos.

COMENTÁRIOS