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05/10/2020

Editorial - Entender as doenças da mente é ter qualidade de vida e respeito mútuo

Editorial - Entender as doenças da mente é ter qualidade de vida e respeito mútuo

Muitos têm dificuldade em compreender que assim como as dores físicas, que manifestam as doenças do corpo, são reais e igualmente prejudiciais as dores psicológicas, que manifestam as doenças da mente. É todo um universo complexo, de questões e percepções diversas, que se estabelece na mente de cada pessoa, levando-a, quando doente, a acreditar que nada têm sentido, que a vida não interessa, que só traz sofrimento. Então, a doença mental  vai  agravando e faz com que pensamentos de autodestruição se tornem cada vez mais recorrentes. Na tentativa de acabar com a dor, com a depressão, com os problemas que parecem ser maiores do que sua capacidade de enfrentar, algumas destas pessoas doentes recorrem ao ato mais extremo, o suicídio.

O tema é tabu. Recriminado pela igreja. Escondido pelas famílias. Não aceito socialmente. Para muitos, o suicídio é sinônimo de fraqueza, de inferioridade, de falta de religiosidade,  não a consequência de uma doença que não foi identificada a tempo e tratada adequadamente. Isso mesmo, doença que precisa ser tratada. Assim como o corpo, a mente também adoece, também precisa de cuidados, de exercícios, de limpeza.

Para isso, a atenção aos pensamentos é fundamental. E o excesso de negatividade é um dos principais sinais de que as coisas não vão bem. Claro, não é preciso fingir que se vive em um país das maravilhas, nem que é possível estar feliz todos os dias o tempo todo. Mas, observar a percepção negativa e  quanto tempo ela dura pode ser um dos caminhos.

É possível identificar isso em si mesmo e também nos outros. Principalmente se os  julgamentos são deixados de lado e há  observação amorosa. Seja a auto-observação ou o cuidado com os outros, com os amigos, familiares, colegas de trabalho. As doenças mentais sempre vêm acompanhadas de mudanças de comportamento. Elas fazem com que o indivíduo deixe de gostar daquelas atividades que o motivavam, que lhe davam prazer. E esta "falta de gostar" vai progredindo e se tornando cada vez mais evidente. O indivíduo vai dando indícios do aumento da dor psicológica, seja no descuido consigo mesmo, no isolamento, nos comentários autodestrutivos.

E a situação só piora quando ao invés de encontrar pessoas aptas a ouvir com paciência e serenidade, o doente encontra pessoas que se apressam em julgar, em tentar impor suas percepções e preconceitos sobre a depressão do tipo: “Isso é falta de Deus”; “Pegue uma enxada e vá carpir”; “Sua vida é tão boa, você tem tudo”;  “Veja quanta gente tem passando fome”.

Desmerecer o sentimento do outro, julgar como sendo errado a pessoa sentir o que sente, a exclui ainda mais, e faz com que os pensamentos autodestrutivos ganhem mais força.  O pertencimento, seja ao grupo de amigos ou à família, torna-se frágil, o que ajuda no agravamento da doença. Quando não se sabe o que falar, ouça. Ouça sem pressa e sem fazer julgamentos. Deixe a pessoa doente expressar os sentimentos de que tem, inclusive chorar. Ouvir apenas. Ouvir é como oferecer um chá quando se está com gripe, ou seja, se não vai curar a doença, vai ser o carinho que ajudará a pessoa a ter forças para se recuperar. Outra recomendação é procurar ajuda, orientação de um psicólogo ou psiquiatra. Ajude a pessoa a ter acesso a estes profissionais, sem obrigá-la.  Não é demérito para ninguém ficar doente e entender que as doenças da mente são tão frequentes quanto as doenças físicas é  fundamental para que tenhamos qualidade de vida e respeito mútuo.

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