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03/11/2020

Editorial - A indesejada das gentes

Editorial - A indesejada das gentes

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira

 

Todos os anos, o dia 02 de novembro  aviva em nossa memória que a “indesejada das gentes” vai sim um dia chegar. Entretanto, neste ano de 2020, não foi apenas na data dedicada aos mortos, o Dia de Finados, que nos lembramos dela.

Desde março, todos os dias o noticiário nos colocava diante da reviravolta provocada no mundo inteiro por um agente assustador apesar de invisível, novo e altamente letal, o coronavírus.

Ele se propagou com velocidade assustadora, motivou grande parte dos habitantes do planeta a se enclausurarem em suas residências, trouxe novos hábitos de vida e de consumo, colocou na moda o acessório que esconde o rosto e multiplicou o medo entre as pessoas.

Tão imprevisível e silencioso quanto a própria morte, o coronavírus também colocou em evidência a certeza da finitude humana. O medo de morrer comentado pelo poeta Manuel Bandeira, nos versos de “Consoada”, fez parte do imaginário da grande maioria das pessoas em pelo menos alguns momentos deste ano.

Alguns que estavam “com a casa limpa”, “com a mesa posta”, ou seja, com a saúde mental em ordem, com o equilíbrio psicológico em dia, conseguiram sofrer menos  e aceitar que nada podiam fazer para se defender,  além de adotar com rigor as medidas preventivas.  

Outros se desesperaram, estocaram alimentos, brigaram com familiares, choraram, enfim, viveram momentos de caos.

Entretanto, depois de vários meses, a maioria daqueles e destes também já encontrou uma  forma de encarar os fatos. Cada qual a seu modo, pouco a pouco, colocando as coisas no lugar. 

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