Dia do Trabalho: Vagas sobram, mas faltam profissionais em setores específicos

Por Redação Hoje Centro Sul 8 min de leitura

Indústria, logística e serviços enfrentam dificuldades na contratação e retenção de mão de obra; cenário reflete descompasso entre perfil profissional e demandas do mercado

Enquanto muitos brasileiros ainda buscam uma oportunidade de emprego, empresas têm encontrado dificuldades para preencher vagas em áreas específicas. O cenário evidencia um descompasso entre o perfil dos profissionais disponíveis e as exigências do mercado de trabalho, especialmente em setores técnicos, industriais e de serviços.

Dados da Confederação Nacional da Indústria indicam que a falta de profissionais qualificados já atinge cerca de 23% das indústrias brasileiras, o maior nível da série histórica. Ainda segundo a entidade, três em cada cinco trabalhadores precisarão de treinamento para atender às novas exigências do setor.

Na construção civil, por exemplo, o cenário é semelhante. Levantamentos da Câmara Brasileira da Indústria da Construção apontam que mais de 70% das empresas enfrentam dificuldades para contratar profissionais, especialmente em funções técnicas e operacionais.

O contexto dialoga com o chamado “apagão de mão de obra técnica”, expressão utilizada para descrever a escassez de profissionais qualificados em áreas ligadas à engenharia, produção e indústria.

Para o presidente em exercício do CREA/PR, engenheiro ambiental, Helder Nocko, a formação de profissionais qualificados é um ponto central para o desenvolvimento do país. “Estamos sempre atentos à realidade do mercado de trabalho das Engenharias, Agronomia e Geociências. Historicamente, sempre tivemos variações da demanda de serviços e de projetos de engenharia, muito em função das variações da economia do país. Por isso, o CREA/PR entende que devemos formar ainda mais mão de obra qualificada no Brasil, de forma que os nossos profissionais consigam colaborar para o desenvolvimento nacional com retomada de um ciclo de planejamento, projetos e execução de obras e serviços de engenharia”.

Nocko frisa ainda a importância da presença desses profissionais em posições estratégicas. “Enxergamos que, quanto mais engenheiros, agrônomos e geocientistas estiverem em posições de liderança, de tomada de decisão e de planejamento público, mais desenvolvimento teremos no Paraná e no Brasil. Por isso, o CREA-PR vem exercendo sua função na valorização das profissões vinculadas ao sistema, incentivando e promovendo a presença de pessoal qualificado nos quadros funcionais públicos”. A análise aponta para a necessidade de fortalecer a qualificação profissional diante das demandas do mercado.

Entre as iniciativas, o presidente em exercício cita ações voltadas à capacitação profissional. “Criamos programas como o ‘Mais Engenharia’, em parceria com a UEPG e a Itaipu Binacional, porque acreditamos que os investimentos em capacitação e valorização são fundamentais para fortalecer a atuação da Engenharia no mercado”, detalha.

RH aponta desequilíbrio entre vagas e perfil profissional

A dificuldade para contratação tem se concentrado principalmente em áreas operacionais. Segundo a gestora de RH, Paula Rufino, setores como logística, indústria, produção e atividades sazonais estão entre os que mais enfrentam desafios.

“Hoje, percebemos uma dificuldade maior nas áreas operacionais, principalmente em logística, indústria, produção e para safra. São funções como auxiliar de produção, operador de secador e de máquinas, que têm bastante vaga aberta, mas nem sempre com profissionais disponíveis na mesma proporção”, cita ela.

De acordo com a gestora, o cenário se intensifica em períodos específicos do ano, quando a demanda por contratação aumenta rapidamente. “Dentro da nossa realidade, que é muito voltada à contratação de mão de obra temporária, isso fica ainda mais evidente em períodos sazonais, quando as empresas precisam contratar rápido e em volume”.

Apesar da percepção de que a qualificação técnica seria o principal obstáculo, Paula destaca outro fator decisivo. “Curiosamente, nem sempre o maior desafio é a qualificação técnica. O que a gente mais sente falta hoje é de perfil comportamental: comprometimento, responsabilidade, disponibilidade de horário e vontade de trabalhar.” Ela reforça que, mesmo em funções que não exigem alta qualificação, características, como postura profissional e capacidade de adaptação, têm sido determinantes.

“Muitas dessas vagas são mais operacionais e não exigem alta qualificação, mas pedem agilidade, adaptação e postura profissional — e isso tem sido o mais difícil de encontrar”. A especialista conta que a empresa em que presta os serviços de Recursos Humanos foca na agilidade do processo, além do RH mais estratégico. Isso tem se tornado cada vez mais essencial para agilizar e suprir a demanda de clientes que buscam um direcionamento eficaz de profissionais mais aderentes ao perfil — o que ajuda muito a dar velocidade e assertividade nas contratações, mesmo com esse desafio do mercado.

Indústria local reflete dificuldades de contratação

Em Irati, o cenário também se reflete na indústria. A Moageira Irati atua no beneficiamento de trigo e integra uma cadeia produtiva essencial para o setor alimentício. O setor de RH da empresa explica quais são os desafios na hora de preencher vagas.  “Atualmente, as maiores dificuldades de contratação estão relacionadas a cargos operacionais específicos e funções técnicas, que exigem mão de obra qualificada ou experiência prévia no setor industrial”.

Além da qualificação, outros critérios também são relevantes no processo de recrutamento, como disponibilidade de horário, interesse em atividades operacionais e comprometimento com rotinas industriais.

Na avaliação da empresa, as habilidades comportamentais têm ganhado cada vez mais relevância. Comprometimento, responsabilidade, trabalho em equipe e vontade de aprender são fatores decisivos. A formação e a experiência são importantes, especialmente em cargos técnicos, mas a Moageira acredita que um bom comportamento aliado à disposição para desenvolvimento faz muita diferença no dia a dia da empresa.

Setor de beleza cresce, mas enfrenta desafios na retenção

O cenário de dificuldade na mão de obra também se estende ao setor de serviços. O Brasil está entre os maiores mercados de beleza do mundo, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, com crescimento contínuo e alta demanda por serviços.

Mesmo com esse contexto positivo, o segmento enfrenta desafios relacionados à mão de obra, especialmente na retenção de profissionais qualificados. A empresária Mari Santos, que atua na área da beleza, também como professora universitária e formadora de profissionais — ministrando cursos na área —, além de administrar um espaço com diversos serviços do segmento, explica que o modelo de trabalho predominante no setor influencia diretamente essa realidade.

“Não só na área da beleza, mas no trabalho autônomo em geral, existe uma legislação específica, conhecida como Lei do Salão Parceiro. Nesse modelo, os profissionais não têm vínculo empregatício formal com o salão — eles atuam como prestadores de serviço e recebem por comissão”. A chamada Lei do Salão Parceiro regulamenta justamente essa relação entre o estabelecimento e o profissional, permitindo uma atuação mais flexível, sem vínculo direto de emprego, o que é comum no setor.

Segundo ela, esse formato exige uma gestão mais estratégica para manter as equipes. “Isso faz com que, se não existir uma boa gestão, não se consegue a retenção de profissionais. A maior dificuldade não está na contratação, mas justamente, na retenção.”

Mari destaca que muitos profissionais utilizam espaços consolidados como etapa de aprendizado. “É uma área em que muitas pessoas aprendem e depois saem para trabalhar por conta própria. Muitas profissionais que estão no início da carreira buscam empreendimentos já consolidados, com alto fluxo, para adquirir experiência, mas não necessariamente com a intenção de permanecer”. Com isso, o processo de seleção se torna mais criterioso.

A empresária comenta que a maior dificuldade é selecionar pessoas que realmente queiram integrar a equipe. Muitas vezes, há um grande investimento em capacitação, com treinamentos mais completos, e a profissional acaba se desligando da empresa depois.

Atualmente, seu espaço reúne diferentes formatos de atuação, acompanhando as transformações do setor. “Temos colaboradoras, profissionais que atuam no modelo de Salão Parceiro e também aquelas que fazem a locação de salas — o que tem se tornado uma alternativa viável neste momento”, destaca.

Escassez de mão de obra em números

  • 23% das indústrias relatam falta de profissionais qualificados
  • 3 em cada 5 trabalhadores precisarão de treinamento para novas demandas
  • Mais de 70% das empresas da construção civil têm dificuldade para contratar
  • Escassez é mais evidente em funções técnicas e operacionais

Dados – Confederação Nacional da Indústria e Câmara Brasileira da Indústria da Construção

Fernanda Hraber

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