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Desenvolvimento econômico e cultural de Irati misturam-se desde antes da emancipação política do município

14/07/2022

Desenvolvimento econômico e cultural de Irati misturam-se desde antes da emancipação política do município

Desde a chegada da estrada de ferro, na década de 1890, e dos primeiros imigrantes, pouco tempo depois, o desenvolvimento econômico e o cultural de Irati andam lado a lado. Hoje, com quase 62 mil habitantes, a cidade é polo regional, tem instituições de ensino renomadas e boas perspectivas para o futuro

Com uma população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em quase 62 mil habitantes, neste dia 15 de julho, Irati comemora 115 anos de emancipação política. O município é referência entre as dez cidades que compreendem a Associação dos Municípios Centro do Sul do Paraná (Amcespar) e está em pleno crescimento.

No período da fundação, Irati tinha sua economia baseada quase que exclusivamente no setor primário, sobretudo na agricultura. Atualmente, conta também com indústrias, serviços, comércio e tecnologia. Desenvolvimento que começou com a chegada da estrada de ferro na última década de 1800, quando Irati, então Covalzinho, pertencia à Imbituva. Foi com a estrada de ferro também que personagens políticos ilustres como Getúlio Vargas vieram a Irati.

A cidade teve um papel importante no acolhimento a imigrantes europeus, principalmente holandeses, ucranianos, alemães, italianos e poloneses, depois de 1900. Mais tarde, o cinema chegou à cidade vindo de moto em uma época onde Irati tinha muito mais carroças do que veículos automotores circulando pelas ruas. O cinema ficou no mesmo lugar por mais de 60 anos, muitos deles sob o comando de João Wasilewski, polonês que era fascinado pela sétima arte.

O desenvolvimento de Irati não parou mais. Recentemente, o Corpo de Bombeiros do município virou referência macrorregional ao ser elevado para 10º Subgrupamento Independente, o que vai trazer benefícios não somente para Irati, mas também para toda região. Em infraestrutura, destaca-se a revitalização da Rua Munhoz da Rocha e da área central de da cidade, que promete trazer benefícios aos lojistas e à economia como um todo.

O início e a ferrovia

A história de Irati começa muito antes da fundação da vila de Covalzinho, por volta de 1865. José Maria Orreda conta em seu livro Irati v.3 que a região onde se localiza Irati pertencia aos índios Caingangues, ramo dos tupis, que originou o nome Ira (mel); e ty (rio), ou seja, rio de mel.

Vestígios dos povos indígenas, como pedaços de artefatos de barro e ferramentas de caça foram encontrados onde hoje é o Itapará, também na Serra dos Nogueiras, Rio do Couro, Gonçalves Junior e no Rio Bonito. Existiu ainda uma tribo denominada Coroados, onde hoje é a localidade de Rio Água Quente, no Guamirim.

Já a região onde é o centro de Irati passou a ser chamada, mais tarde, de Covalzinho. Com a chegada da estrada de ferro em 1890, e a estação Iraty, o nome Covalzinho foi caindo no esquecimento e passou a ser conhecida como é hoje. Além disso, até a sua emancipação, Irati pertencia à Imbituva e veio a conquistar a sua autonomia em 15 de julho de 1907. De lá para cá, muita coisa mudou na economia e na cultura do município.

Para o pesquisador José Maria Grácia Araújo, o principal marco da história do desenvolvimento de Irati foi a construção da estrada de ferro que ligava o Rio Grande do Sul a São Paulo e que estava prevista para passar por onde atualmente é a Vila São João. Araújo conta que devido a interesses de coronéis que possuíam terras, os trilhos foram desviados para o atual centro da cidade. Como Irati seria um entroncamento bastante importante, muitas famílias se fixaram nas proximidades e outras começaram a vir de locais próximos e distantes. Dentre as primeiras que chegaram, estão as famílias Pires e Sabóia.

A partir desta época, Irati começou a se desenvolver com a chegada dos trens que passavam pela cidade. Na época, trens de cargas e mistos (com vagões para passageiros) movimentavam o local onde hoje está a antiga estação. Araújo cita que existia ainda outra modalidade de trem, que era conhecido como “internacional”, o qual trazia autoridades que estiveram em Irati, inclusive o então presidente da República Getúlio Vargas.

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Desta forma, o comércio começou a se desenvolver na mesma medida. Carregadores de malas, opções de hospedagem e alimentação começaram a surgir. “Quando chegavam os trens, tinham uma porção de carrocinhas que estavam esperando para carregar, tinham também os guris, que ficavam nas janelas perguntando se queria que carregasse a mala. A pessoa descia e vinha para os hotéis e pensões que tinham do lado da estação, como o Hotel Veiga, a Pensão da Senhorinha, entre outras, que acomodavam os caixeiros-viajantes e também os tropeiros”, descreve Araújo.

Atualmente, Araújo trabalha na Casa da Cultura de Irati e pesquisa sobre a história da cidade, além de ter um enorme acervo de documentos e retratos da época. Sua família é diretamente ligada aos primórdios  do município. “Meu avô paterno acompanhava o desenvolvimento dos trilhos, ele vinha junto, pois era da estrada de ferro. Chegava no local onde se ia se estabelecer uma nova estação e contratava e treinava os funcionários. Minha avó era telegrafista e treinava os telegrafistas, então eles deixavam a estação funcionando e seguiam para frente. Em 1899, em Campo Largo, moravam dois personagens muito importantes para o início de Irati. Meu avô por parte de mãe, Manoel Grácia, e Emílio Gomes, um espanhol que era militar. Meu avô tinha comércio e, prevendo um início promissor em Irati, vieram para cá para ver as possibilidades de se estabelecer aqui. Por coincidência, o armazém era bem aqui [onde hoje é a Casa da Cultura]”, comenta o pesquisador.

Imigrantes

Com o passar do tempo, os dois entraram para a política e Manoel Grácia passou a ter um papel importante para o desenvolvimento da cidade. Após a metade da primeira década de 1900, o governo federal estava incentivando a vinda de imigrantes para o Brasil, especialmente para o interior do Paraná. Manoel passou a intermediar o fornecimento de mantimentos e materiais para a construção de casas aos estrangeiros que chegavam em Irati, especificamente em Gonçalves Junior, que surgiu em 1908. Onde hoje é o campo de futebol da colônia, ficava o armazém que recebia as famílias holandesas. Araújo comenta que as primeiras famílias foram colocadas para trabalhar na agricultura e muitos não se adaptaram. Por volta de 1911, três delas foram embora para a região de Castro e fundaram o município de Carambeí.

Em sua pesquisa para um novo livro que vai contar a história das localidades do interior de Irati, o engenheiro civil e escritor, Dagoberto Waydzik descobriu que eram muitas as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes que vinham em busca de trabalho. “Cada família holandesa recebeu do governo brasileiro dez alqueires de terra, sementes e algumas ferramentas. O combinado era pagar o governo em uma década. No início, as famílias até receberam alimentos, mas depois precisaram viver da subsistência. Os colonos vieram pobres e não tinham condições de realizar investimentos. Encontraram diversas dificuldades, pois tiveram que derrubar a mata para poder plantar. Após a limpeza da terra, queimavam, e após a queimada, plantaram milho, feijão e batata”, descreve Waydzik em um trecho do seu livro ainda não lançado.

Uma das atividades do coronel Emílio Baptista Gomes e de Manoel Grácia foi uma serraria, sendo a primeira de Irati, localizada atrás de onde hoje é o Clube Polonês. Foi ali também que por volta de 1908 se produziu a primeira iluminação em uma pequena região da cidade. No Rio das Antas, existia um canal em direção aos trilhos que foi construído para se colocar uma roda d’água para gerar eletricidade. Arcelio Batista Teixeira foi quem assumiu como lançador da iluminação elétrica de Irati, vindo posteriormente a construir a Casa da Cultura.

Outra pessoa que se destaca na história de Irati, segundo Araújo, veio inicialmente para trabalhar na serraria: José Smolka. Posteriormente ele criou a escola Wolnosc para a instrução de poloneses que estavam trabalhando na região. “Com o advento da guerra, eles foram proibidos de usar o nome e ficou conhecido como Polonês, onde hoje é a Sociedade Beneficente Cultural Iratiense”, explica Araújo.

Desenvolvimento cultural e econômico

O pesquisador comenta que com o desenvolvimento da cidade e com o passar dos anos, o primeiro projeto do que viria a ser o cinema começou a surgir por volta de 1920. Um homem que possuía um projetor e uma moto passava de cidade em cidade para exibir os filmes e, como não existia energia elétrica, a moto servia também como um gerador para que o filme pudesse ser rodado. “O cinema de Irati é talvez um dos mais velhos do Brasil de sala fixa. Era chamado de cinema itinerante. Um homem tinha uma máquina e uma moto e vinha de cidade em cidade. Ele tinha um cavalete, erguia a parte de trás da moto, ligava a uma correia que era ligada a um gerador, que gerava eletricidade para passar o filme, pois na época não tinha energia elétrica”, detalha.

Araújo destaca que um dos principais problemas deste tipo de tecnologia da época era o improviso quando algo dava errado. “Uma coisa curiosa do cinema é que o som era passado separado em outro aparelho de som. Como arrebentavam muito os filmes, eles tinham que parar e cortar um pedacinho e colar, e eliminava uma parte da imagem. Então algumas vezes o mocinho caía e depois que saía o som do tiro.”

Empolgado com a magia do cinema, o polonês João Wasilewski, então proprietário da Padaria Wasilewski (onde atualmente é a Panificadora Irati), fundou o Cine Theatro Central em 28 de agosto de 1920. Esse cinema funcionou ao longo de 62 anos. O pai de José Maria Gracia Araújo, Dario Araújo, popularmente conhecido como Primo Araújo, atuou no local como artista criando os cartazes dos filmes. “Meu pai que pintava os cartazes do cinema. Ele era coletor federal, mas nas horas vagas era artista. Vinham as fotos, ele pegava e ampliava, fazendo colorido. Como o seu João queria pagar e meu pai não queria, ele recebia 10 pães por dia e duas entradas para o cinema. Como a minha madrasta não ia, eu assistia todas as sessões, a semana inteira”, recorda Araújo.

Desta fase em diante, a agricultura, que era predominante em Irati começou a dividir espaço para outras atividades industriais e comerciais. “Me lembro da chegada do maquinário da Fábrica de Fósforos em Irati. Foi uma procissão. Eram máquinas já de segunda mão, mas ainda não tinha um prédio, então foi armazenado tudo próximo ao Cemitério [Municipal] e virou um lugar de visitação que todo mundo queria ver. Levou uns dois ou três anos para as máquinas saírem dali. Talvez tenha sido uma das primeiras indústrias que marcaram uma mudança acentuada em relação à agricultura que tínhamos aqui”, aponta o pesquisador.

Dias atuais

Atualmente com uma população estimada em quase 62 mil habitantes, Irati é o mais populoso entre os dez municípios da Amcepar e tem sua economia baseada em diversos setores produtivos. De acordo com dados do IBGE, a cidade tem quase 2 mil empresas de diversas áreas. Em 2020, Irati estava na 34º posição no estado, com 1.973 empresas e organizações atuantes instaladas, com pouco mais de 14 mil pessoas do quadro de pessoal ocupado assalariado (23%), e média de 2,1 salários por trabalhador formal.

Outra parte importante da história do desenvolvimento econômico e cultural de Irati foi escrita a partir da educação, sobretudo com a participação da Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro). Gratuita, ela possibilitou o acesso à cultura para muitas pessoas de toda a região. Antes de sua criação, há mais de 30 anos, quem desejasse ter uma formação acadêmica precisavam se deslocar à Ponta Grossa ou Curitiba, explica diretor do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da Unicentro, e doutor em Políticas Públicas e História da Educação, Edélcio José Stroparo. “Antes da criação da Unicentro, tanto em Irati como em Guarapuava, havia a necessidade de importação de mão de obra qualificada para as profissões que exigiam maior qualificação (medicina, direito, agronomia, veterinária, farmácia). Moradores deslocavam-se em busca de qualificação em outros municípios, como Ponta Grossa ou Curitiba”, relembra. 

Edélcio explica que com profissionais se formando em Irati, muitos continuaram atuando na cidade, o que auxiliou no desenvolvimento do município. “A criação da Unicentro propiciou a formação local desses profissionais, e isso tem a ver com o desenvolvimento das regiões, à medida que se teve a formação dos mesmos, houve uma facilitação de implantação dessas áreas. Houve também uma demanda de outros municípios, estados e país. Vieram buscar a formação e por aqui permaneceram”, avalia o diretor da universidade.

Ele aponta que a Unicentro foi importante para o surgimento de novos centros educacionais que complementam as opções de cursos para a região. E isso que impacta diretamente no desenvolvimento econômico e cultural. “Com a chegada da Unicentro em Irati, na medida em que a profissionalização ocorreu, atraiu para a cidade outras instituições de ensino superior, passou a abrir espaços e caminhos para a existência de projetos alternativos, atuando em áreas que a Unicentro não atua. Isso é importante, pois auxilia no projeto de formação, já que a expansão do ensino superior público e gratuito está paralisada há muitos anos. Além disso, tem polos EAD atuando no município. O conjunto disso tem trazido benefícios, gerando a ‘Cidade de Irati Universitária’, alavancando na formação cultural e profissional do município e mudado o perfil da população”, acrescenta.

O professor comenta que a Unicentro surgiu no ano de 1990. Antes disso, existia em Irati uma faculdade municipal chamada Faculdade de Educação Ciências e Letras de Irati, que era um movimento conjunto com a Faculdade de Filosofia e Letras de Guarapuava. Com a modificação da Constituição Estadual, em 1989, fez-se necessário a criação de uma universidade estadual. “Vale ressaltar o Movimento Comunitário, bastante importante, que mobilizou a comunidade acadêmica da FECLE e FAFIG, e as comunidades das duas cidades, Irati, Guarapuava e seu entorno. Havia a percepção de que a região precisava de uma universidade estadual, pública e de qualidade, que fosse criada dando seguimentos aos objetivos estabelecidos pelo Plano Estadual de Educação de 1964, que previa um conjunto de instituições de ensino superior interiorizadas. Porém, o objetivo foi extrapolado e as universidades e faculdades estaduais passaram a atuar de forma contundente no próprio desenvolvimento do estado, com a profissionalização de pessoas em diversas áreas isso constituiu no mais importante pilar de desenvolvimento econômico do estado numa trajetória que nasceu em 64 e se estende até os dias de hoje”, descreve Edélcio.

Futuro

Assim como outras cidades, Irati também enfrentou crises ao longo de sua história e aprendeu a superá-las. Para o professor doutor em Políticas Públicas e História da Educação, Edélcio José Stroparo, o futuro de Irati é promissor com a formação de alunos em diversas áreas, principalmente as voltadas à tecnologia, o que abre novos caminhos econômicos além dos tradicionais.

“A perspectiva para os próximos anos é animadora. Irati se descola dos municípios que atuam regionalmente apenas no setor primário da economia e passa a atuar em outros setores mais especializados, vivendo uma verdadeira revolução. Irati se prepara para ingressar na era tecnológica e de informação. A Unicentro está caminhando, de forma acelerada, para esse patamar”, defende. Neste contexto, ele acredita há a exigência de processos dinâmicos envolvendo a sociedade e muitos investimentos. “A reunião de investimentos públicos e privados nas universidades públicas, como Unicentro, IFPR e das instituições de natureza privada (sejam presenciais ou a distância) está constituindo a massa crítica e trazendo essa qualificação para impulsionar o município de Irati para ingressar definitivamente na era da tecnologia e poder aproveitar de todas as mudanças, principalmente agora pós pandemia”, finaliza Edélcio.

Covalzinho, lugar onde se planta couve

Covalzinho, nome que foi aos poucos sendo esquecido após a chegada da estrada de ferro e da estação Iraty, surgiu devido a alguns tropeiros que utilizavam a região como rota de passagem. “Irati foi um caminho alternativo aos tropeiros. Normalmente as tropas vinham de Guarapuava para Ponta Grossa, mas como por lá tinham muitos postos para pagamento de impostos, eles desviavam por aqui para economizar. Como Irati era visto como um buraquinho e se plantava muita couve por aqui, eles diziam ‘vamos lá no covalzinho’ e foi assim que surgiu o nome”, explica o pesquisador José Maria Grácia Araújo.

Texto: Lenon Diego Gauron

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