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Edição 1230 - Já nas bancas!
04/05/2020

Editorial - Crise, necessidade e sucesso: Por que e como mudar?

Editorial - Crise, necessidade e sucesso: Por que e como mudar?

Em tempos de crise, muitos se desesperam diante do inusitado e muitos conseguem enxergar as oportunidades que surgem. A diferença entre um grupo e outro é que quem consegue reconstruir processos e mudar de acordo com as circunstâncias tem êxito e pode até mesmo ganhar muito dinheiro, enquanto aqueles que se desesperam acabam paralisados, com muitos problemas e dificuldades, ou mesmo vindo a falir.

Guerras, crises e pandemias diversas já acorreram anteriormente e exigiram mudanças no comportamento e nas formas de sociabilidade. É só voltar o olhar para a história que é possível perceber que nada é tão novo assim. E que da mesma forma como a pandemia do coronavírus pegou o mundo inteiro despreparado, outras crises também o fizeram.

Superação é palavra de ordem para se obter sucesso.  E um ótimo exemplo disso é o de Francesco Matarazzo, que deixou a Itália para fugir da crise do pós-guerra e veio recomeçar a vida no Brasil. Décadas depois, passando por muitas crises aqui e recomeçando sempre, se reinventando sempre, ele morreu sendo o proprietário de um dos maiores impérios econômicos do país e da América Latina.

Ao vir para o Brasil, Matarazzo investiu todas as suas economias em banha de porco e pretendia iniciar um negócio aqui, vendendo os barris de banha que trouxe da Itália, mas a carga afundou no porto do Rio de Janeiro. Ele perdeu tudo e teve que começar do zero, vendendo de porta em porta aqueles objetos de que dispunha, como pentes e outras quinquilharias. 

Enfrentando esta dificuldade, em contato direto com os clientes ele observava o que as pessoas precisavam e o que elas tinham para trocar, como porcos. Diante da matéria-prima, ele aceitou porcos como forma de pagamento de outros objetos e criou uma fábrica de banha.  Depois montou um armazém e foi diversificando o negócio, sempre inovando. Então deixou o interior de São Paulo e abriu um empório na capital e teve prejuízo.

No entanto, lá ele pode ver que, com a abolição da escravatura, surgiu um novo mercado consumidor.  Matarazzo antevia as necessidades de prover produtos, então, mesmo com as fábricas de banha dando lucro, observou que o pão se consumia todos os dias e que a banha de porco não. Decidiu mudar. Inovar.  Tentou um empréstimo bancário para importar farinha de trigo e teve o crédito negado. Vende as fábricas de banha e novamente começar do zero.  Ele investiu todo seu patrimônio na importação de farinha de trigo, a contragosto de familiares, que romperam a sociedade quando ele. Os negócios de importação de trigo dos Estados Unidos prosperaram até que as relações entre Cuba e Estados Unidos se tornaram ríspidas e impossibilitaram a vinda do trigo ao Brasil.

Com isso, ele abriu novas rotas de comércio, comprando trigo da Argentina, sem apoio dos demais investidores neste mercado. Com a guerra entre Estados Unidos e Espanha, a nova rota de comércio com a Argentina é essencial e a fortuna vem, coroada pela construção de uma mansão na Avenida Paulista, que tornou o empresário admirado por todos. Entretanto, Matarazzo entende que o dinheiro ganho com a rota alternativa em tempos de guerra foi sorte e decide que não pode depender da sorte.  Então empreende para produzir farinha no Brasil e constrói um moinho – tendo inicialmente seu projeto rejeitado pelo banco, mas não desiste. O império Matarazzo ia se fortalecendo à medida que novas fábricas eram criadas para atender as necessidades do moinho, como tecelagens para ensacar o produto. E o empreendedor também foi desenvolvendo novos negócios, como na área de cosméticos, com produtos mais baratos para que imigrantes e classes mais pobres pudessem comprar. Desta forma, o milionário continuou criando, inovando, conforme as necessidades eram percebidas. Alguma semelhança com o momento atual? Quantas novas necessidades surgiram com o isolamento social que vivemos? Quantos novos produtos e serviços antes irrisórios se tornaram essenciais? Quantos desses itens continuarão a ser comprados passada a pandemia, alterando hábitos de consumo?