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03/11/2020

Criminosos especializados miram máquinas e insumos agrícolas no Paraná

Nos últimos dois anos e meio, mais de 20 mil ocorrências foram registradas em propriedades rurais; FAEP tem cobrado providências

Criminosos especializados miram máquinas e insumos agrícolas no Paraná

Já passava das 21 horas quando o agricultor João Carlos Carrion encerrava o expediente na fazenda em que é funcionário, em Astorga, Norte do Paraná. Ele desceu do trator e fechava as barras do pulverizador, no instante em que foi surpreendido por dois bandidos armados – um com uma carabina, outro com um revólver. Carrion foi encapuzado, amarrado e colocado no banco de trás do automóvel dos assaltantes. Enquanto um dos ladrões rodava de carro com o agricultor, o outro levava o maquinário. Ele foi libertado em um canavial já na alta madrugada, no município vizinho de Ângulo, a 30 quilômetros de Astorga. O crime ocorreu em 24 de abril deste ano. O trator John Deere 6100 (avaliado em R$ 120 mil) e o pulverizador Columbia (estimado em R$ 30 mil) jamais foram encontrados. 
Longe de ser uma exceção, o caso ilustra uma realidade grave: a vulnerabilidade das zonas rurais, que tem tornado o homem do campo e sua família alvos de quadrilhas. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), ao longo dos últimos dois anos e meio, o Paraná registrou 2.354 roubos a propriedades rurais (quando bandidos armados rendem as vítimas) e 19.261 furtos (em que ladrões levam os bens quando a vítima não está no local ou não percebem a ação).  Além disso, 1.026 veículos foram furtados e 750 foram roubados no meio rural. Juntos, são quase 23,4 mil ocorrências em meio rural, no período: média de 779 por mês. Por um lado, o número de casos vem caindo, mas ainda estão em um patamar preocupante: são 25 furtos ou roubos em meio rural por dia. Os dados dizem respeito apenas aos crimes em que as vítimas registraram boletim de ocorrência. 
“É um tipo de ocorrência que nos preocupa. O produtor rural trabalha de sol e a sol, paga seus impostos e, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus, manteve a produção e sustentou a economia. Fazemos nossa parte da porteira para dentro. Precisamos que o poder público faça a parte dele e garanta nosso direito à segurança. Precisamos ter segurança para continuar produzindo”, disse o presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR, Ágide Meneguette. 
Há anos acompanhando a situação de perto, o Sistema FAEP/SENAR-PR tem adotado uma série de providências, seja cobrando autoridades ou orientando produtores rurais. No ano passado, por exemplo, a Federação enviou um ofício à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), solicitando a criação de uma força-tarefa para investigar e desbaratar quadrilhas que têm como alvo propriedades rurais. Em 2017, a FAEP e o governo do Estado Paraná publicaram uma cartilha com orientações que os produtores podem tomar para minimizar a ação dos bandidos.

Além disso, a entidade também vem estimulando que os agropecuaristas fortaleçam a segurança local, participando dos Conselhos Comunitários de Segurança. 
Dono da fazenda assaltada em abril – e cuja ocorrência foi relatada no início desta reportagem –, o produtor rural Ademir Primon conta que formalizou boletim de ocorrência assim que seu funcionário foi localizado. O próprio produtor chegou a fazer buscas, seguindo o rastro deixado pelo trator na estrada rural, mas não conseguiu encontrar os maquinários. Apesar do empenho, ele se sente frustrado com a falta de satisfação por parte do poder público. 
“Nunca nem ligaram para perguntar ou para me informar”, disse. “Eu tenho propriedade no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Lá ninguém bagunça assim, não. Raramente essas coisas acontecem lá. Quando acontece, a polícia vai atrás e pega. Lá, a bandidagem não se cria”, acrescentou. 

Bens agropecuários na mira 
Os casos sugerem que, cada vez mais, os bandidos estão de olho em bens específicos, diretamente relacionados à atividade rural, como máquinas e insumos, além dos próprios produtos agropecuários. Em 30 de maio de 2019, por exemplo, o produtor Volter Lucas Schwerz foi rendido por um homem armado, quando terminava de ordenhar as vacas em sua propriedade, em Cidade Gaúcha, Noroeste do Paraná. Outros três bandidos apareceram e a quadrilha o levou para dentro de casa, onde estava o filho do pecuarista, que tinha nove anos de idade. Ali, os ladrões começaram a perguntar sobre o trator, um John Deere, que Schwerz tem. 
“Eles especulavam comigo que tipo de trator era. Aí, um deles se afastava e conversava por telefone com o receptador. O modelo acabou não interessando e eles não levaram o trator”, disse o produtor. 
Os bandidos, no entanto, não perderam a viagem. Lotaram o carro de Schwerz, um Nissan Versa, com objetos de valor que encontraram na casa, como um notebook, R$ 1,5 mil em dinheiro, algumas joias e até carne que estava no freezer. Pai e filho foram levados pelos bandidos a um canavial que fica a 12 quilômetros da fazenda. Lá, foram soltos, durante a madrugada. Os ladrões optaram por não levar a caminhonete F-350 que havia na propriedade. As vítimas voltaram à propriedade andando. Posteriormente, a polícia prendeu uma quadrilha na região e Schwerz foi chamado para reconhecer os bandidos, mas não foi possível identificá-los, já que os assaltantes estavam encapuzados quando invadiram sua fazenda. 
“Na hora que você está nas mãos dos bandidos, se passam mil coisas na cabeça. Dá uma sensação de impotência muito grande, principalmente com filho pequeno”, disse Schwerz. “Eles eram franzinos, moleques, todos com menos de 25 anos”, acrescentou. 
Entre o natal e réveillon do ano passado, a propriedade de João Laertes também foi alvo de uma quadrilha, no distrito de Entre Rios, em Guarapuava, no Centro-Sul. À noite, um homem chamou o gerente da fazenda pelo nome e quando ele saiu para atender, foi rendido por outros dois bandidos. O funcionário foi amarrado e sofreu tortura psicológica – os assaltantes pegaram uma seringa veterinária e ameaçavam aplicar Ivomec (medicamento veterinário para controle de parasitas) na vítima. Levaram ferramentas que estavam no barracão, como um compressor de ar. Além disso, mataram e carnearam uma vaca, que estava apartada no local. 
“A casa do colaborador fica a cerca de 100 metros da sede. Acho que não vieram à sede, porque viram que tem alarme”, disse Laertes. “O problema é que esse tipo de crime cria um trauma muito grande. Até hoje o funcionário está apavorado”, disse. 
Receptadores 
Para as forças de segurança, este tipo de crime só se sustenta em razão de uma figura específica: a do receptador, ou seja, aquele que compra os produtos furtados ou roubados. Afinal, as quadrilhas de assaltantes só agem porque há mercado para os bens obtidos de forma criminosa. A pena prevista para receptação não passa de cinco anos de reclusão. Na maioria dos casos, esses criminosos respondem pelo crime em liberdade. Em caso de condenação, podem cumprir a pena em regime semiaberto. 
“O receptador é o principal. A gente tem mais aversão ao receptador do que ao próprio ladrão. Esses receptadores são, em geral, donos de mercados, de frigoríficos, fazendeiros. O principal articulador do furto de gado e de produtos agropecuários é o receptador”, disse o delegado João Paulo Sorigotti, da comarca de Terra Rica, Noroeste do Paraná. 

No caso de implementos agrícolas e de insumos, fica ainda mais claro que os produtos furtados ou roubados são comercializados entre os próprios produtores rurais, em um mercado clandestino e criminoso. Por isso, os agropecuaristas devem ter consciência e jamais comprar bens de procedência duvidosa e sem nota fiscal. Caso contrário, se estará fomentando esse círculo criminoso. 
Em setembro de 2018, por exemplo, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Roda Livre. Em menos de um mês, 18 tratores foram recuperados. Quatro dessas máquinas estavam em uma revendedora de veículos de Santo Antônio do Sudoeste, no Sudoeste, onde os equipamentos eram negociados com produtores rurais da região. Na maioria dos casos, os agricultores compravam o implemento de boa-fé. 
Dinâmica 
Além disso, a própria dinâmica dos casos dificulta a investigação. Isso porque as propriedades rurais se encontram, na maioria dos casos, em vias pouco movimentadas. Com isso, raramente há testemunhas que possam ajudar a polícia a identificar as quadrilhas e chegar aos bandidos. Mesmo em caso de roubos – em que os produtores têm contato direto com os assaltantes –, é difícil reconhecê-los, seja pelo fato de usarem máscaras, seja pelo fato estado emocional em que as vítimas ficam após as ações criminosas. 
A participação efetiva em Conselhos Comunitários de Segurança é uma das orientações da FAEP aos sindicatos rurais do Estado. Na avaliação da Federação, a ação dos Consegs é uma forma de os produtores rurais participarem das decisões relacionadas às políticas de segurança dos municípios e de colaborar com as autoridades, fortalecendo uma rede entre a sociedade e as polícias Civil e Militar. 

Texto/Foto: Assessoria FAEP

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