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27/08/2021

Como está sendo a retomada das atividades do comércio em Irati e quais cuidados continuam necessários?

Enquanto comerciantes tentam se recuperar dos prejuízos e voltar a contratar, autoridades sanitárias alertam que é preciso atenção nesta volta das atividades econômicas e sociais, pois a pandemia não acabou

Como está sendo a retomada das atividades do comércio em Irati e quais cuidados continuam necessários?

O avanço da vacinação contra a Covid-19 e a diminuição de casos da doença tem possibilitado a retomada de diversas atividades econômicas e sociais. Em Irati, assim como no Paraná, as aulas presenciais foram retomadas no sistema híbrido, e medidas restritivas foram flexibilizadas, possibilitando, por exemplo, a reabertura do cinema.

A volta de atividades, mesmo com restrições, indica alguma recuperação para a economia local. Entretanto, segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Irati (Sindirati), Airton Trento, os comerciantes ainda estão tendo dificuldades para recuperar o faturamento anterior à pandemia. “Estamos realizando vendas. Acredito que o comércio iratiense deve estar vendendo um pouco mais da metade do que vendia normalmente, antes da pandemia”, contou.

A esperança de faturamento neste mês de agosto teve como foco as vendas direcionadas ao Dia dos Pais. Para Airton, o resultado das vendas nesta data comemorativa foi positivo, apesar de ser totalmente diferente de anos anteriores à pandemia. “Ele teve um movimento maior que o normal, no tempo da pandemia – o novo normal. Ele foi positivo, sem dúvida nenhuma, vai agregar um aumento das vendas nesse mês por conta do Dia dos Pais. Lógico, não foi um absurdo a venda, porque o pessoal ainda está com esse receio de sair, entrar no estabelecimento e, de repente, contrair o coronavírus. O que acho que não ocorreu nas empresas”, explica.

Com o receio das pessoas, o comerciante também começa a controlar a compra de produtos de fornecedores, afetando também a indústria, que conseguiu retomar a produção. “As indústrias estão produzindo mais e já têm oferta para o empresariado de alguns materiais. Mas, nós empresários, sabemos que as indústrias estão se batendo. Vemos empresas grandes, o proprietário e o gerente geral têm visitado todas as empresas do país porque estão numa demanda para produção, sem uma perspectiva que possa ser correta. Hoje eles estão sem programação para um período pandêmico como o nosso. Não se sabe quanto produzir, qual será a demanda desse mês ou do mês que vem e está tudo na área da incerteza. Eles estão produzindo, nós estamos comprando. Eu, particularmente, estou comprando a metade do que comprava antes”, revela.

Os comerciantes acabam freando as compras com medo de futuras dívidas. “Nós temos que saber comprar para não ficarmos endividados. E para que não sobre estoque demais para uma demanda menor, logicamente, muito embora não saibamos mensurar o quanto menor. Se vai vender o mesmo tanto no mês que vem, nós não temos o histórico apropriado para fazer a avaliação. Mas temos a perspectiva de melhora”, afirma.

Mais do que vender, também é preciso recuperar as financias abaladas pelas medidas restritivas impostas no ano passado, além de ter que rever fornecedores, pois alguns fecharam e acabaram modificando o dia a dia de quem continuou com as atividades. “Vários empresários que forneciam para as empresas locais fecharam. Não tiveram essa sorte de terem caixa. Já estavam complicados com a situação econômica do país, com impostos elevados e vários problemas que já enfrentavam antes da pandemia. Com a pandemia, a situação do comércio foi ainda mais fragilizada”, relata o presidente.

O resultado é que a insegurança dos comerciantes dificulta novos investimentos e até mesmo a contratação de mais funcionários. A consequência é a diminuição da capacidade de atendimento dos estabelecimentos, que já possuem uma capacidade mínima de pessoas reguladas. “O empresário hoje não tem a capacidade de atender mais que o dobro de uma venda do ‘novo normal’”, informou.

Por isso, a expectativa é esperar até outubro para verificar se haverá maior demanda ou não. “Esperamos que as coisas se estabilizem e, sem dúvida nenhuma, com a estabilização vai surgir a necessidade de contratação de mão de obra. Infelizmente, não chegou o momento. Estamos vendo agora o posicionamento da demanda para outubro, Dia das Crianças, para a gente se posicionar em relação a contratações ou não para o período do Natal”, afirma o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Irati.

Um dos fatores que pode ajudar nesta recuperação é a vacinação da população. “Esperamos que todo mundo se vacine. Esse efeito avassalador que deu na economia local e de toda nação, e do mundo em geral, foi justamente do coronavírus”, diz.

A vacinação também é a aposta do coordenador do Centro de Operações Especiais e de Fiscalização da Covid-19 de Irati (COEF), Agostinho Basso. Mas ele alerta que isso acontecerá somente se a vacinação for universal. “Nós só iremos vencer a pandemia de forma global, no mundo inteiro, quando todas as pessoas receberem a segunda dose da vacina. E também decorrer o prazo de um mês da segunda dose que é o tempo que demora para que a pessoa esteja realmente imunizada”, explica.

Cautela

As medidas restritivas em Irati foram flexibilizadas após a queda de casos nos três últimos meses. O mês de maio foi um dos que registrou mais casos positivos em Irati, com 2218 casos positivados e 61 óbitos. Já em junho, o número de casos caiu para 984 casos positivados e 33 óbitos. No mês seguinte, em julho, o número seguiu em queda, com 398 casos positivados e 11 óbitos.

A queda só foi interrompida no dia 9 de agosto, quando ocorreu um aumento de casos positivos. Contudo, segundo o coordenador, esse aumento foi porque as autoridades sanitárias fizeram o alerta para que as pessoas procurassem fazer o teste assim que tivessem os primeiros sintomas. “Nós percebemos que como tinha dado a queda significativa nos meses anteriores, junho e julho, a população com a chegada do inverno, começou a não valorizar os primeiros sintomas. Eles não estavam procurando tanto os serviços de saúde nos primeiros sintomas gripais. Fizemos um trabalho de divulgação e fortalecimento da necessidade de buscar o exame em qualquer sintoma gripal”, disse.

Mesmo com o aumento no início do mês, os números continuam menores do que em julho: 257 casos positivados e 4 óbitos até o dia 16 de agosto.

Apesar da queda, a preocupação continua. Isso porque estudos indicam que pode haver um aumento de casos em setembro.  “A tendência é de um equilíbrio e também de manter os decretos da forma como estão. Mas tudo pode mudar. Estamos vendo alguns estudos epidemiológicos e de infectologistas, principalmente da Fiocruz, do Instituo Butantã e das universidades, em que eles esperam um aumento de casos para setembro. Isso é possível. Única coisa que nós não sabemos ainda quanto de aumento terá e como será esse mês de setembro”, conta.

O coordenador ressalta que o aumento não é o único fator para que se tenham medidas mais restritivas. É preciso aliar o quão grave está a situação no município. Assim, a perspectiva não é de fechamento do comércio como no ano passado. “Não é porque está aumentando muito os casos que iremos tomar uma atitude muito drástica. Porque se for um aumento de caso, porém não patogênico [com casos mais graves] e não letais, saberemos conduzir, sem muita alteração na vida das pessoas”, disse.

Para que os casos continuem sob controle, Agostinho destaca que é preciso que as pessoas procurem os estabelecimentos comerciais apenas se necessário, evitando aglomerações. “Não é porque o restaurante está aberto que eu devo ir lá. Não é porque as lojas de calçados, roupa, confecções estão liberadas que eu preciso necessariamente ir lá. Não é porque alguns estabelecimentos estão sendo liberados que eu tenho necessidade de estar lá”, afirma.

Além disso, ele ressalta que é preciso colaboração dos empresários em manter os cuidados e afirma que a intenção é tentar fazer um equilibro entre o controle da doença e a possibilidade de manter a economia ativa de forma segura. “Sempre falei desde março de 2020 que nós temos que ter como prioridade a saúde, a vida e o bem-estar das pessoas, porém teremos que equilibrar com a produção, a economia e a manutenção do emprego e da renda porque as pessoas não padecerão da Coid-19, mas padecerão de outros problemas decorrentes”, destaca.

Volta às aulas

A reabertura das escolas preocupava pela possibilidade de aumento de casos.  Após mais de um ano e meio, diversos alunos voltaram às aulas presenciais na rede municipal de Irati.  Segundo Agostinho, a avaliação do COEF é que a volta às aulas foi tranquila. “Nós não tivemos casos comprovadamente de contaminação de Covid-19 em ambiente escolar. Tivemos alguns poucos casos de adolescentes que pegaram Covid ou professores, mas não chegamos a ter surto em escolas”, explica.

O surto acontece quando há 3 casos ou mais positivados em um único estabelecimento. Agostinho conta que uma das suspeitas de surto foi na Apae de Irati, mas foi descartada porque os casos não foram positivados.

O COEF informa que setor educacional tem cumprido todas as regras para evitar uma contaminação. “A volta ao ambiente escolar não aumentou casos nem em adolescentes, nem em crianças, que a gente pudesse dizer que foi realmente fruto dessa volta. Até porque estão voltando gradativamente, aos poucos, cumprindo todas as regras. Está bem satisfatório para nós da Saúde”, explica.

Retomada?

Mesmo com as dificuldades, a economia brasileira já está em processo de recuperação, segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Estêvão Bastos. A previsão é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, por exemplo, cresça nos próximos meses. “O Banco Central faz uma pesquisa junto a mais de 100 instituições e consultorias sobre previsões e expectativas sobre variáveis macroeconômicas do Brasil. De acordo com isso, com o cálculo que fizemos no Ipea, o PIB no segundo trimestre provavelmente cresceu entre alguma coisa entre a 0,3% em relação ao primeiro trimestre. E continuaria crescendo ao longo do segundo semestre também”, disse.

Um dos fatores para o aumento do PIB será a volta do funcionamento de empresas, mesmo com medidas restritivas. Conforme o pesquisador, as empresas estão aprendendo a voltar mesmo dentro das limitações. “Agora é a vez dos serviços que cujas atividades vêm sendo cada vez mais retomadas, à medida que a vacinação vai avançando. Tanto governantes quanto agentes econômicos estão aprendendo a conviver, infelizmente, com a economia. Continuam com as atividades, mas seguindo as regras de cuidado. Mas acho que as pessoas, devido às necessidades, vão aprendendo a continuar nas suas atividades”, comentou.

As commodities, como são conhecidos produtos como soja, minério de ferro, açúcar e carne, continuam a ter peso no PIB. Mas diferentes de meses anteriores, onde os preços eram altos, agora será possível verificar a diminuição dos preços das comodities. “A expectativa no momento é que esses preços comecem a cair. Alguns, como o minério de ferro, já começaram. Primeiro que vão cair, mas a expectativa é que permaneçam em nível ainda mais elevado do que em relação a 2019. Não vai perder a alta toda que teve no ano passado até agora. Segundo, que esses impactos sobre o PIB são imediatos, mas também há o impacto duradouro, ao longo de anos, em até quatro anos”, comenta.

O pesquisador ressalta que o lado negativo da alta das commodities no último ano é que isso fez com que se elevasse a inflação dos preços de alimentos e de energia, com o petróleo e o preço da gasolina. Além disso, a pandemia desarticulou cadeias produtivas que apresentaram falta de matéria-prima para atender a demanda do comércio.

Para controlar esse cenário, o Banco Central tem elevado a taxa Selic, uma taxa de juros que é referência no mercado. Com juros maiores, a inflação pode diminuir no próximo ano. “A inflação deste ano será bem acima da meta e o objetivo do Banco Central é evitar que a inflação do ano que vem fique fora da meta. Para isso, ele começou esse processo de elevação da taxa básica de juros”, disse.

Apesar deste cenário de aumento de juros, o pesquisador explica que o país pode apresentar neste segundo semestre um crescimento com a retomada das atividades. “Neste segundo trimestre ainda vai ter o crescimento de 0,3%. No terceiro de 0,4% e no ultimo 0,9%. Então, a julgar por essas previsões, em relação ao segundo semestre, no terceiro e quarto [trimestre] o crescimento vai até acelerar”, conta.

Pandemia não acabou

O coordenador do COEF, Agostinho Basso, ressalta que apesar de diminuição de casos e aumento da vacinação, a pandemia ainda não acabou. “Nós estamos no meio de uma pandemia. Ninguém sabe se ela vai ser encerrada já agora em 2022 ou ela pode, se não nos cuidarmos, pode muito bem atravessar 2022 e atingir 2023. Isso levando a adoecer, levando as pessoas a óbito”, alerta.

Por isso, frisa que a vacina precisa ser encarada como ferramenta para o combate da Covid-19 e junto a ela, é preciso aliar outros cuidados, como a continuidade do uso da máscara e do álcool em gel. “A impressão que eu tenho é que as pessoas deixaram de carregar o álcool. Às vezes não tem mais na bolsa, no carro. Alguns estabelecimentos não se veem mais com facilidade esse álcool. E o álcool é extremamente importante”, alerta.

Outro fator é o distanciamento social, que continua sendo importante. “Não se aproxime de ninguém que não mora debaixo do mesmo teto que você. Ninguém a menos de um metro e meio”, explica.

Todos precisam se imunizar

 “Apesar de que as pessoas peguem a Covid, mesmo sendo vacinadas, com a vacina tem quase 100% de chance dessa pessoa de não ficar grave e não morrer. Por isso que importa a vacina”, explica o coordenador do COEF.

Ele enfatiza que a imunização precisa atingir o mundo todo para ser eficaz. “É uma ilusão pensar que ao vacinar só o meu país eu estarei livre da Covid-19. Enquanto o mundo todo não for vacinado – e nós temos países inteiros da África e do sul da Ásia que não receberam nenhuma dose –, e hoje não temos mais distância porque a pessoa pode estar no Japão às 10h e amanhã ao meio-dia pode estar em Irati. É uma ilusão achar que todos estão seguros, porque os países que não receberam vacina ainda estarão criando novas cepas e novas variantes do vírus”, alerta.

TExto: Karin Franco

Fotos: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

 

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