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09/11/2021

Chuvas recentes não garantem o fim da crise hídrica

Chuvas ajudaram, mas nem tanto. Para especialistas e instituições, as recentes chuvas ocorridas no Sul e Sudeste não solucionam a crise hídrica que afeta o abastecimento de água e geração de energia elétrica. O que é possível fazer?

Chuvas recentes não garantem o fim da crise hídrica

A região de Irati fechou o mês de outubro com um volume de chuvas maior do que a média histórica para a região. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), foram 195 milímetros em outubro, mais do que os 170 milímetros registrados na média histórica. O aumento de chuvas também foi registrado nos estados do Sul que passam por uma crise hídrica após meses sem chuva. O aumento chuvas possibilitou que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) previsse que, até o fim do mês de novembro, os reservatórios do Sul atinjam 45,6% de sua capacidade.

Porém, especialistas e instituições alertam que este aumento do volume de chuvas não deve solucionar a crise hídrica. Em Irati, o abastecimento não foi afetado, como na região metropolitana de Curitiba, mas a Sanepar alerta que é preciso continuar com a economia de água. “As chuvas das últimas semanas contribuíram para a melhoria dos níveis de mananciais. Porém, devido à estiagem severa e prolongada, é necessário um volume significativo de chuvas nos próximos meses para alcançar uma situação mais confortável diante da crise hídrica”, informou a assessoria da Sanepar.

A boa notícia é que a previsão do volume de chuvas em Irati continua próxima à média histórica. “Em novembro, ficaria próxima 100 ou 110 milímetros, e dezembro, a princípio, perto de 130 milímetros. Isso é uma previsão de longo prazo. Costuma, às vezes, não ser tão certeira, porque dependerá muito do tipo de sistema que atua na área”, explica o meteorologista do Simepar, Samuel Braun.

O que pode influenciar na região nos próximos meses é o fenômeno La Niña, que pode diminuir o volume de chuvas. De acordo com o meteorologista, mesmo com o fenômeno, a previsão na região de Irati não deve ser diferente, isto é, continuará com volume de chuvas próximo da média. “Essa La Niña se configurou agora em outubro, então ainda está muito no início. Por isso, possivelmente em novembro e dezembro a chuva seja mais perto da média. Há um indicativo que seja até um pouco abaixo da média. Mas nada de valores estratosféricos”, conta.

Esse aumento de chuvas ajuda a recuperar os reservatórios usados para a geração de energia elétrica no Paraná. “O principal reservatório do Estado, da usina Gov. Bento Munhoz da Rocha Netto (Foz do Areia) iniciou o período recente de chuvas com armazenamento de aproximadamente 9% e nos últimos dias registra nível de 49 % da capacidade”, informou a assessoria da Copel.

Mas mesmo com esse aumento, a Copel ainda pede para que os consumidores continuem com a economia de energia: “A recomendação do governo federal a todos os consumidores é utilizar a energia elétrica de forma racional e responsável”.

Sobre ações para evitar um desabastecimento, a Copel disse que tem a obrigação de atender e observar as orientações do ONS, que é responsável pela coordenação e planejamento de geração. Porém, não detalhou quais são as obrigações e orientações que está realizando.

Já a Sanepar destacou que houve ampliação de 60% da capacidade de reservação. “Também foram implantadas novas estações elevatórias de água, ampliada a rede de distribuição e realizadas melhorias na estação de tratamento de água. Mas a Companhia reforça que é preciso haver chuvas regulares e significativas para colaborar com o fim da crise hídrica no estado”, destacou.

Causas da crise hídrica

Para os especialistas, as mudanças climáticas são uma das causas da crise hídrica no país. “Fenômenos naturais, associados a impactos ambientais causados pelo homem, colaboraram fortemente para que a nossa matriz hidráulica tenha chegado a este ponto. A ocorrência de baixas médias de chuvas na maior parte do país nos últimos anos fez com que a redução de volumes dos rios tenha sido generalizada, colocando a vazão dos rios em um patamar crítico para a geração de energia elétrica”, destaca o Business Relationship Manager da Softtek Brasil, Carlos Vargas.

Neste ano, o país sofreu o pior regime de chuvas da série histórica dos últimos 90 anos no período úmido, causando diminuição nos reservatórios. “Nos últimos 10 anos ficou evidente que o regime de chuvas reduziu em relação à década anterior. A cada período úmido que passou, os reservatórios encheram menos, pois choveu menos da média. Isso é o reflexo de uma mudança no regime de chuvas que, pelas perspectivas, deve continuar a ocorrer”, explica a Head de Clima da Mercurio Trading, Gyslla Vasconcelos.

Além da mudança no regime de chuvas, outros fatores colaboraram para que a crise hídrica fosse mais aguda. Segundo engenheiros da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) o país aumentou a população e a produção industrial, demandando mais consumo de água. “De acordo com dados da Agência Nacional de Águas (ANA), a demanda de água em termos de vazão, considerando seus usos múltiplos, praticamente quadruplicou no país nos últimos 30 anos. Atualmente, por exemplo, o consumo residencial médio per capita no Brasil é de cerca de 150 L/hab.dia. (litros por habitante por dia)”, conta o engenheiro ambiental, André Aguiar Battistelli, que tem estudado o tema com o auxílio da engenheira agrícola Ana Carolina Barbosa Kummer e da engenheira civil Jeanette Beber de Souza.

Os especialistas da Unicentro ainda indicam que a ocupação desordenada do solo, tanto nas cidades como na zona rural, faz com que a vegetação próxima a rios e córregos desapareça, dificultando a preservação de nascentes. “Esta vegetação possui fundamental importância ecológica, uma vez que atua na retenção de sedimentos e poluentes carregados pela água da chuva, logo, sua remoção pode resultar na perda de qualidade da água, no assoreamento dos corpos hídricos e na seca de nascentes”, explica André.

O engenheiro ambiental ainda cita que algumas ações inadequadas aumentam as chances de uma crise hídrica. “É importante destacar os problemas associados à adoção de práticas agrícolas inadequadas e o lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento adequado, ações que também resultam na deterioração da qualidade da água dos corpos hídricos devido ao aporte de diversos poluentes”, alerta.

Impactos

No país, 57,61% da geração de energia é feita por usinas hidroelétricas. Para compensar a diminuição dos reservatórios das usinas hidroelétricas, o país passou a produzir energia nas usinas termoelétricas, que hoje são responsáveis por 24,76% da energia produzida. Isso fez com que o custo da energia aumentasse e caísse no bolso do consumidor, que está pagando mais caro pela energia. “É uma fonte bem mais poluente e cara. Pensando no médio prazo, isso afeta a segurança em investimentos, prejudica o meio ambiente com uma geração mais suja e pode afetar a economia no caso de apagões ou racionamento”, destaca o engenheiro e sócio-diretor da NeoSolar, Raphael Tostes.

Para a economista-chefe do TC Matrix, Fernanda Mansano, a consequência pode ser maior do que apenas uma conta de luz mais cara. “Entre alguns dos efeitos podemos citar o aumento no custo de produção, diminuindo a margem das empresas, aumentando os preços e podendo influenciar negativamente no emprego”, conta.

O que fazer?

Os especialistas são unânimes em dizer que, a longo prazo, o país necessita diversificar a geração de energia elétrica. “Enquanto não tivermos uma política mais forte e planejada de investimentos e desenvolvimento em outras matrizes energéticas, vamos continuar com as ações emergenciais, e não tomando as ações estruturais necessárias”, destaca Carlos Vargas. “Não há nada milagroso, que possa ser feito do dia para a noite. Infraestrutura demanda planejamento de longo prazo e ações coordenadas”, enfatiza Raphael.

Especialista em energia solar, Raphael destaca que a geração de energia por meio de fontes limpas pode ser um caminho. “No médio e longo prazo, seria interessante reduzir a dependência da fonte hidrelétrica, o que já tem acontecido gradualmente, além de acelerar o uso de fontes limpas e renováveis, como a energia solar e a eólica. Algumas fontes também poderiam ser usadas no curto prazo, como a energia solar fotovoltaica. Essa fonte é de rápida instalação, em 2 ou 3 anos seria possível acrescentar uma capacidade significativa se houvesse um plano para isso”, explica.

Nos últimos anos, o país tem incentivado a produção de energia limpa, mas ainda há um longo caminho. Segundo a ONS, a energia eólica é responsável somente por 10,95% da geração no país e a energia solar representa apenas 2,48% da geração no país. No Paraná, a diferença é maior: 87,28% da geração de energia vem de hidrelétricas, sendo que a energia solar e a eólica participam com apenas 0,01%, cada, na geração de energia. Atualmente, 10,13% da produção estadual é feita nas usinas termoelétricas e outros 2,06% são de pequenas centrais elétricas.

Para a economista, um dos meios para ajudar na diversificação da produção elétrica é o incentivo através das empresas. “Incentivar alternativas de oferta de energia e melhoria da concessão de crédito para as empresas investirem em eficiência energética. Estimular a redução do consumo de energia em especial nos prédios públicos e de utilidade pública também”, conta Fernanda.

Contudo, Carlos Vargas destaca que mesmo com os incentivos, esses meios de geração de energia ainda são insuficientes para a demanda corrente. Para ele, são necessárias campanhas de incentivo ao uso responsável dos recursos disponíveis, mas aliadas a um projeto maior de investimento. “Temos que evoluir o nosso modelo de geração, transmissão e distribuição de energia, transformando-o em um modelo atrativo para que tenhamos novos investimentos na variação da matriz energética. Associado a isto, temos que desenvolver melhor os mecanismos de combate a problemas climáticos e ambientais, pois apesar destes fatores impactarem significativamente a matriz de produção hidráulica, podem também afetar as outras matrizes no futuro”, comenta.

E mesmo com a diversificação da geração da energia, a crise hídrica pode ainda ser um risco para o abastecimento de água à população. Por isso, o respeito à legislação vigente é uma das maneiras que pode ajudar a conservar os recursos hídricos. Segundo engenheiros da Unicentro, o país tem aprovado leis neste sentido. “Apesar das leis em si serem muito bem elaboradas, a sua implementação prática pelos entes responsáveis do poder público nem sempre ocorre de maneira satisfatória. Nesse sentido, o primeiro passo seria garantir o cumprimento aos requisitos de proteção legais já estabelecidos”, explica André.

O incentivo às práticas de conservação também são alternativas destacadas pelo engenheiro ambiental. Dentre elas, a proteção e recomposição da mata ciliar, práticas agrícolas sustentáveis, controle de processos erosivos, proteção de nascentes, além da ampliação da oferta dos serviços de saneamento básico e o manejo sustentável de águas da chuva.

A participação efetiva da sociedade por meio da redução do consumo de água e de práticas sustentáveis são outros pontos que podem ajudar, segundo especialistas. Essa participação popular também pode ser feita por meio de comitês que ajudam no acompanhamento de ações. É o caso dos Comitês de Bacia Hidrográfica (CBHs), que garantem uma gestão descentralizada e participativa dos recursos hídricos. “Estes comitês são organismos colegiados compostos pelo poder público, usuários da água e sociedade civil, cuja responsabilidade consiste em promover o debate sobre questões relacionadas aos recursos hídricos; arbitrar conflitos; elaborar e aprovar o Plano de Recursos Hídricos da Bacia e acompanhar sua execução; estabelecer os critérios para concessão das outorgas; estabelecer os mecanismos de cobrança pelo uso de recursos hídricos e; selecionar a alternativa adequada de enquadramento. Neste sentido, a implantação dos CBHs contribui de forma direta para aplicação prática dos instrumentos previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos”, comenta André.

Outro fator importante é o incentivo às pesquisas, especialmente em institutos locais que possam mostrar a realidade da região e ajudar em novas soluções. É o que acontece em Irati por meio de estudos junto com a Unicentro. “A exemplo disso, tem-se o estudo realizado no ano passado em parceria com Secretaria de Agricultura, Agropecuária, Abastecimento e Segurança Alimentar do município, cujo objetivo foi avaliar a qualidade da água em nascentes da região. Por meio desse estudo foi possível identificar que a proteção de nascentes, o uso e ocupação do solo, bem como as ações antrópicas, influenciam sobremaneira na qualidade das águas. Outros estudos relacionados à intensidade de chuvas, escoamento superficial e infiltração de água no solo têm sido desenvolvidos com produtores da região da Irati, visando a conservação do solo e da água após eventos críticos de chuvas”, conta André.

Você sabe de onde vem a sua energia elétrica?

No Brasil:

Origem

Porcentagem

Usinas Hidroelétricas

57,17%

Usinas termoelétricas

24,76%

Energia Eólica

10,95%

Pequenas Centrais Hidroelétricas

3,05%

Energia Solar

2,48%

Usina Termelétrica Nuclear

1,10%

Centrais Geradoras Hidrelétricas

0,48%

Fonte: Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS)

No Paraná:

Origem

Porcentagem

Usinas Hidroelétricas

87,28%

Usinas termoelétricas

10,13%

Pequenas Centrais Hidroelétricas

2,06%

Centrais Geradoras Hidrelétricas

0,51%

Energia Eólica

0,01%

Energia Solar

0,01%

 Fonte: Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS)

Texto: Karin Franco

Foto: Letícia Torres/Hoje Centro Sul

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