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04/05/2021

Aumento do custo de vida pesa no orçamento das famílias

Segmentos de alimentação e transportes são os principais causadores do aumento de custo de vida entre brasileiros. Com a alta de preços de alimentos e combustíveis, economistas dão dicas do que fazer para tentar equilibrar o orçamento

Aumento do custo de vida pesa no orçamento das famílias

Apesar de abril começar a registrar queda nos preços, o custo de vida do brasileiro continua alto, se comparado ao ano passado. Dados sobre a economia mostram como o aumento de preços tem impactado na vida dos brasileiros.

Em 2021, os dois setores têm sido responsáveis pelo aumento de custo de vida, o setor de transportes e o de alimentação. Um ano após a declaração de pandemia do coronavírus pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de março mostrou um aumento de 0,45% no índice geral comparado ao mês anterior, ficando em 0,93%.

Na alimentação, o índice começou a mostrar uma queda, ficando em 0,12% em março, mas subindo em abril, ficando com 0,36%. Já nos transportes, houve aumento em março, com o registro de 3,79% no índice, puxado pelo aumento nos combustíveis. Em abril, os preços ligados ao setor de transportes começaram a diminuir, mas ainda registraram um índice de 1,76%, maior do que a do começo do ano, que ficou em 0,14%.

Alimentos

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) referente a março mostrou como esse aumento de preços tem impactado em diferentes faixas de renda. O estudo mostrou que houve uma aceleração da inflação em todas as faixas de renda em março e que no acumulado do ano, todas as faixas de renda também apresentam aumento da inflação.

Um dos segmentos que mais impactou no ano passado foi o de alimentação. Segundo a técnica de Planejamento e Pesquisa do Ipea, Maria Andreia Parente Lameiras, o aumento dos alimentos aconteceu por dois fatores: aumento da demanda logo após a pandemia e a mudança de hábitos das pessoas, que passaram a consumir mais alimento em casa. “Teve aumento de alimento no mundo todo, porque o alimento, ao contrário de outros bens, que você até consegue expandir a produção num médio prazo, o alimento não. Porque a balança do alimento é a plantação. Não tem como colher mais, daquilo que você plantou no ano passado”, comenta.

Apesar do preço do alimento subir em todo o mundo, no Brasil, o alimento também foi impactado pelo câmbio, devido à desvalorização do real frente ao dólar. “O câmbio atinge o alimento no país por dois canais. O primeiro canal é o seguinte: tudo aquilo de alimento que eu importo, chega mais caro. O que o Brasil importa? Trigo, por exemplo. Quando a gente fala de pão, biscoito, de macarrão que teve aumento de preço é porque o trigo chega mais caro no Brasil. Outra coisa que impacta o preço interno é que quando tem uma desvalorização, ou seja, quando o dólar ganha força e o real perde força, para o produtor nacional é melhor ele vender para o mercado externo, do que vender aqui dentro para o mercado interno porque ele vai ganhar em dólar e vai ganhar mais. Então, parte da produção que ia ser voltada para o consumo interno, acabou indo para o mercado externo, reduziu ainda mais a oferta de alimento no país, gerando aumento do preço”, explica.

Outro fator que colaborou para elevação de preços dos alimentos foi o próprio Auxílio Emergencial. Normalmente, pela lei da oferta e demanda, quando o preço aumenta, a demanda diminui. Contudo, com o auxílio emergencial de R$ 600 no ano passado, os brasileiros continuaram a comprar. “Mesmo diante de um preço mais alto, as pessoas continuaram a comprar o produto, mesmo estando mais caro”, afirma Maria Andreia.

A técnica do Ipea explica que em 2020, o aumento de preços dos alimentos atingiu mais os mais pobres. Entre os mais ricos, a inflação ficou menor no ano passado porque a alta de preço de alimentos foi compensada por descontos em outros setores, como o de educação, equilibrando o orçamento dos mais ricos. “Quando você olha o segmento dos mais pobres, o maior gasto é com comida e foi o que mais subiu. Quando você olha na outra ponta que são os mais ricos, não é que não sofreram com o aumento de preços dos alimentos. Eles sofreram. Eles pagaram mais caro na conta do supermercado. Mas em compensação, outras que eles estavam habituados a comprar caíram de preço. O exemplo mais latente que a gente tem foi a mensalidade escolar”, explica.

Já em 2021, sem os descontos do ano passado, a inflação dos mais ricos começa a crescer. “A inflação em 2021 está maior para os mais ricos porque já não tem os descontos que tiveram na pandemia e eles estão pagando mais caro por condomínio, por plano de saúde, por combustível”, disse.

Supermercados

Para o setor alimentício, o repasse do aumento dos preços dos alimentos é algo inevitável, segundo o superintendente do Sindicato do Comércio Varejista de Mercados, Minimercados, Supermercados e Hipermercados do Estado do Paraná (Sindimercados-PR), Antonio Marcos Correa. “Não tem como não repassar o preço. Se você recebe o produto, se vende no preço que estava, você não consegue comprar de novo, às vezes, repor. Muitas vezes há um sacrifício de margens, por exemplo, a cesta básica tem uma margem menor e essa margem vai aumentando em cada cesta de produtos no supermercado. Você começa ali na cesta dos alimentos básicos com uma margem [de lucro] menor e vai aumentando nos alimentos menos necessários, até chegar nas demais, que estão ali no bazar, em outros tipos de produtos”, conta.

Apesar da alta procura por alimentos, os supermercados acabaram vendo um menor volume de compras. “Geralmente o volume acaba caindo, quando você tem um aumento expressivo de preço, o consumidor procura alternativas. Alguns produtos são mais complicados de você substituir. Mas no caso da carne de boi, você pode substituir por porco, por frango. Mas a nossa dobradinha arroz e feijão já é mais complicada”, relata.

Em geral, os supermercados viram um bom faturamento, mesmo com a diminuição de volumes comprados. “Tem se vendido volumes um pouco menores, mas tem se mantido o faturamento. Houve um crescimento pequeno ano passado nos supermercados, em torno de 2% no faturamento, mas assim, muito bom em comparação a outras atividades que sofreram muito mais com a pandemia”, disse o superintendente.

Inflação

O estudo do Ipea também apontou que em comparação ao ano passado, a inflação para a faixa de renda mais baixa avançou de 0,25%, em março de 2020, para 0,71%, em 2021. Contudo, para os ricos, a inflação teve um avanço maior, passando de -0,20% no ano passado para 1,0% neste ano. “Os alimentos estão desacelerando, alguns estão com queda de preços, alguns crescem, mas estão crescendo menos. E o que está aumentando? Está aumentando basicamente preços administrados que são os combustíveis, que pesam para os mais ricos, que é a quantidade mais rica que tem carro”, conta a técnica do Ipea.

No acumulado do ano, considerando a trajetória da inflação, os mais ricos (2,3%) estão com a inflação mais alta que o segmento dos mais pobres (1,6%). A explicação está no fato dos preços dos alimentos terem começado a baixar. “Essa inflação dos mais pobres poderia ainda estar menor no ano se a gente não visse um aumento forte no gás do botijão e aumento no transporte público, em ônibus e trem”, comenta.

Preço do combustível

O preço do combustível pesa no orçamento de todas as famílias. Apesar de os ricos terem mais acesso ao transporte particular, o aumento do combustível é sentido pelos mais pobres de forma indireta, por meio de transporte público e transporte de mercadorias. “Está mais caro para o dono do carro particular encher o tanque, mas está mais caro o frete. E a nossa produção trafega no país pelo transporte rodoviário. Então, para os mais pobres, o impacto não é direto, mas existe o impacto secundário”, explica a técnica do Ipea.

O superintendente do Sindimercados frisa que o preço do combustível também interfere no preço final dos alimentos. “Impacta porque o transporte tem um custo relativo ao frete dos produtos, mas o fato que gera o aumento dos combustíveis também está relacionado com o aumento do alimento em si. O que a gente tem visto é um aumento dos preços das comodities no mercado internacional, devido ao aumento de consumo, principalmente no mercado chinês, e junto com isso, o aumento nos preços do petróleo. E junto a tudo isso a depreciação do real”, disse.

Em nota, o Sindicato dos Revendedores de Combustíveis e Lojas de Conveniências do Estado do Paraná (Paranapetro), que representa os postos de combustíveis, aponta que o aumento dos combustíveis é resultado dos aumentos realizados pela Petrobras nas refinarias de combustível. “Do começo do ano para cá, a Petrobras realizou diversos aumentos. A gasolina acumula alta de 54% nas refinarias, enquanto o diesel subiu 41 % nas refinarias”, destaca nota.A entidade ainda cita a questão do câmbio. “A Petrobras justifica estes aumentos alegando a alta do dólar e a necessidade de acompanhar o preço do petróleo no mercado internacional”, disse.

E também afirma que as distribuidoras não têm repassado a baixa de preço na mesma agilidade que a alta de preço. “Os postos não compram os combustíveis diretamente das usinas ou refinarias: são obrigados a comprar das distribuidoras. O que tem ocorrido é que as distribuidoras repassam as altas com grande agilidade para os postos. Por outro lado, quando ocorrem baixas na Petrobras, as distribuidoras demoram a repassar. O Paranapetro tem apontado isso com frequência”, destaca.

O sindicato defende que o valor final para o consumidor cairá somente se houver redução nos valores de tributos. “Uma baixa na carga de impostos resultaria na queda drástica do valor final ao consumidor. Atualmente, cerca de 44% do que é pago pelo litro da gasolina, por exemplo, é consumido por impostos. Ou seja, se o consumidor coloca R$ 100 de gasolina, cerca de R$ 44 vão para os cofres públicos”, finaliza a nota.

Qualidade de vida

Os economistas apontam que a qualidade de vida do trabalhador assalariado piorou. “Em um mercado onde se tem muitos desempregados, a dinâmica é de salários que se achatam e a inflação é considerada o mais perverso dos impostos. Temos que lembrar também que em um período de inflação e congelamento de salários, as pessoas perdem o poder real de compra. Assim, a qualidade de vida cai drasticamente”, explica especialista em Finanças e Tendências, Arthur Igreja.

O economista Wandemberg Almeida destaca que o achatamento de salários alcança até trabalhadores mais especializados. “Quando a gente olha para a questão salarial, a gente vê que a maior parte do emprego que é gerado no nosso país é o emprego assalariado. Se formos olhar as distorções, vamos ver que tem pessoas que tem nível superior, até pós-graduação, trabalhando com salário mínimo. Infelizmente é a realidade do nosso país. Pessoas se qualificam cada vez mais e acabam sendo praticamente obrigadas a aceitar esse baixo salário e essa baixa remuneração. Isso acaba gerando uma baixa de qualidade de vida dos trabalhadores”, aponta.

O que fazer?

Com o aumento do custo de vida, os brasileiros terão que repensar os gastos. “Nesse tipo de situação, o que é necessário fazer é adiar os planos e realizar um novo orçamento familiar. As contas, principalmente, precisam ser muito bem avaliadas, bem como possíveis substituições, como lazer, pedido de delivery, compras supérfluas, trocando por itens mais acessíveis”, explica Arthur Igreja.

O economista Wandemberg Almeida também enfatiza a necessidade de rever gastos. “Procurar saber para onde esses valores estão indo. Saber separar quais são os seus gastos fixos, quais são os gastos variáveis”, afirma. Ele comenta que muitas pessoas não contabilizam corretamente os gastos menores, do dia a dia. “Quando a gente começa a fazer gastos diários, no decorrer do dia com gastos pequenos, e que acaba consumindo nosso orçamento de forma mais rápida. E quando chega ao final do mês a gente não consegue saber para onde foi aquele recurso”, explica.

Além de ter identificar como ocorre o uso do dinheiro, adaptar algumas questões na rotina também pode ajudar a equilibrar o orçamento. O economista Caio Mastrodomênico, e CEO da Vallus Capital, dá algumas dicas do que pode ser feito temporariamente. “Busque substituir nesse período o consumo de carnes por alimentos mais baratos, uma boa ideia é fazer sempre pratos únicos. Com os aumentos constantes nos combustíveis, a ida ao trabalho de carro pode ficar mais cara, então busque novas alternativas como transporte compartilhado, ou até carona com colegas de trabalho. Devemos encarar essas medidas como temporárias, porém essenciais, pois por maior que seja a perda do poder de compra, com o tempo a economia se ajusta e o consumidor volta a consumir com mais tranquilidade”, conta.

Futuro

A previsão é que no segundo semestre os preços comecem a melhorar e a inflação comece a ficar equilibrada. “O que se espera para o final do ano é que essa diferença de inflação entre ricos e pobres fique menor e que, no geral, a inflação de todo mundo suba um pouco até o meio do ano e depois comece a desacelerar”, destaca a técnica do Ipea.

Apesar da expectativa de diminuição dos preços no segundo semestre, os próximos meses serão de pico da inflação. “A gente estima que em maio ou junho a gente tenha um pico de inflação. Quando a gente olhar aquela IPCA em 12 meses a gente vai estar em um pico. A partir do segundo semestre, tem um efeito matemático, a gente vai começar a substituir gasto de inflação muito alta em 2020, por taxas de inflação mais baixa de 2021. De maneira que a tendência para o final do ano é uma inflação que tende a desacelerar”, conta.

A subida de alimentos não deverá ser mais tão alta, mas em contrapartida, os serviços deverão ter alta de preços. “Essa desaceleração será de grande uso para os pobres porque a gente espera que os alimentos neste ano vão ter um comportamento melhor. Para os mais ricos, essa desaceleração vai acontecer, mas vai ser freada, porque a gente espera que tenha um aumento maior dos serviços no segundo semestre. À medida que essa vacinação comece a avançar, comece a voltar a uma coisa mais próxima da normalidade, que a gente tenha cada vez menos medidas restritivas de circulação, os serviços que foram muito impactados em 2020, eles vão ter alguma sobrevida maior em 2021, algum espaço de recuperação para recompor as perdas de 2020.A gente sabe quem consome serviços no Brasil são os mais ricos. Quando a gente pensa em serviços afetados, estamos pensamos em cabeleireiro, manicure, comida fora de domicilio, viagem, recreação. Isso são os mais ricos que consomem e isso vai ter uma aceleração da inflação no segundo semestre”, relata.

Índice de preços ao consumidor

Nesta terça-feira (27), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que houve queda no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) no mês de março, considerado uma prévia da inflação oficial. O índice ficou em 0,60%, uma queda de 0,33%, se comparado com o mês anterior, que alcançou 0,93%. Contudo, no acumulado dos últimos 12 meses, o índice ficou em 6,17%.

O cenário deste ano é completamente diferente do que o do ano passado. Em março de 2020, o país registrava um IPCA-15 de 0,02 %. No acumulado dos 12 meses anteriores a março de 2020, o índice registrava 3,67%, um pouco mais da metade do registrado atualmente.

Soluções?

Para os economistas, a realização de políticas públicas pode ajudar a diminuir a desigualdade entre brasileiros, mas precisa ser planejada para ter efetividade e não haver desperdício. “O Brasil já vem de anos de déficit primário, com um problema fiscal que se agrava em todas as esferas, mas, principalmente, em âmbito federal. E sem um horizonte de melhora no curto prazo. O orçamento que está sendo aprovado prevê um rombo gigantesco. A questão central é como ter a execução dos serviços básicos do estado e conseguir suportar esses programas assistenciais como o próprio auxílio emergencial, que é muito importante em um momento como o atual, porém, que estão se tornando cada vez menos exequíveis. O Brasil não precisa de novos programas sociais, mas, sim, tornar os já existentes mais eficientes, evitando desperdício e abolindo a corrupção. O fato é que precisamos ter uma melhora econômica para poder suportar os programas sociais”, destaca Arthur Igreja.

Para Caio Mastrodomênico, os programas precisam ter uma contrapartida como obrigatoriedade de vacinação de crianças e trabalhos sociais voluntários. “Qualquer política pública emergencial que for proposta nesse período deve ser muito bem estruturada, para que a ajuda não se transforme em um grande e fatal prejuízo”, disse.

O economista Wandemberg, destaca que as políticas públicas focadas em diminuir a desigualdade social poderão ajudar muitos brasileiros, mas que uma saída que pode fortalecer a economia é olhar para o setor que emprega. “Quando a gente começa a fazer políticas públicas voltada ao empregador e para o empregado, tem um ganho maior em ambos os lados. O empregador vai poder ter a tranquilidade de contratar mais pessoas, de poder não ficar apertado no final do mês para pagar impostos, seus tributos, e pagar um salário mais digno. E em contrapartida, o empregado acaba sendo beneficiado”, relata.

Texto: Karin Franco

Fotos: Pixabay

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