Qual o impacto de mais de um ano de falta de interação social e contato físico?
A pandemia da Covid-19 restringiu o cotidiano das pessoas ao isolamento social para garantir a saúde e até mesmo a vida. Entretanto, o impacto da falta de contato físico tem consequências diretas na saúde física e mental, como explicam especialistas
O ser humano é um ser social, o toque, o abraço, o beijo e o aperto de mão fazem parte da comunicação e da interação. Com a pandemia da Covid-19 o contato físico se tornou um dos piores inimigos da saúde pública, por transmitir o vírus. Passaram a ser regra, há mais de um ano, diferentes medidas restritivas como cancelamento de aulas presenciais, festas e encontros, e suspensão de atividades esportivas em grupo. Apenas as pessoas que convivem na mesma casa têm o aval das autoridades em saúde para interagir livremente. Isto limitou muito o contato social e trouxe impactos físicos e psicológicos.
O neurocientista Fabiano de Abreu Rodrigues explica que o toque e a troca de afeto são necessidades humanas básicas. Segundo ele, quando acontece o abraço de forma sincera e prazerosa, o cérebro produz hormônios de felicidade, bem-estar e também libera substâncias analgésicas capazes de sanar dores físicas.
“Quando surpreendemos ou somos surpreendidos dessa forma tão íntima, o nosso cérebro inicia a produção de oxitocina, que é um dos hormônios relacionados a felicidade, reduz os níveis de hormônios do estresse e eleva os níveis de serotonina, o que aumenta o bom humor. Automaticamente, por meio desse simples ato, há o fortalecimento do sistema imunológico, melhora na autoestima e controle nos níveis de ansiedade”, explica o neurocientista.
No aspecto psicológico, o contato físico através do abraço provoca a sensação de conexão com o outro, de acordo com a psicóloga clínica, Rafaela Maria Ferencz. “No abraço sentimos o corpo relaxar ao percebermos que não estamos sozinhos, que temos alguém em quem confiar, aumentando o vínculo, o apego, a conexão, ajuda muito quando estamos nos sentindo sozinhos ou até mesmo com raiva”, comenta a psicóloga. Ela frisa que as necessidades de interação social variam de pessoa a pessoa. “Algumas pessoas têm mais necessidade de contato que outras, essas sofrem mais com o isolamento. Tem pessoas que não gostam muito de contato físico, para elas o isolamento está sendo mais fácil”, relata.
Luciano Menon, professor de Educação Física que comandava treinos de basquetebol e voleibol na Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Irati conta que os alunos reclamam da saudade que sentem dos colegas, de não poderem se ver e interagir, além de praticar o esporte preferido. “Para alguns alunos influencia na questão psicológica, a falta das atividades e da interação causa muito estresse, ficar dentro de casa leva ao exagero na alimentação que gera o aumento de peso. Estamos a um ano e meio sem praticar as modalidades, sabemos que não pode ter o contato físico, mas a falta dele também gera muitos problemas”, afirma Luciano.
Quando as pessoas se estressam, o organismo libera o cortisol, hormônio que desregula o sono, o apetite e deixa o cérebro em constante alerta, sem relaxar, explica a psicóloga. “Com a pandemia fica difícil, às vezes, regular o estresse justamente porque grande parte das coisas que fazemos que dão prazer envolvem contato com outras pessoas: abraços, passeios, conversas, risadas”, diz Rafaela.
A falta de contato físico entre as pessoas, de modo geral, pode agravar em quadros de depressão e ansiedade, por aumentar sentimentos de solidão e abandono, segundo a psicóloga.

