Coronavírus: Proximidade da morte no cotidiano trouxe o medo e o desafio de superá-lo

Por Redação 4 min de leitura

Religiosos, espiritualistas e profissionais que atuam na área de saúde mental orientam como encarar a morte e o medo dela. Também explicam a importância de vivenciar o luto e comentam sobre a superação das perdas

Considerada o último capítulo da vida de cada pessoa, a discussão sobre o que é a morte e o sentimento que ela traz a todos ainda é um tabu. Porém, a pandemia do Coronavírus fez com que a morte estivesse no nosso cotidiano, seja pela contagem das vidas perdidas pela doença ou até mesmo a perda de um ente próximo durante este período. Nesse novo cotidiano, surge o medo da morte. Como superar esse medo e o sentimento de insegurança e perda?

Para muitos, a chave está nas religiões. Nelas, vários fiéis tentam encontrar compreensões de como é a morte e como assimilar o fato de ela ser inevitável, parte da própria vida. Para o padre católico, Reginaldo Manzotti, essa superação ocorre quando o fiel encara que a morte é uma transformação. “Para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada. Assim como a semente que, ao cair na terra morre e dessa morte brota a nova vida, cremos que a morte é a passagem para a ressurreição, a nova vida em Cristo”, disse.

Essa transformação também é vista pelo espiritismo, que vê a vida como uma passagem do espírito na Terra e compreende que a morte não é o fim. “As pessoas temem a morte porque não lembram como é a vida do outro lado da vida. Elas esquecem que vieram desse outro lado e têm profundo desejo de não querer se libertar da vida na Terra. As pessoas criam laços por tudo o que têm aqui. O fato de romper esses vínculos em algum momento apavora e cria na consciência o desejo de nunca querer se libertar da vida terrena. Portanto, é necessário desapegar dos sentimentos terrenos e deixar ser envolvido pelos sentimentos de amor. Por intermédio dele, conseguiremos nos tornar mais fraternos, justos e amigos”, explica o escritor espírita Odil Campos.

Nas religiões de matrizes africanas, como o candomblé, a morte é parte natural da vida. “Na tradição ao qual pertenço a morte é um ciclo natural da vida, o qual todos nós vamos passar. Entretanto, diante dos diversos atravessamentos sociais e religiosos os quais passamos, acredito que a forma possível e saudável [de superar] é ter consigo a tranquilidade e a serenidade de ter feito e vivido momentos bons com o ente que veio a falecer”, conta o babalaô (sacerdote do candomblé) Ivanir dos Santos.

Sem velório

Uma das dificuldades que a pandemia gerada pelo Coronavírus trouxe ao cotidiano das pessoas foi a morte sem velório. Para não ter problemas de contaminação, muitos municípios proíbem a realização de velório e a maioria orienta que o enterro seja feito com caixão fechado. Essa prática dificulta o momento de luto e a aceitação da perda.

Para as religiões, a fé pode ser um meio para atravessar esse momento. “Se cremos e temos a esperança da ressurreição, a vida não é tirada, mas sim transformada. Isso não quer dizer que não sofreremos com a perda, quer dizer que saberemos entregar a Deus aquele ente querido”, explica o padre Reginaldo Manzotti.

Para o espiritismo, o luto precisa ser superado e transformado. “É necessário encarar a morte como parte integrante da vida, pois o que morre é tão somente o corpo físico. O espírito continua vivo, pois ele é somente energia. É assim que devemos ver. Além de ser uma realidade, diminui nossa dor”, diz Odi