Qual o sentido atual do civismo? Por que comemorar o 7 de Setembro?

Por Redação Hoje Centro Sul 9 min de leitura

O significado de comemorar a Independência, da rotina nas salas de aula e desfile cívico ao resgate da bandeira do Brasil

Celebrar o 7 de Setembro é resgatar memórias de infância para muitas pessoas pelo clima com fanfarras, uniforme, decorações em verde e amarelo e a rua cheia. Em Irati, a aproximação da data mobiliza a comunidade e movimenta a rotina das instituições de ensino. No entanto, além do compasso das marchas, o significado de comemorar a Independência do Brasil passa por uma transformação profunda. Se em outros períodos da história, o civismo esteve restrito ao ato solene de marchar, hoje a data propõe uma reflexão mais ampla sobre o que significa, na prática, exercer a cidadania e pertencer a uma nação.

A programação oficial do município reflete a dimensão desse sentimento comunitário. Promovido pela Prefeitura de Irati, por meio das secretarias municipais de Educação e de Cultura, o tradicional Desfile Cívico terá início às 8h30 ao longo da Rua Munhoz da Rocha.

A secretária de Educação, Elicéia Halatiki Szereda, destaca o propósito da mobilização nas escolas e na comunidade iratiense. “Mais do que um ato festivo, o Desfile Cívico de 7 de Setembro busca fortalecer valores essenciais como a cidadania, o respeito, o patriotismo e o sentimento de pertencimento histórico”.

A organização do evento prevê a participação de, aproximadamente, duas mil pessoas, reunindo estudantes, profissionais da educação e representantes de diversas entidades locais. A rede municipal marcará presença com 24 escolas e 17 Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), além da integração com a rede estadual, instituições cívico-militares, grupos civis inscritos e o acompanhamento musical de fanfarras regionais e da Fanfarra da Guarda Mirim de Irati.

Cidadania no bairro: o civismo vivenciado na prática escolar

Para quem está na linha de frente da educação municipal, o 7 de Setembro é o momento de evidenciar um trabalho que precisa acontecer diariamente nas escolas. Na Escola Municipal João Batista Anciutti, localizada no bairro Riozinho, os 125 alunos e a equipe de 18 colaboradores vivenciam os preparativos com entusiasmo.

A diretora da instituição, Luziane Freitas da Silva, ressalta que participar desta celebração é motivo de orgulho para a comunidade escolar, funcionando como uma vitrine da força e da participação do bairro. Contudo, ela enfatiza que a formação cívica dos estudantes não se limita às datas comemorativas.

“O civismo na escola não é trabalhado somente em datas especiais, é vivenciado cotidianamente. Temos o momento cívico, onde ressaltamos a importância das bandeiras e cantamos os hinos Nacional, do Paraná e do Município. Porém, para nós, o civismo vai além: vai desde ensinar os alunos a respeitar os demais, cuidar da escola e do bairro, preservar o meio ambiente, jogar lixo nos lugares adequados e entender seus direitos e deveres. É no dia a dia, nas pequenas atitudes e nas rodas de conversa que formamos cidadãos de bem e conscientes”, afirma a diretora Luziane.

Essa perspectiva escolar dialoga diretamente com as transformações históricas do próprio conceito de cidadania no Brasil, mostrando que o amor à pátria se consolida no respeito ao espaço coletivo e na convivência comunitária.

Qual o sentido atual do civismo? Por que comemorar o 7 de Setembro?
Foto: Divulgação

A construção histórica da cidadania no Brasil

A evolução do significado de “ser cidadão” no país é um processo complexo. O docente do Departamento de História da Unicentro, professor Carlos Eduardo França de Oliveira, explica que o debate sobre o civismo e a identidade nacional remonta à própria Independência em 1822, quando o Brasil precisou definir que país e que cidadãos desejava formar.

Segundo o historiador, embora o Brasil tenha adotado uma Constituição liberal em 1824, o país manteve estruturas arcaicas herdadas do período colonial, pautadas na economia agrária exportadora e no trabalho escravo. Por se tornar o último país do mundo a abolir a escravidão, a fundação da cidadania brasileira nasceu com profundas contradições.

“Como é que as pessoas podiam se sentir cidadãs se a participação política delas era pífia? Durante todo o Império, a população escravizada nem direito de existir tinha como pessoa, era vista como propriedade. Quando são libertas no final do século XIX, são jogadas à margem. Ao surgir a República, para votar era preciso ser alfabetizado, sendo que cerca de 70% da população era analfabeta”, contextualiza o professor Carlos Eduardo.

O historiador pontua que o exercício pleno da cidadania, englobando o voto e os direitos civis básicos, é uma conquista recente. Após décadas de participação reprimida e períodos autoritários, foi somente com a “Constituição Cidadã” de 1988 que os movimentos sociais e políticos conseguiram estruturar a ideia de uma cidadania democrática e ampla, que abrange o direito à saúde, educação, vida e dignidade.

Do civismo passivo às exigências do presente

Essa transição histórica alterou profundamente o papel de eventos como o 7 de Setembro. O professor da Unicentro analisa que, em momentos anteriores da história nacional, o civismo promovido pelo Estado tinha como objetivo formar um cidadão mais passivo do que atuante.

“Antes, esse civismo estava muito associado à ideologia que o Estado queria imprimir. As festas cívicas e os desfiles de 7 de Setembro tinham o intuito, muito maior do que criar a figura de um cidadão ativo, de formar um cidadão passivo que endossava a narrativa de um Estado, num amor a uma pátria um tanto quanto abstrata. Abstrata porque, embora existisse, essa população não tomava parte das grandes decisões e rumos da nação. Durante muito tempo isso bastava para as massas se sentirem incluídas no processo político”, explica Oliveira.

Com o amadurecimento e a consolidação da democracia brasileira, esse modelo cedeu espaço a um olhar mais crítico e exigente da população. “Conforme o tempo passa, hoje em dia é muito mais importante você ter direitos efetivos — direito à saúde, à vida, à educação e à dignidade — do que simplesmente dizer que faz parte de um país. Isso mostra um amadurecimento da democracia brasileira: as pessoas não querem simplesmente vestir as cores e achar que está tudo bem, elas querem melhorias de fato na sua vida”, completa o historiador.

A instrumentalização e a disputa pelos símbolos nacionais

Outro ponto central na reflexão sobre a data é a forma como a sociedade se relaciona com os símbolos pátrios. Nos últimos anos, especialmente a partir do período de 2016 e 2017 e com a ascensão do movimento bolsonarista associado à direita e extrema-direita, observou-se uma intensa apropriação da bandeira do Brasil e das cores nacionais por um grupo político específico.

O professor Carlos Eduardo França de Oliveira pondera, contudo, que a apropriação de símbolos nacionais não é um fenômeno inédito no Brasil e nem exclusivo de uma determinada corrente ideológica. Na história brasileira, processo semelhante ocorreu durante o Regime Vargas (a partir de 1930) e na Ditadura Militar (1964-1985). No cenário internacional, democracias liberais, como os Estados Unidos e a França, assim como regimes socialistas e comunistas da China, Vietnã e Cuba, historicamente utilizam suas bandeiras como forte instrumento de comunicação de massa e coesão de poder.

No contexto brasileiro recente, o historiador aponta que a utilização ostensiva da bandeira serviu para criar a narrativa do “verdadeiro patriota”. “Ao tomar a bandeira e as cores do Brasil para si, esse grupo acaba promovendo o sequestro de um símbolo que é nacional, colocando-se como os únicos defensores dos interesses da nação. Trata-se de uma instrumentalização política. Quando não se faz uma análise crítica, a pessoa olha para quem está vestido com a camisa da seleção ou com a bandeira e enxerga ali os detentores da defesa da nação, supostamente mais brasileiros do que os demais”, analisa o docente da Unicentro.

O historiador ressalta que essa comunicação funciona porque a bandeira é um símbolo que já faz parte do imaginário popular desde a infância, nos desenhos escolares e nos desfiles cívicos. O docente conclui lembrando que o Estado-nação e o sentimento de nacionalidade são construções históricas e ideológicas. Sendo a bandeira um patrimônio constitucional de todo o povo brasileiro, o resgate de sua neutralidade passa pelo reconhecimento de que o amor à pátria pertence a toda a sociedade, independentemente de posições partidárias.

Programação em Irati

  • Data: 7 de Setembro
  • Horário: A partir das 8h30
  • Local: Rua Munhoz da Rocha
  • Estrutura: Cerca de 2 mil participantes, reunindo 24 escolas municipais, 17 CMEIs, escolas estaduais, instituições cívico-militares, entidades civis e fanfarras regionais.

A evolução do civismo no Brasil

  • 1822 – Independência: Construção do Estado-nação sob uma estrutura agrária e escravista, com participação política restrita a uma pequena elite.
  • Século XX (Vargas e Ditadura): Promoção de um civismo focado em datas comemorativas e desfiles como ferramenta de unificação e controle ideológico pelo Estado.
  • 1988 – Constituição Cidadã: Marco da democracia moderna no Brasil, expandindo a cidadania para além do voto e incluindo direitos fundamentais à saúde, educação e dignidade.
  • Século XXI (Cidadania Ativa): O civismo passa a ser exercido no cotidiano, por meio do cuidado com o bairro, preservação do patrimônio e exigência por políticas públicas efetivas.

Fernanda Hraber

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