Vulnerabilidade econômica e manipulação aprisionam mulheres no ciclo da violência
Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero revelam que 87% das vítimas no país não nomeiam o abuso que sofrem. Em Irati, a falta de renda própria, a coação sobre a guarda dos filhos e a ausência de horários flexíveis no trabalho reafirmam o silêncio e desafiam a rede de apoio municipal
Por que ela não larga dele e vai embora? Essa é uma pergunta frequente, de senso comum, quando se sabe que há a situação de violência contra uma mulher. Mas o rompimento de um relacionamento abusivo não depende apenas da coragem dela: exige teto, comida na mesa, renda própria e a certeza de que a proteção aos filhos será mantida. No mês do Agosto Lilás, a discussão sobre o combate à violência também trata sobre como a dependência financeira e a manipulação psicológica atuam como algemas invisíveis que paralisam as vítimas e adiam por anos a busca por socorro.
Recentemente atualizado pela 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher – que é uma plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal, em parceria com o Instituto Natura e a Gênero e Número –, o Mapa Nacional da Violência de Gênero expôs o abismo que separa a agressão vivenciada daquela que chega ao conhecimento das autoridades.
Segundo a pesquisa, 93,6% das brasileiras que sofreram violência no último ano estão fora dos registros oficiais de proteção policial. Em nível nacional, cerca de 24,97 milhões de mulheres (87% das vítimas) vivenciaram situações concretas de agressão física, psicológica ou patrimonial, mas não declararam ou nomearam o fato espontaneamente como violência. O levantamento DataSenado mostra que apenas 4% das brasileiras afirmam abertamente ter sofrido violência doméstica nos últimos 12 meses. Contudo, ao serem questionadas sobre situações específicas do cotidiano, sem o uso da palavra “violência”, o percentual salta para 33%.
O peso da renda e o medo de perder os filhos
Os dados nacionais ajudam a explicar por que a vulnerabilidade econômica é um dos pilares de sustentação do ciclo de abusos. De acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, 56% das mulheres que declararam ter sofrido violência vivem com renda familiar de até dois salários mínimos. Em 62% dos casos no Brasil, o agressor é o próprio marido ou companheiro. Além disso, para 69% das vítimas, o episódio mais grave de agressão afetou diretamente sua rotina diária, comprometendo a capacidade de trabalhar e tomar decisões autônomas.
Na prática cotidiana dos serviços públicos de Irati, essa estatística também é evidente. No Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), a violência doméstica atravessa constantemente o atendimento de crianças e adolescentes. A coordenadora da unidade, Moyra Ribas, explica que o público principal do CREAS é composto por indivíduos e famílias em situação de violação de direitos e que a violência doméstica atravessa grande parte desses atendimentos, seja com os filhos sendo vítimas diretas ou testemunhas das agressões.
Segundo a coordenadora, o fenômeno da violência é complexo, social e cultural, sendo entendido em alguns contextos como algo “natural” ou “justificado”. Para além dos abusos físicos, psicológicos e financeiros, Moyra pontua que muitas mulheres enfrentam o receio do julgamento social ao pensarem em se separar ou em reconhecer que estão vivenciando o abuso. É nesse cenário que a vulnerabilidade econômica se transforma em uma poderosa ferramenta de coação pelo agressor.
“Em muitos casos, como há manipulação por parte do agressor, a mulher não visualiza que dará conta dos cuidados dos filhos, mesmo que na prática ela já preste esses cuidados. Ela tem receio de perder a guarda dos filhos devido às condições financeiras, e o nosso trabalho consiste em informá-la adequadamente de seus direitos”, destaca Moyra.
A dependência emocional e econômica é tão profunda que chega a paralisar a capacidade de reação de algumas. Diante disso, a equipe do CREAS precisa criar estratégias de proteção que começam de fora para dentro. “Muitas vezes, a solicitação de afastamento do agressor é feita em relação às crianças e adolescentes para a garantia de direitos. Como a violência doméstica gera dependência emocional e financeira, a proteção se inicia pelos filhos, pois as mulheres, em alguns casos, possuem resistência em solicitar a medida protetiva de afastamento pela Lei Maria da Penha”, revela a coordenadora.
Moyra faz ainda um alerta sobre a gravidade da continuidade desse cenário a longo prazo. Segundo ela, muitos casos atendidos pelo CREAS são intergeracionais: crianças que crescem em um contexto familiar permeado pela violência doméstica tendem, ao se tornarem adultas, a se inserir em relacionamentos abusivos, replicando o ciclo. Quando há necessidade, o serviço atua de forma integrada com o Centro de Referência de Atendimento à Mulher(CRAM), que atende a mulher especificamente, e centraliza os programas e auxílios financeiros.
Mercado de trabalho, parcerias e o gargalo da jornada de trabalho
Se a falta de renda é a amarra que muitas vezes impede o rompimento do ciclo, a emancipação financeira é a chave capaz de libertar a vítima. Em Irati, a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres busca atuar exatamente na ponte entre a proteção e a autonomia.
A secretária da pasta, Maria do Rocio Araldi Rocha, enfatiza que o trabalho é construído por meio de uma rede de parcerias transversais. “A Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres tem parcerias fortes com a Assistência Social, Direitos Humanos, Agência do Trabalhador e Secretaria de Indústria. Também atuamos junto ao Poder Judiciário e Ministério Público, além da Patrulha Maria da Penha e da Secretaria de Segurança Municipal, que disponibiliza uma funcionária capacitada para dar orientações sobre medidas protetivas, renovações e visitas periódicas às mulheres atendidas pelo CRAM”, detalha Maria do Rocio.
No campo da qualificação, a pasta busca oferecer ferramentas práticas para que a mulher consiga ingressar no mercado de trabalho. A secretária explica que são proporcionados cursos de capacitação em parceria com a Agência do Trabalhador, Senac, Senar e Provopar. “Acreditamos que, com a emancipação financeira, a mulher que enfrenta a violência doméstica terá mais forças para sair desse ciclo de violência”, ressalta a secretária.
Para as situações de extrema urgência, quando a vítima precisa deixar a própria casa para garantir a integridade física, os apoios governamentais tornam-se vitais. Rocio lembra que o município conta este ano com o programa Recomeço, do Governo do Estado do Paraná, que concede um auxílio financeiro de meio salário mínimo para mulheres com medida protetiva que precisaram desocupar a residência.
No entanto, ela traz para o debate regional uma provocação direta ao setor produtivo e ao mercado de trabalho local. Na avaliação de Rocio, não basta qualificar a mulher, pois é preciso criar condições reais para que ela permaneça empregada sem desamparar sua família.
“Existe a necessidade de mais flexibilidade nas questões voltadas ao horário de trabalho. A mulher que não possui rede de apoio, encontra um trabalho, mas tem filhos menores em idade escolar e também esbarra na dificuldade em cumprir as 44 horas semanais. Fica a pergunta: como ela vai buscar os filhos menores na escola sendo que não tem rede de apoio? Ela acaba não podendo trabalhar. É importante ter um horário diferenciado ou flexível para que as mulheres que estão passando por essas situações de violência tenham um olhar diferenciado no mercado de trabalho”, defende.
A distância entre a violência vivenciada no cotidiano e os números que chegam às delegacias expõe a dimensão dos desafios das políticas públicas. Segundo a análise do Mapa Nacional da Violência de Gênero, a falta de informação ainda impede que milhões de brasileiras identifiquem a própria situação de vulnerabilidade antes que o abuso se grave.
O estudo conclui que o enfrentamento ao problema exige medidas que vão além da resposta emergencial à agressão, uma vez que o impacto da violência reorganiza a rotina diária, afeta a saúde mental, compromete as relações de trabalho e limita a capacidade de renda, exigindo condições estruturais para que a mulher consiga tomar decisões autônomas e reconstruir sua vida.
A violência no Brasil em números
(Fonte: Mapa Nacional da Violência de Gênero / DataSenado)
- 87% das vítimas em silêncio: Cerca de 24,97 milhões de brasileiras relataram ter vivido situações concretas de violência no último ano, mas não as identificaram ou nomearam espontaneamente como tal.
- A lacuna do registro: 93,6% das vítimas de violência doméstica (26,84 milhões de mulheres) estão fora dos registros oficiais de delegacias, 190 ou Ligue 180.
- Percepção x Realidade: Apenas 4% das mulheres declaram de forma aberta ter sofrido violência; quando perguntadas sobre episódios cotidianos sem citar a palavra “violência”, o índice salta para 33%.
- Perfil do agressor e renda: Em 62% dos casos no país, o agressor é o marido ou companheiro. 56% das vítimas vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos.
- Impacto na rotina: 69% das mulheres afirmam que a agressão mais grave sofrida alterou e desestruturou sua rotina diária de trabalho e vida pessoal.
Rede de apoio e atendimento em Irati
- CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher): Atendimento especializado com suporte psicológico, social, jurídico e orientação referente às medidas protetivas. (42) 9986-52984
- CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social): Acompanhamento focado na superação de violações de direitos intrafamiliares e proteção a crianças, adolescentes e famílias. (42) 3132-6289
- Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres: Articulação de políticas públicas, cursos de capacitação (SENAC/SENAR/Provopar) e encaminhamento para a Agência do Trabalhador. (42) 9200-26952
- Programa Recomeço (Estadual): Auxílio financeiro temporário de meio salário mínimo para mulheres com medida protetiva que precisaram desocupar a residência.
- Segurança Pública e Patrulhas: Acompanhamento de medidas protetivas pela funcionária capacitada da Secretaria de Segurança Municipal em parceria com a Patrulha Maria da Penha. (42) 9842-93963
Fernanda Hraber


