Da sabedoria do quintal à ciência: Rebouças une tradição, fitoterapia segura e memória cultural
Como a integração entre o conhecimento popular e o rigor farmacêutico transforma a saúde pública na região
Um bule de chá e o ramo de erva colhido na hora sempre foram símbolos de cuidado e acolhimento consolidando uma tradição ancestral mantida viva por idosos e benzedeiras da região, que transmitiram de geração em geração o segredo de plantas e infusões para aliviar os males do corpo e da alma. Essa sabedoria popular agora ganha um novo marco pela integração com a ciência e a saúde pública.
Através do programa Plante e Colha Saúde — iniciativa desenvolvida no município de Rebouças em parceria com a Itaipu Binacional e a Sustentec —, a região se prepara para transformar a cultura de uso das plantas medicinais em uma política pública estruturada de fitoterapia na Atenção Básica, garantindo preservação cultural, desenvolvimento econômico e uso seguro para a população.
A ponte entre o saber ancestral e a rede de saúde
A essência da proposta não é substituir o que a comunidade já pratica há décadas, mas somar a chancela científica ao conhecimento de quem aprendeu na prática. A farmacêutica Suelen Patricia Rodrigues, uma das profissionais à frente da implementação do projeto em Rebouças, reforça que a iniciativa nasce do respeito direto às raízes locais.
“Rebouças tem uma população que possui um conhecimento muito rico sobre as plantas medicinais, que foi passado de geração em geração, principalmente pelas pessoas mais idosas e também pelas nossas benzedeiras. A nossa intenção não é substituir esse conhecimento popular, mas sim, valorizar o conhecimento técnico-científico juntamente com o conhecimento tradicional, valorizando e potencializando ainda mais”, destaca Suelen.
A farmacêutica detalha que o projeto envolve a comunidade e os profissionais de saúde. “Na prática, o projeto Plante e Colha será desenvolvido de forma integrada com a Atenção Básica. A nossa ideia é aproximar desde o cultivo até a orientação do uso correto. Queremos criar um espaço destinado ao cultivo de plantas medicinais, o horto medicinal, selecionar espécies e fazer a orientação com uma equipe técnica e com pessoas da comunidade que têm os saberes populares. Futuramente, com a implantação da indústria de beneficiamento, teremos uma estrutura ainda maior que beneficiará não somente a saúde pública, mas também a agricultura familiar”. Segundo ela, a proposta não é apenas sobre plantar uma erva, mas criar todo o processo de educação em saúde.
O projeto de Rebouças segue diretrizes nacionais consolidadas. No Brasil, levantamentos da Fiocruz apontam que mais de 500 municípios já desenvolvem iniciativas de fitoterapia na Atenção Básica. Além disso, o Ministério da Saúde disponibiliza 12 fitoterápicos essenciais no SUS, reforçando que a integração entre a sabedoria popular e a saúde pública é uma tendência consolidada em todo o país.
Memória, identidade e o legado comunitário
Para além da saúde pública, a preservação desse saber em Rebouças carrega um valor afetivo profundo. À frente da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Diandra Andrade destaca que o benzedorismo e o conhecimento sobre as ervas formam o pilar da identidade do município.
Essa ligação com as raízes culturais também traz um significado pessoal para a secretária, que vivenciou o compromisso com a comunidade pelo legado de seu pai, Juca Andrade, ex-vereador do município, falecido recentemente. A atuação dele sempre refletiu o carinho pela história e pelo povo de Rebouças, conforme relata Diandra. “O benzedorismo e a sabedoria das ervas são patrimônios imateriais do nosso povo. Preservar essa história é honrar aqueles que vieram antes de nós e que cuidaram da nossa gente com tanto amor”, ressalta.
Essa missão de salvaguarda ganha ainda mais relevância com a lembrança de figuras emblemáticas da comunidade que partiram recentemente, como a benzedeira Dona Ana Maria, falecida no dia 30 de abril, cuja memória continua sendo celebrada como guardiã das orações e dos remédios da terra.
A voz que cura no quintal de casa: quatro décadas de fé e doação
Na prática, é nos quintais de moradoras como o da benzedeira Izabel Ferreira Bueno Ferraz, de 65 anos, que essa história ganha vida no dia a dia. Dedicada há mais de 40 anos ao atendimento da comunidade, ela carrega no olhar e nas mãos o aprendizado herdado.
“Desde criança, aprendi com os mais antigos a oração e a lidar com o remédio da terra, que a gente planta e faz o chá. Com o passar do tempo, as pessoas foram procurando mais a gente. Eu me sinto muito bem em atender, porque as plantas medicinais ajudam muitas pessoas. É sempre uma troca de remédios para ter mais em casa para o chá. Ajudar os outros é a nossa missão”, relata Izabel.
No quintal da benzedeira, plantas como hortelã, erva-cidreira, boldo, alecrim e camomila são cultivadas para o alívio das dores do corpo, sempre acompanhadas de palavras de fé. Para ela, o ato de benzer e ensinar o preparo das ervas é a realização de um propósito de vida. “Aqui na minha casa tem as plantas que uso no dia a dia para remédio e também ensino para quem vem em busca dos conhecimentos. As pessoas fazem o chazinho e depois voltam agradecendo que ficaram bem e felizes. Para mim é uma felicidade, agradeço a Deus por confiarem na minha palavra e na minha oração”. Izabel enaltece que esse conhecimento é um dom divino.
O segredo da dose: por que o uso das plantas também exige orientação profissional
A aproximação entre a tradição popular e a orientação profissional fundamenta-se em um aspecto essencial trazido pelos especialistas: a busca pelo uso seguro e consciente das plantas. Afinal, cuidar da saúde também exige entender que o fato de um remédio vir da natureza não significa que ele esteja isento de cuidados.
Com ampla experiência na área de manipulação e tradição no setor farmacêutico regional, o farmacêutico Luiz Antonio Fornazari Bini explica que a fitoterapia é uma ciência milenar que nasce da observação popular, mas que exige validação técnica. “A fitoterapia é uma tradição milenar baseada, inicialmente, em resultados de observação de antepassados, comunidades ou populações indígenas. A partir desses relatos, dá-se início à pesquisa dos compostos e à certificação da eficácia e dosagem segura. Infelizmente, o mito ‘é natural, não faz mal’ é bem frequente, trazendo consequências graves”.
O farmacêutico alerta que algumas plantas podem sobrecarregar o fígado, rins e interagir ou anular o efeito de medicamentos que a pessoa utiliza. “Por isso, deve sempre ter a orientação de um profissional capacitado”, destaca Luiz Antonio.
Da folha seca ao extrato padronizado
O farmacêutico também detalha como a manipulação garante a precisão e a segurança que o chá caseiro, muitas vezes, não consegue padronizar. “Na comparação entre um chá e uma fórmula em cápsula derivada do extrato seco da mesma planta, se tem uma potencialização do produto. Em extratos 10:1, por exemplo, 10 quilos da planta fazem 1 quilo de extrato seco. Com isso, se tem uma padronização da dose e uma condensação do produto, facilitando o ajuste diário. Além disso, a farmácia segue a RDC 67 da Anvisa, adquirindo matérias-primas pelo nome científico — já que o nome popular varia entre locais, mas o científico é o mesmo no mundo inteiro — e realizando o controle de qualidade para liberar o produto com segurança”, detalha.
Ao unificar o carinho da sabedoria popular, o incentivo ao cultivo local e a precisão da ciência farmacêutica, a região demonstra que a saúde do futuro pode — e deve — caminhar de mãos dadas com o respeito às suas raízes.
Fé, tradição e partilha de ervas na 5ª Festa do Monge João Maria
A valorização da cultura popular e da memória das benzedeiras de Rebouças terá um momento especial de celebração comunitária. No dia 23 de agosto de 2026, a Prefeitura de Rebouças, por meio das Secretarias de Cultura, Turismo e Agricultura, realiza a 5ª Festa do Monge João Maria, no Parque Ambiental.

Fernanda Hraber


