O silêncio não protege: Maio Laranja reforça que o diálogo é fundamental para prevenir e enfrentar a violência sexual contra crianças

Por Redação Hoje Centro Sul 12 min de leitura

Com ações de conscientização em Irati, campanha Maio Laranja reforça a importância da escuta, da informação e da proteção de crianças e adolescentes. Segundo a pedagoga Claúdia Bonete, conversar sobre proteção exige sensibilidade, responsabilidade e acolhimento. “A base sempre será o estabelecimento de vínculos sinceros, livres de julgamentos e de falso moralismo”, afirma

Muitas vezes, o abuso sexual infantil acontece em silêncio. Sem marcas aparentes. Sem pedidos claros de ajuda. Em alguns casos, ele aparece por meio de mudanças de comportamento, medos repentinos, isolamento ou dificuldades emocionais que atravessam a infância e chegam à adolescência.

É justamente para romper esse silêncio e fortalecer a prevenção que acontece, em todo o país, a campanha Maio Laranja, que tem como marco o dia 18 de maio — Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Em Irati, o tema vem sendo trabalhado com ações da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, reunindo profissionais da assistência social, educação, segurança pública, Conselho Tutelar e entidades da sociedade civil.

No início do mês, o município realizou o evento de abertura da campanha Maio Laranja, reunindo profissionais e representantes da rede de proteção para debater estratégias de prevenção, acolhimento e enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. A programação contou com palestras e formações voltadas à segurança digital, violência no ambiente virtual e fortalecimento da rede de apoio.

Entre os participantes esteve o Instituto Amma, que atua, principalmente, com ações educativas e preventivas. A presidente da instituição, Fernanda Popoaski, explica que o principal objetivo do trabalho desenvolvido pelo instituto é justamente chegar antes da violência.

Segundo ela, o Amma atua por meio de projetos sociais, palestras, campanhas e ações em escolas, buscando levar informação tanto para crianças quanto para famílias e profissionais da rede de proteção. “Nosso principal foco é a prevenção. É chegar antes do abusador”, afirma. A presidente explica que o trabalho desenvolvido busca fortalecer emocionalmente crianças e adolescentes para que consigam compreender limites, identificar situações inadequadas e reconhecer pessoas de confiança.

“É fortalecer as crianças para que entendam a importância e a sacralidade do próprio corpo, quem pode ou não tocar, como deve ser esse toque e quem faz parte dessa rede de proteção”. Ela ressalta que o trabalho preventivo também passa pela orientação de pais, responsáveis e professores, principalmente sobre como agir diante de suspeitas ou revelações espontâneas feitas por crianças.

Segundo Fernanda, muitas pessoas ainda não sabem quais caminhos seguir quando uma situação de violência é identificada. Por isso, além das palestras e projetos, o instituto também busca divulgar o funcionamento da rede de proteção e os fluxos de atendimento existentes em cada município.

“Quando acontece uma revelação dentro de uma escola, por exemplo, os professores precisam saber quem acionar, qual o passo a passo e como essa rede funciona”, explica. Ela cita que, em Irati, o município conta atualmente com um departamento específico voltado à atenção da infância e adolescência, o que representa um avanço importante para o fortalecimento das políticas de proteção.

O Instituto Amma também pretende ampliar o acesso às informações nas redes sociais, produzindo conteúdos voltados a famílias, adolescentes e educadores. Fernanda destaca que a falta de diálogo sobre o tema pode trazer consequências profundas ao longo da vida, pois muitos adolescentes chegam a essa fase carregando dores e violências que não conseguiram verbalizar durante a infância.

“Infelizmente, quando essas situações não são acolhidas ou identificadas, elas podem reverberar mais tarde através de sofrimento emocional, automutilação, isolamento e até tentativas de suicídio”, alerta.

Ela reforça ainda que um dos maiores desafios no combate ao abuso sexual infantil é desconstruir a ideia de que o perigo está sempre fora de casa. “Muitas vezes as pessoas imaginam o abusador como alguém desconhecido, distante, mas infelizmente, na maioria dos casos, ele está dentro do convívio da criança, em figuras próximas e de confiança”, afirma. O Instituto acredita que fortalecer crianças e famílias por meio da informação é uma das formas mais importantes de prevenção.

Diálogo, vínculo e escuta são fundamentais

A pedagoga da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Cláudia Bonete, atualmente lotada no Departamento de Atenção à Primeira Infância, Criança e Adolescente, explica que o enfrentamento da violência sexual infantil passa, antes de tudo, pela construção de vínculos verdadeiros.

Segundo ela, conversar sobre proteção exige sensibilidade, responsabilidade e acolhimento. “A base sempre será o estabelecimento de vínculos sinceros, livres de julgamentos e de falso moralismo”, afirma. Cláudia explica que não existe uma única maneira de abordar o tema com crianças e adolescentes, já que cada fase do desenvolvimento exige uma linguagem diferente.

Ela destaca que a primeira infância e a adolescência são períodos especialmente delicados, marcados por transformações emocionais, físicas e cognitivas. “Cada fase da vida exige uma forma diferente de abordagem para que a criança ou adolescente consiga compreender aquilo que está sendo falado”, explica ela, reforçando que o diálogo sobre proteção deve acontecer de maneira natural e contínua dentro da rotina das famílias, respeitando sempre a idade e a compreensão da criança ou adolescente.

Como conversar com crianças?

Para a pedagoga, mais importante do que “ter a conversa perfeita” é construir um ambiente em que crianças se sintam seguras para falar sobre medos, dúvidas e desconfortos. Ela destaca ainda que muitos adultos evitam o assunto por insegurança ou falta de informação, mas reforça que o silêncio pode aumentar a vulnerabilidade infantil.

A orientação é para que pais e responsáveis observem não apenas aquilo que a criança fala, mas também aquilo que demonstra em seu comportamento. “Escutar vai muito além das palavras. Muitas vezes, a criança comunica sofrimento através de mudanças emocionais, medo, isolamento ou reações diferentes daquelas que costumava apresentar”.

Cláudia também lembra que existem livros, músicas e materiais educativos que ajudam famílias e profissionais a abordarem o tema de forma lúdica e acolhedora, principalmente com crianças pequenas.

A pedagoga inclusive desenvolveu a obra “Chapeuzinho Cor-de-Rosa e a astúcia do Lobo Mau”, em que aborda a proteção infantil através da literatura. Ferramentas educativas podem auxiliar famílias e escolas a iniciarem conversas importantes de maneira mais acessível, cuidadosa e acolhedora para as crianças.

Claudia enfatiza que ensinar regras simples de proteção pode fazer diferença no reconhecimento de situações inadequadas. “É importante que a criança saiba que seu corpo merece respeito, que ela pode dizer não e que nunca deve guardar segredos que a façam sentir medo, vergonha ou tristeza”, destaca.

Os adultos não precisam ter todas as respostas prontas, mas precisam estar disponíveis para escutar. “Muitas vezes, dizer com sinceridade que vai buscar a melhor forma de responder já demonstra acolhimento e confiança”, pontua ela.

A pedagoga orienta que as crianças aprendam desde cedo sobre proteção do corpo e limites. “É importante explicar quais partes do corpo são íntimas e reforçar que nenhum toque que cause medo, vergonha ou desconforto deve ser mantido em segredo”. Entre as orientações que podem ser ensinadas às crianças estão atitudes simples, mas fundamentais: dizer não, se afastar rapidamente e procurar imediatamente um adulto de confiança.

Observação atenta das atitudes

Cláudia também destaca que a escuta vai além das palavras e que mudanças repentinas de comportamento devem ser observadas com atenção.

Entre os sinais que podem indicar que algo não está bem estão regressões comportamentais em crianças pequenas, medos excessivos, isolamento, agressividade, sexualização precoce, queda no rendimento escolar, automutilação e exposição a situações de risco.

Segundo ela, cada criança ou adolescente reage de forma diferente às violências vividas. “Os sinais variam conforme o vínculo com o abusador, o tempo de violência sofrida e também as características emocionais da criança ou adolescente”. Sinais isolados não significam, necessariamente, abuso sexual, mas merecem atenção.

“Nem tudo é abuso, mas toda mudança importante é uma forma de comunicar que algo não está bem”, pontua. Ela frisa ainda que o trabalho em rede é essencial para evitar que crianças e adolescentes sejam revitimizados durante os atendimentos. “A atuação integrada da rede de proteção faz diferença entre a proteção e a revitimização”. De acordo com a pedagoga, o enfrentamento da violência sexual infantil exige união entre escola, saúde, assistência social, segurança pública, famílias e sociedade.

A maioria dos casos envolve pessoas próximas

Muitas das violências enfrentadas por crianças e adolescentes não deixam marcas físicas aparentes. Em diversos casos, elas acontecem como ameaças, manipulações, assédios e abordagens feitas inclusive pela internet.

O coordenador do Conselho Tutelar de Irati e do Departamento de Atenção à Primeira Infância, Criança e Adolescente, Thiago Gorte, explica que esse tipo de situação tem aparecido com frequência nos atendimentos realizados pelo órgão.

Entre os casos mais frequentes estão exposição de crianças a conteúdos pornográficos, conversas de cunho sexual, pedidos de fotos íntimas e outras formas de violência que, muitas vezes, não deixam marcas físicas aparentes.

Thiago ressalta que a ausência de um ato consumado não diminui a gravidade da violência. “O dano emocional existe da mesma forma. Muitos abusadores utilizam, justamente, formas de violência mais difíceis de serem identificadas em exames físicos”.  Também são frequentes os casos de toques inadequados, assédios físicos e situações envolvendo contato em regiões íntimas.

Segundo Gorte, para fins legais, todos esses casos são extremamente graves e salienta que um dos maiores mitos sobre o abuso sexual infantil é ainda imaginar que ele acontece apenas através da violência física cometida por desconhecidos. “A maioria dos casos envolve pessoas próximas da vítima, alguém que conquistou a confiança da criança e da família”. De acordo com o coordenador, cerca de 90% das situações atendidas envolvem familiares ou pessoas muito próximas.

Entre os casos mais recorrentes estão padrastos, pais, avôs, tios, irmãos e conhecidos da família. Thiago observa que isso torna a denúncia ainda mais difícil, já que muitas vítimas sentem medo, culpa, vergonha ou até confusão emocional diante da situação vivida. Crianças em situação de vulnerabilidade emocional ou carência afetiva podem se tornar ainda mais expostas.

O coordenador acrescenta que qualquer suspeita deve ser comunicada aos órgãos responsáveis e que a denúncia pode ser feita de forma anônima. “Denunciar não significa apontar alguém como culpado, mas permitir que os órgãos competentes possam observar, investigar e proteger a criança ou adolescente”. Muitas situações de violência só são identificadas porque alguém percebeu sinais, comportamentos diferentes ou decidiu comunicar uma suspeita.

Ele evidencia que esse olhar atento da comunidade é fundamental para interromper ciclos de violência e garantir que crianças e adolescentes recebam proteção e acolhimento. O coordenador também chama atenção para o fato de que a violência sexual infantil acontece em todas as classes sociais e que, nos casos envolvendo famílias com maior poder aquisitivo, as denúncias costumam ser ainda mais difíceis, muitas vezes por questões relacionadas à imagem social e ao medo da exposição.

Sinais de alerta

Mudanças repentinas no comportamento podem indicar que algo não está bem. Entre os principais sinais observados por profissionais estão:

medo excessivo

isolamento social

agressividade repentina

regressão comportamental em crianças pequenas

pesadelos frequentes

falas sexualizadas incompatíveis com a idade

resistência em ficar perto de determinada pessoa

queda no rendimento escolar

automutilação

fugas de casa

exposição a situações de risco

envolvimento com álcool ou drogas na adolescência

manchas de sangue ou secreções nas roupas íntimas

Especialistas reforçam que sinais isolados não confirmam abuso, mas devem servir como alerta para observação, acolhimento e acompanhamento.

Como denunciar

Disque 100 (gratuito e anônimo)

Conselho Tutelar

Polícia Militar (190)

Delegacia

Rede de Proteção do município

Não é necessário ter provas para denunciar. A suspeita já é suficiente para que os órgãos responsáveis realizem a averiguação e garantam a proteção da criança ou adolescente.

Fernanda Hraber

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