Onde a vida recomeça: maternidade, fé e a força que nasce dos momentos mais difíceis
No Dia das Mães, relatos de mulheres mostram como a maternidade atravessa a dor, ressignifica perdas e revela uma força que muitas vezes nasce no inesperado
A maternidade nem sempre começa com respostas. Muitas vezes, ela chega no meio do medo, da dor e da incerteza — e, ainda assim, encontra espaço para florescer.
Neste Dia das Mães, duas histórias mostram como, mesmo diante de diagnósticos difíceis, perdas e recomeços, o amor pelos filhos pode se tornar a força para seguir.
Diagnóstico, tratamento e uma gestação que mudou o rumo da história
A fotógrafa e cantora, Camila Ramos, tinha 22 anos em 2015 quando descobriu um nódulo na lateral da mama direita. “Como às vezes aparecem e desaparecem alguns sinais no nosso corpo, ignorei”. Um ano depois, o cenário mudou. “O nódulo aumentou e começou a coçar”, lembra ela.
A busca por respostas levou a uma sequência de exames, até chegar ao diagnóstico mais delicado. “O resultado veio como um nódulo que estava encapsulado. Por fora, era benigno, mas por dentro era maligno”. Além disso, já havia afetado outras partes na axila e linfonodos.
O tratamento exigiu uma decisão difícil. “A solução seria uma cirurgia para retirar as duas mamas e os linfonodos afetados. Fui orientada a procurar auxílio psicológico, pois seria uma cirurgia de mastectomia total, e o tratamento com quimioterapia me deixaria estéril”. E, mesmo sem saber tudo o que enfrentaria, ela seguiu.
“Fui forte, mas aceitei sem ter noção do que enfrentaria. Ver outras pessoas passando por problemas sem solução me fez reconhecer a minha dependência médica e também da fé. Não me sentia no direito de me abater. Estava andando, apesar de doente”, descreve a cantora. Durante a cirurgia, uma mudança trouxe um alívio inesperado quando o médico fez uma reunião e disse a Camila que a equipe resolveu poupar sua mama que, até então, estava sadia.
Após a retirada da mama direita, iniciou o processo de reconstrução, mas enfrentou complicações. “Conforme fazia as sessões de quimioterapia, meu corpo começou a rejeitar o expansor, que começou a furar a pele. Tive que aguentar por alguns meses até que o expansor furou a pele. Fiz uma cirurgia de emergência e tive que retirá-lo”.
Foi nesse cenário que a vida surpreendeu novamente. “Percebi a minha barriga crescer. Fiz um teste de gravidez e tive a maior surpresa da minha vida. Estava grávida”. E a gestação veio acompanhada de incertezas. Ela chegou a ser orientada pelos médicos a não se apegar à criança, diante de todo o quadro clínico.
Mas o amor de mãe gritou e transbordou. “De todas as coisas que me orientavam no hospital, essa foi a única que não acreditei. Parei o tratamento e, movida pela sensação única de me tornar mãe, gestei meu menino com muita fé e cuidado”.
E Leonardo veio ao mundo em 2018, super saudável e sem apresentar nenhuma sequela, para alegria de todos. “Consegui amamentá-lo por três meses, apenas com uma mama”. Hoje, Camila segue em acompanhamento e já reconstruiu a mama.
Em 2025, a vida surpreendeu Camila novamente e Gael chegou para completar sua felicidade. “Confesso que a dor, muitas vezes, pode nos fazer ter medo e duvidar de que as coisas vão dar certo. Mas a fé em dias melhores me fez seguir. É um privilégio ser mãe de dois meninos saudáveis e poder compartilhar nossa história de superação. Graças a Deus, o câncer tem cura”.
Atravessar a dor do luto e encontrar novos caminhos
A educadora, proprietária e gestora de um berçário, Caroline Martins de Almeida, fala da maternidade como um processo de transformação constante. “Ser mãe é descobrir que somos pedra bruta — e que a maternidade vem para nos lapidar, sem dó”. Mãe de cinco filhos, ela carrega histórias marcadas por amor, perdas e recomeços.

“Meu primeiro amor, Arthur, com 17 anos, me deu o título de mãe. Pude perceber que aquele lugar de doação era o meu lugar.” Anos depois, enfrentou a dor de um aborto diagnosticado na ecografia e o que era felicidade se tornou tristeza. “ Dei a ele um nome simbólico, Ricardo. Foram poucas semanas, mas tempo suficiente para me ensinar que o amor não se divide — ele se multiplica”. Ela detalha que a partida foi inesperada e seus dias perderam a cor.
Mesmo assim, a vida seguiu e três meses depois, o terceiro amor já estava a caminho. A gestação de Mathias trouxe novos desafios. “Para nosso desespero, Mathias tinha alterações físicas e, depois, a certeza de uma síndrome considerada incompatível com a vida”. Neste momento, Carol sentiu que a vida havia lhe virado do avesso porque não existia mais certeza de nada.
Ainda assim, a educadora escolheu como viver aquele momento: “Fui forte por ele, vivi um dia de cada vez e decidi não viver o luto antecipado”. Mathias nasceu e permaneceu internado. Ele chegou a ir para casa, mas o quadro se agravou.
“Entendemos que ele ia nos deixar e nesse processo teve muita dor, mas também muito amor”.
A despedida deixou marcas profundas. “No dia em que precisei me despedir dele, descobri dentro de mim uma força imensa. Conheci o luto de perto — e tive a certeza de que o amor não se rompe com a ausência física”, define.
Com o tempo, novos recomeços encontraram espaço. “Depois de três anos, chegaram Caio e Iago. Duas vidas, dois corações, dois novos começos. Eles vieram trazendo luz para lugares que um dia foram dor”. Os gêmeos têm dois meses e ela segue reaprendendo diariamente. “Eles não apagam a minha história, mas a continuam. São a prova de que o amor sempre encontra um caminho para florescer novamente”.
Para Caroline, o Dia das Mães ganhou outro significado. “Já não é apenas sobre presença, mas também sobre saudade. É sobre honrar cada filho — os que estão comigo e os que vivem em mim”. Um sentimento que atravessa o tempo e ressignifica a maternidade.
Fernanda Hraber

