O dilema das promessas de janeiro: planejar o ano é uma necessidade ou uma armadilha?

Entre o desejo de mudança e a realidade do cotidiano, especialistas explicam como alinhar a mente e o bolso para que as metas de 2026 não se percam pelo caminho
O início de um novo ciclo traz consigo uma mística quase irresistível. Em nossa cultura, este momento é simbolicamente associado às ideias de recomeço, vida nova e oportunidades. No entanto, conforme as semanas avançam, a narrativa coletiva da “mudança de vida” dá lugar ao peso da rotina, e muitas promessas acabam esquecidas. Afinal, por que é tão difícil manter o planejamento?
A psicóloga Érika Rakus, especialista em análise comportamental clínica, pontua que os fatores precisam ser analisados caso a caso, considerando que cada pessoa carrega uma história de vida singular e está inserida em um contexto atual igualmente único. No entanto, um aspecto recorrente é a definição de objetivos que não estão verdadeiramente alinhados aos valores pessoais. “Em muitos casos, as metas são baseadas em regras externas, como: ‘praticar exercício físico é o certo porque é o que a internet mostra’”, explica.
Segundo Érika, quando a meta não se conecta com quem a pessoa deseja ser, ela passa a depender apenas de motivação momentânea ou pressões externas. “Com o passar do tempo, o entusiasmo inicial diminui, os custos do comportamento tornam-se mais evidentes (esforço, cansaço, frustração) e, sem um sentido pessoal que justifique a persistência, o comportamento perde força e tende a ser abandonado”, descreve a psicóloga.
A pressão cultural e a saúde mental
Essa necessidade de transformação não nasce no vácuo. Érika esclarece que a Psicologia compreende que somos seres culturais e que momentos como o início de um novo ano são socialmente marcados pela ideia de “mudança de vida”. Para ela, essa narrativa pode impactar a saúde mental quando se apresenta sob forma de cobranças excessivas, comparações e expectativas irreais.
“Ao internalizar regras rígidas, do tipo ‘eu deveria mudar de vida’, é comum o aumento de sofrimento psicológico, acompanhado por sentimentos como culpa, frustração e ansiedade. Além disso, o apagamento da singularidade das histórias de vida e dos contextos individuais produz a falsa ideia de que todos partem do mesmo ponto e deveriam alcançar os mesmos resultados”, alerta. A especialista reforça que, se desconsiderar limites e valores pessoais, o discurso da mudança pouco contribui para uma relação saudável consigo mesmo.
O “pé no chão” financeiro
No campo das finanças, Daiane Bobalo, gerente de negócios pessoa jurídica da agência do Sicredi Avenida Vicente Machado, em Irati, identifica que o principal motivo da desistência é a definição de metas fora da realidade. “Logo no início, a ausência de resultados expressivos gera frustração e desmotivação, levando ao abandono do planejamento. O ideal é estabelecer metas compatíveis com o tempo e os recursos disponíveis, tornando-as mais alcançáveis e sustentáveis”, orienta.
Para Daiane, o erro mais comum é definir metas genéricas baseadas mais em desejos do que em planejamento. “Muitas pessoas desconsideram a própria renda, os gastos fixos e os imprevistos, além de não criarem um plano com prazos, valores mensais e acompanhamento. Como consequência, a meta acaba sendo abandonada em poucos meses”, detalha a gerente.
Para evitar esse cenário, ela prescreve uma fórmula exata: elaborar um orçamento com base na renda mensal, distribuindo-a da seguinte forma: 60% para gastos essenciais (como aluguel, energia elétrica, água e alimentação), 15% para imprevistos, 15% para a formação de uma reserva financeira e investimentos de longo prazo, e 10% para despesas supérfluas.
A estratégia dos pilares e do orçamento
Para organizar o ano com sucesso, Érika reforça que é fundamental considerar a vida dividida em diferentes áreas, como trabalho, família, lazer e desenvolvimento pessoal. Ela utiliza a metáfora dos “pilares”: “Quanto maior a diversidade de fontes de reforçamento — ou seja, quanto mais áreas da vida oferecem experiências que fazem a vida valer a pena ser vivida — maiores são as chances de construção de uma vida mais significativa. Isso porque o bem-estar não fica condicionado a um único contexto ou papel”.
Ela faz um alerta sobre o risco de sustentar a vida emocional em apenas um pilar, como o trabalho: “Quando esse pilar enfraquece, se transforma ou deixa de existir, o impacto tende a ser muito mais intenso, dificultando a reorganização e a adaptação. Ter múltiplas áreas da vida ativas aumenta nosso repertório para lidar com as inevitáveis mudanças da vida”, destaca a psicóloga.
Metas sustentáveis e flexíveis
O tipo de meta mais saudável, do ponto de vista psicológico, é aquele que se alinha ao que é verdadeiramente valoroso para cada pessoa. De forma mais direta, Érika ensina que objetivos específicos e graduais facilitam o contato com estímulos importantes. “Metas muito amplas, rígidas ou idealizadas tendem a gerar frustração e abandono, enquanto objetivos construídos a partir de pequenos passos fortalecem a manutenção do comportamento”, afirma.
A sustentabilidade do plano reside na flexibilidade e na disciplina do registro. Como ensina Daiane: “É importante registrar tudo, seja em uma agenda ou no bloco de notas do celular, e realizar um acompanhamento mensal”. E, se o percurso sair do trilho, a orientação é clara: “Caso ocorram imprevistos que ultrapassem o valor planejado, o mais importante é não desanimar, mas recalcular e ajustar as metas”. Érika finaliza lembrando que rotinas sustentáveis devem respeitar o contexto real de vida e ser reorganizadas “sem que isso envolva a ideia de fracasso”.
O planejamento na ponta do lápis
Confira a distribuição sugerida pela gerente do Sicredi, Daiane Bobalo, para um orçamento equilibrado:

Fernanda Hraber

