Dia desses, não sei por que, e também não lembro com quem era a conversa, descambamos (tá certo descambamos?) pra Irati antiga. Lembramos do bar da Sofia, ou bar Maluf; do cinema do “Seo” João, o Theatro Central; do café do Tadeu, ou seria Thadeu? E acabamos deduzindo que pelo público que frequentava estes estabelecimentos grande parte da história da cidade, de alguma forma, se não foi escrita aí, pelo menos muitas de suas páginas foram compostas nesses endereços. No café do Tadeu, dia sim e outro também, o grosso do capital dominante da época tinha encontro marcado a partir do meio dia. Disputava-se, nos dados, quem pagaria a despesa dos cafezinhos consumidos. Entre uma rodada e outra as línguas mais ou menos ferinas colocavam em dia o dia a dia da “comunidade”. E rolava de tudo de negócios a “negócios”. Claro, e não podia ser diferente, as paradas – e que paradas – não raro, acabavam em danos físicos, materiais e morais. Claro que não vou citar nomes, aqui, mas certa vez passando pela frente do café quase fui atropelado por um cidadão que havia levado um murro dentro do estabelecimento, e que murro. O cara caiu na minha frente, no meio fio, com o rosto ligeiramente avariado. Essa foi apenas uma de várias escaramuças ocorridas no local. O quase engraçado de tudo isso é que conviviam – também quase – pacificamente torcedores e dirigentes do ISC e do CAUO. O local era de uma democracia ímpar. O bar da Sofia, ou do Maluf, já era um cenário mais ameno, apesar de não dispensar os frequentadores do café do Tadeu só que, nele, a versão tendia mais pro tipo família. E os sorvetes da Sofia? Quem provou jamais esquece. O de creme, de chocolate, de uva; era artesanato, como era o quibe. O Theatro Central, pra fechar o trio, foi o local dos grandes eventos da época: de festa de formatura a apresentação das grandes orquestras que tocariam nos grandes bailes do Clube do Comércio e do Polonês, foi, como não poderia deixa de ser, aquele tema que anos mais tarde viraria letra de música: “o escurinho do cinema”. E foi naquele escurinho (quando não arrebentava o filme e o Tito acendia a luz da sala de projeção) cúmplice que muitos pais e mães, hoje avôs e avós, se deram as mãos e juraram amor eterno – nem sempre cumprido – e acabaram povoando a cidade de filhos e filhas, que acabaram ficando na cidade ou não. Vista de hoje, a cidade era de uma quase ingenuidade exemplar. Aparentemente, claro, cara-pálida. Éramos todos mais discretos. Mas tudo mudou; a cidade mudou e as pessoas também. Não creio que sejam piores ou melhores, são só as pessoas de hoje. Os valores alterados – também não sei se pra melhor ou pra pior, mas, são os vigentes. E assim vai, ou vamos. No fim de tudo nós passamos e a cidade fica, mas que ela era bem mais divertida, era.
Ed. 505 10/02/2010





