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Acabei de ligar pra Sandra, a dona do jornal, explicando que não cometeria a coluna desta semana. De verdade. Sofro frequentemente uns surtos provocados pelo meio circundante que me joga literalmente no chão, não consigo engrenar uma palavra na outra e o caos se estabelece. Fui salvo pela minha janela. Ela está virada pro Oeste, o caminho de Foz pra Curitiba, e dependendo do teor de umidade do dia a esteira de condensação dos jatos acaba se estendendo desde o horizonte até encontrarem o limite do meu ponto de observação. Esse tipo de observação e a proximidade com aviões sempre foi uma constante na minha vida. Herança de um cara, meu pai, que queria pra Irati o que já havia em outras cidades: um campo de aviação. Lembro da construção do primeiro, um pouco pra baixo de onde seria construído o segundo, aquele que acabou cedendo seu lugar pra que se instalasse, há 12 anos, o distrito industrial. Lembro que eu morava na Rua Benjamin Constant, um pouco pra cima e ao lado da rodoviária – que ainda não existia – e que puxava, a pé, o trecho entre minha casa e o campo de aviação cada vez que chegava um avião que não era o correio do Estado. Eu já sabia, o correio era feito por um Cessna 180 ou um 185 ás segundas, quartas e sextas-feiras. Qualquer coisa fora dessa tabela e a correria estava armada. Eram aviões de táxi aéreo, e eu sabia que daria tempo de chegar até o campo. Lembro de um DC-3 arrendado pelo governo do Estado, na festa do Cinqüentenário, que trouxe o governador. Só conhecia o Douglas pela sua aura nascida na Segunda Guerra, e pelas fotos garimpadas nas revistas de aviação de meu pai. Era muito grande, dois motores radiais, quase trinta passageiros, inteiro metálico, e mal sabia que o destino, anos mais tarde, ia me colocar muito próximo daquele mesmo avião. Lembro de um Bonanza V-35, que numa peregrinação trouxe á Irati a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Lembro também que aquele nosso campo livrou a cara de um piloto do Estado, daquele correio que falei aí pra trás, que pousou aqui com um motor quase travado; de um médico de Barracão que teve a ponta da pá de hélice de seu Cessna 182, arrancada por um urubu; de um piloto conhecido, de Guarapuava, que teve que pousar aqui depois que descobriu que havia um pistão que dilatava excessivamente e ameaçava travar o motor. Era assim, eu olhava pro céu e sonhava e sabia que estar dentro de uma máquina daquelas era uma questão de tempo. O que eu não sabia é que seria por pouco tempo. O meu pavor cristalizou-se quando me falaram de “lesão progressiva no nervo auditivo”, nunca consegui esquecer o terror que essa construção passou a ter na minha vida. E não passou. Mas não morreu ainda o menino que corria atrás de aviões. Que ficava espantado com o DC-3, com o Bonanza, com os Cessnas. Ele renasce a cada dia úmido quando vê a condensação das turbinas dos jatos que vem de Foz pra Curitiba.
E entre a frustração do sonho abatido e o encantamento da esteira de condensação, só espera que aqueles que fazem estas máquinas voarem, jamais ouçam falar de “lesão progressiva no nervo auditivo”. Eles foram meninos que correram atrás de aviões, e meninos que correm atrás de aviões não merecem ouvir isto.

Ed. 497 02/12/2009

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